Formação

A sexualidade deve influenciar positivamente no crescimento espir

Médico italiano e membro da Secretaria Internacional doMovimento Famílias Novas, do Focolares, Raimondo Scotto é autor do livro O AmorTem Mil Faces, no qual trata da importância do amor na vida a dois de forma acriar um ambiente favorável à educação dos filhos. Para ele, o conceito de amornão deve ser distorcido e a sexualidade deve influenciar positivamente nocrescimento espiritual do indivíduo.

Numa entrevista informal, Raimondo Scotto faz comentáriossobre a importância da presença dos pais na vida de seus filhos para que elespossam desenvolver sua própria sexualidade. Além disso, ele nos mostra o quantodeve-se dar valor à fertilidade e à vida conjugal.

 Que faces do amor estão distorcidas hoje?

Raimondo Scotto: Não são as faces do amor que estãodistorcidas. O que está distorcido é o conceito de amor. Isso porque muitasvezes confunde-se amor com sentimento. Ambos são importantes, mas o amor tem algoa mais que compreende o sentimento, o qual é uma coisa variável pois depende decomo a gente se sente. Um dia nós queremos bem a uma pessoa, noutro dia não,isso porque a saúde pode não estar boa. O amor é querer o bem do outro, porque,quando não há mais sentimento, é a vontade de amar que deve entrar emmovimento, de forma a recuperar o sentimento, que se torna mais forte do queantes.

 Então, essa face do amor tem de ser descoberta?

Sim, pois, quando nos referimos a um casal que parte de umapaixão gratuita, imagina-se que ela vai continuar para o resto da vida, e issoé um erro. O amor é diferente, porque só através dele duas pessoas deixam suasfamílias de origem para viverem juntas. Na paixão, o que existe é uma imagemidealizada e não concreta do outro. Descobrir o outro faz com que você aprendaa querer o seu bem, no momento em que a paixão, o sentimento, não seja mais tãoforte como no início.

 Há anos, a sexualidade estava ligada apenas à procriação,hoje em dia há um outro entendimento, mais amplo. Como encontrar o equilíbrioentre a sexualidade e a procriação atualmente?

Antigamente, a sexualidade era vista somente em função daprocriação, mas, hoje em dia, ela é vista positivamente como dom de Deus. NoAntigo Testamento, Deus não fala só em crescer e multiplicar-nos, mas diz haverhomem e mulher para que sejam uma só carne, correspondendo à dimensão unitivada relação sexual. É preciso acrescentar que, depois do Concílio Vaticano II, adimensão relacional, ou seja, a capacidade que a relação sexual tem de ajudar ocasal a construir a unidade, foi redescoberta. Portanto, a existência danecessidade do amor é anterior à vinda de um filho na vida do casal, pois, pormais que ele seja importante nessa união, se o casal não consegue tê-lo, o amordeve estar presente numa relação sexual. Essa é sempre fecunda, embora possanão ser fértil, pois ajuda o casal a crescer, agindo de forma positiva em todaa sociedade. Como é que se encontra o equilíbrio? Entendo que, em primeirolugar, vem o amor. Sem amor, ainda que um filho tenha valor positivoindependente da maneira como ele venha a nascer, a relação sexual se tornaeticamente negativa.

 Podemos então dizer que esse conceito de sexualidade seencontra um pouco distorcido entre a sociedade?

Sim, porque a sociedade, que desenvolveu bastante o aspectoindividualista, criou a mentalidade de que qualquer necessidade deva serimediatamente satisfeita. Sendo assim, não existe mais a conexão entre asociedade e o amor, pois ela não faz mais a distinção entre a sexualidade e agenitalidade. Isso porque, quando falamos em genitalidade, estamos reduzindo ovalor da sexualidade, a qual é componente fundamental que entra em toda nossaafetividade. Portanto, se um casal não conseguisse mais ter relações sexuaisgenitais, mas continuasse a ter uma relação afetiva, de ternura, a sexualidadese expressaria da mesma forma plenamente. Hoje em dia, os meios de comunicaçãodão uma atenção exagerada à questão do orgasmo. Entretanto, devemos semprecolocar a nossa atenção no amor, porque casais idosos que não conseguem maister relações sexuais, por exemplo, mas que, por meio de outras manifestaçõesafetivas, se sentem como o “tu” privilegiado do outro, experimentam um outrotipo de orgasmo: o do coração.

