Formação

A providencial redescoberta da dimensão carismática da Igreja

Cassiano Rocha Azevedo
Consagrado na Comunidade de Vida Shalom

Oh! Abismo insondável de sabedoria e santidade divina. Quão justos e misteriosos são os teus caminhos, Senhor da história dos homens e da Igreja!

Nessa fase da história humana impregnada de materialismo, relativismo moral, secularismo, Deus resolve intervir, de maneira nova e surpreendente, através do seu Espírito. Na sua livre soberania Ele suscita um pastor para a sua Igreja, e este convoca um Concílio: João XXIII abre as janelas do Vaticano e pede um novo Pentecostes, uma nova primavera para a Igreja.

Podemos considerar como frutos do Concílio Vaticano II o rejuvenescimento na dimensão hierárquica e institucional da Igreja, a abertura para uma ativa participação dos leigos no engajamento nas mais diversas áreas, algumas antes destinadas apenas ao clero, a sadia inculturação litúrgica, o incentivo ao diálogo ecumênico e à leitura da Palavra de Deus, entre tantas outras graças.

Deus, porém, não encerra sua obra com a realização do Concílio; pouco mais de um ano depois, envia o seu Espírito Santo sobre um grupo de jovens da Universidade de Duquesne, nos Estados Unidos, reunidos em um retiro num final de semana. Eles experimentaram uma profunda efusão do Espírito em suas vidas. O que conheciam apenas intelectualmente sobre os dons efusos de Atos 2 e 1Cor 12 agora vivenciam, experimentam: línguas, profecia, sabedoria, ciência, cura, milagres, fé…

A partir deles, muitos outros vão tendo esta experiência singular de um novo Pentecostes, como um fogo a se espalhar por todas as nações. Profundos encontros com a graça, fulgurosas conversões, uma sede de conhecer as Escrituras, a busca da santidade, o amor à Eucaristia, a experiência mariana, a renovação do apostolado na Igreja: serviços através da música, da evangelização. Estruturas novas para receber o vinho novo. Leigos assumindo apostolados como há muitos séculos não se via na Igreja.

“Eis que faço novas todas as coisas”. Este é o brado do Espírito, esta é a ação do Espírito. E começam a surgir novas formas de vida comunitária na Igreja, nos cinco continentes, numa criatividade ímpar do Espírito Santo. Muitas abertas aos três estados de vida, profundamente marianas, com uma renovação no apostolado, traços litúrgicos marcantes, numa espiritualidade carismática e com uma profunda sede de santidade que transborda num forte impulso missionário e evangelizador.

Ao mesmo tempo, o Espírito suscita movimentos com carismas específicos que transbordam de seus fundadores por uma experiência pessoal com Cristo.
Movimentos e novas comunidades convocados pelo Papa para um congresso em um grande cenáculo de Pentecostes na Praça de São Pedro.

O Papa reafirma como, durante o Concílio Vaticano II, “a Igreja descobriu como um de seus elementos constitutivos a dimensão carismática”, e fala na praça de São Pedro: “Hoje… desejo gritar: Abram-se com docilidade aos dons do Espírito! Acolham com gratidão os carismas que o Espírito não cessa de enviar! Não esqueçam que cada carisma é dado para o bem comum, isto é, para o benefício de toda a Igreja!”

Carismas, graças particulares que contribuem para o crescimento do homem na graça santificante. “São comunicativos, fazem nascer aquela afinidade espiritual entre as pessoas” (Christifidelis Laici, n 24) e aquela amizade em Cristo que dá origem aos movimentos que “movimentam” a Igreja para Cristo.

O Papa continua dizendo que, diante da cultura de morte em que vivemos, é necessário “um anúncio forte e uma sólida e aprofundada formação cristã. Hoje, há uma grande necessidade de comunidades cristãs vivas! E eis, então, os movimentos e as novas comunidades eclesiais: são uma resposta suscitada pelo Espírito Santo a este dramático desafio de final de milênio”, e acrescenta: “Vocês são esta resposta providencial!”

Percebemos o quanto Deus tem derramado o seu Espírito Santo num novo Pentecostes, por todas as nações, para semear na terra as sementes da nova evangelização do terceiro milênio. Com certeza este será o milênio do Espírito Santo, e o século XXI, o século da evangelização.
Diante da cultura de morte em que vivemos o Espírito suscita nos carismas derramados, uma profunda dimensão missionária não só “Ad Gentes” para o exterior, mas dentro da própria nação, cidade, trabalho, família.

As novas comunidades e os movimentos que surgem no crepúsculo do século XX serão o grande fermento para a humanidade na aurora do século XXI. São novas famílias que surgem com um modo de vida embasado nos conselhos evangélicos de pobreza, obediência e castidade, mais próximas de Jesus casto, pobre e obediente, a testemunhar para os povos que é possível ser feliz vivendo uma vida sóbria, simples e fraterna.

Muitos dos membros de Cristo, feridos pelo pecado, irão se curar pelo contato com estas novas famílias comunitárias e pelas obras de novidade que o Espírito Santo tem gerado no mundo inteiro. Aliás, já vemos isto se realizar, ou o que se dirá das centenas de excepcionais que encontram acolhida e reestruturação de sua dignidade nas dezenas de comunidade da Arca, espalhadas pelo mundo inteiro, fundadas por Jean Vanier?

Quantos têm sido curados e reerguidos nas novas comunidades, através do testemunho da vida fraterna e de seus diversos carismas com alcoólatras, drogados, pessoas com desvios na sexualidade, enfermos, menores carentes, crianças abandonadas, anciãos, marginalizados?! Quantas famílias têm ressuscitado através do carisma de cura, da oração comunitária e do casal! Milhares de jovens têm consagrado sua sexualidade a Deus para viverem a pureza; quantos grupos de crianças têm surgido com experiência de oração, intercessão, música, teatro! Quantos anciãos têm reencontrado o sentido de suas vidas, sendo libertos da amargura, murmuração e depressão para uma vida de louvor e serviço ao reino!

Verdadeiramente te louvamos, Senhor, porque quiseste que a resposta providencial para a tua Igreja neste final de milênio fosse um novo Pentecostes, que atingisse a todos os povos e nos abrisse para uma redescoberta da dimensão carismática da Igreja a fim de sermos conduzidos para uma mesma experiência e missão: viver e anunciar a tua morte e ressurreição.

Obrigado, Senhor, pelos grandes frutos do Espírito na humanidade, pelo reconhecimento, incentivo e esperança do Papa na existência e missão dos movimentos e novas comunidades para o terceiro milênio.

Obrigado pela obra nova que surge no deserto de uma humanidade sedenta, desesperançada. Sim, há esperança para a cura de suas feridas, tu o dizes, Senhor!
“O Espírito e a esposa dizem: Vem! E o que ouvir diga: Vem! Que venha o que tem sede.


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