 Que tipo de enfoque deve ser dado à sexualidade na educaçãodos filhos?

É preciso que os pais saibam transmitir um conceito positivoda sexualidade. Eles devem se convencer de que, antes das palavras, existe otestemunho da própria vida. O valor de entender o seu corpo, a sua sexualidade,passa através de uma série de atitudes que o filho capta da nossa maneira deconsiderar esses pontos. Os pais precisam reconhecer o momento e a maneira defalar sobre o assunto na educação dos filhos, fato que só pode ocorrer de formacorreta se existir o amor na vida do casal.

 Isso ajuda a criança a se orientar nesse mundopermissivista?

Sim. Ajuda muito, porque, se em casa a criança experimenta oamor verdadeiro, ela entenderá que ele requer a renúncia. No momento em que elapercebe que nem todas as suas atividades podem ser gratificadas, adquire acapacidade de autocontrole. Vale a pena atentarmos para o fato de que aeducação sexual começa quando os pais ensinam a criança a comer com a colher enão mais com as mãos, recebendo proibições que devem ter seus motivosexplícitos para a criança. Além disso, deve sempre haver diálogo entre os pais,e também entre eles e os filhos, de forma positiva, pois, num ambiente dessetipo, a criança será mais capaz de administrar seus impulsos sexuais que aindaaparecerão. Se a criança, desde pequena, aprendeu, por exemplo, a administrar ouso da televisão e dos meios de comunicação em geral, terá maior facilidade emfazer suas próprias escolhas e saberá lidar com os fracassos.

 Que palavra nós podemos dizer aos jovens sobre a idéia dosexo livre?

Os próprios jovens sabem que, no fundo, esse sexo livre nãoos deixa satisfeitos, porque muitas vezes passam de uma experiência sexual aoutra em busca de uma gratificação que nunca chega. Então, eu os convidariasempre a ligar o sexo ao verdadeiro amor. Essa é a possibilidade que asexualidade tem de gratificar as pessoas em todos os seus limites, não sófísicos, mas também psicológicos e espirituais. Então, eu os impulsionariasempre a ligarem o sexo ao amor, e amor exige renúncia. Vale a pena ressaltarque, apesar de toda a liberalização sexual, nós não estamos diante de jovensfelizes.

 Sexualidade é um componente da identidade. Como ligar issoao problema do homossexualismo?

Do meu ponto de vista, a homossexualidade é um distúrbio deidentidade, devido a vários fatores concomitantes que podem ser tanto genéticosquanto aqueles ligados à educação e a fatores sociais. A família é muitoimportante para que a criança tenha um crescimento contínuo, de modo afavorecer o desenvolvimento de uma identidade de forma mais segura. E, se emalguns momentos ela possa vir a ter dúvida sobre a sua sexualidade, é precisoque os pais tenham a coragem de procurar bons especialistas que possam lhes darconselhos sobre como devem se comportar. Logicamente, depois que a sexualidadepassa por uma série de experiências, ela se torna característica de umindivíduo adulto. É por isso que, mesmo quando alguém quer reorientar seusimpulsos sexuais depois de adulto, isso é muito difícil de se conseguir, emboranão seja impossível. O ideal sempre é orientar a criança e o adolescente,impedindo que o problema se estenda à idade adulta. Essa é a granderesponsabilidade dos pais e da família, bem como dos educadores eevangelizadores.

 Sexualidade e religião. Qual é a importância desse tema nacatequese da criança e, especialmente, na de jovens e adultos?

É muito grande, mesmo porque, em geral, o povo não conhece opensamento da Igreja sobre a sexualidade. Eu gostaria de saber quantas pessoas,sejam elas catequistas ou até mesmo sacerdotes, tiveram a possibilidade deconhecer os discursos que João Paulo II fez sobre o corpo, que sãomaravilhosos. Com esse conhecimento, ambos teriam a tarefa de torná-loscompreensíveis a todos. Só assim, então, se entenderia o valor positivo que aIgreja dá à sexualidade, o que também está na primeira encíclica de Bento XVI.Seria necessário que todos os catequistas e evangelizadores se aprofundassempara ver que conseqüências têm esses discursos. Devemos, cada vez mais, nosconvencer de que a sexualidade é um grande dom de Deus. Não que a Deusinteresse o fato de os jovens terem ou não relações pré-matrimoniais; a Eleinteressa que tenhamos uma sexualidade que seja gratificante do ponto de vistahumano, o que só acontece com o matrimônio. O lado negativo das relaçõespré-matrimoniais não está na relação sexual em si. No entanto, o risco queexiste nas relações pré-matrimoniais é aquela de impedir a experiência de umasexualidade ainda mais bela e madura depois do casamento. Então o “não” que édito, a renúncia à qual se é impelido, é para participarmos de uma experiênciaainda mais bonita e de um bem maior. Não que isso signifique a perfeição, mesmoporque pode-se errar muitas vezes. O importante é ter presente aonde queremoschegar e recomeçar sempre.

 O que o senhor tem a dizer sobre as mulheres solteiras quetêm interesse em ter o que chamam de “produção independente”?

Eu diria: querer conseguir um filho a qualquer custo éreduzi-lo a um objeto. Sendo assim, faz-se derivar do filho o próprio bem-estarda mãe. Colocar uma criança no mundo parece ser algo relativamente fácil, sóque educar o filho é muito mais difícil. Isto é passar da fertilidade àfecundidade. Quando as crianças começam a crescer, elas começam a se contraporaos pais, aí começa a dificuldade. Essa experiência também acontece com oshomossexuais que querem ter um filho, e com a mãe solteira que quer tê-lo comoescolha livre. O problema é que, quando falta a figura paterna, podem ocorrermuitos distúrbios do ponto de vista educacional e a identidade dessa criançapode ficar prejudicada. A família é a primeira responsável pela educação dosfilhos, e a educação sexual a ninguém pode ser delegada. Todas as outrasentidades podem ajudar a família, mas nunca substituí-la. Além disso, deve-seeducar a criança a receber manifestações afetivas dos pais, para que, na faseadulta, ela seja capaz de ter relações afetivas positivas com seu cônjuge. Umaoutra responsabilidade dos pais é a de responder às primeiras perguntas comrelação à sexualidade, nunca com explicações longas demais, mas de maneira queas crianças sejam capazes de entender na idade delas. É importante que a mãenão prevaleça sobre o pai e vice-versa, pois a criança deve ter uma avaliaçãopositiva de ambos os sexos. E um efeito positivo é amar a criança realmente,mostrando a importância dos papéis de cada um na família.

 Então, o que falta realmente é a educação para formar afamília…

Sim, mas em todo o caso não é preciso que se façam grandescoisas. Se os pais se amam, já transmitem uma experiência positiva dasexualidade, logo, eles tendo uma visão positiva de sexualidade e entendendoque isso é a vontade de Deus, farão com que as próprias crianças entendam queisso faz parte do projeto de Deus. Isso não exclui o fato de que a famíliaprecisa se informar um pouco e pedir conselhos a outras famílias, aespecialistas, mas depois são sempre o pai e a mãe que devem decidir comofazer.

 

Então nós, pais, educadores, professores, catequistas,evangelizadores temos obrigação de nos informar lendo bons livros para podermosorientar melhor as pessoas sobre o amor verdadeiro que vem de Deus…

Sim, é muito importante que a família se atualize. O meulivro, por exemplo, quer ser justamente uma ajuda para a família e também paratodas as pessoas que queiram saber o sentido positivo da sexualidade. Mas emprimeiro lugar, os documentos dos papas são muito importantes. É bom ressaltarque nós temos a tarefa de mediá-los, porque, às vezes, possuem um tipo delinguagem que não dá para entender facilmente pelas pessoas comuns. Então,nossa tarefa é fazer com que os evangelizadores traduzam essas mensagens emtermos compreensíveis para o lugar onde estão. Todos nós devemos fazer isso,todos nós temos responsabilidade no campo da educação e devemos fazer amediação entre aquilo que diz a Igreja e aquilo que o povo é capaz de acolher.

 Os meios de comunicação ocidentais deturpam e deformam osvalores da família, do amor e da sexualidade?

Eles deformam muito o conceito de sexualidade, porque, paravender um produto, procuram estimular uma das necessidades mais fortes do serhumano que é a necessidade sexual. Isso implica a necessidade de sermoscríticos com relação aos meios de comunicação. Certamente, parece uma lutadesigual entre a realidade que a família gostaria de propor e aquilo que éproposto pelos meios de comunicação. Mas quando são lançadas sementes dentro dafamília, a longo prazo elas produzem frutos no interior da pessoa.


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