Formação

A vida pré-natal

O início da vida humana, acontece exatamente no momento da fecundação ou união dos gametas. Na antigüidade, muitos povos acreditavam que a alma não existia por ocasião da fecundação, baseados principalmente na teoria de Aristóteles, o qual defendia que na espécie humana, ocorria uma animação sucessiva ou retardada, em que era necessário a existência da matéria para que aquela área fosse considerada existente. São Tomaz de Aquino foi um de seus seguidores. No século II, autores cristãos como Tertuliano passaram a defender a existência da alma já na vida pré-natal. A hipótese de animação imediata foi postulada pelos padres da Igreja, entre eles São Gregório Nizeno e São Basílio, atualmente embazada cientificamente. Com esta teoria fica-se determinado que a partir da fecundação já existe uma realidade humana, distinta da realidade materna, e com total potencialidade para autonomia fisiológica e anatômica. Outro aspecto importante a se considerar é referente às teorias evolucionistas. O embrião humano é em essência um verdadeiro ser humano e não uma variação de espécie animal como querem aqueles que defendem que a antogênese recapitula a filogênese.

A fecundação

No momento em que o espermatozoide penetra no óvulo, a célula ovo formada dará origem ao novo ser, à nova criatura. Esta célula totipotencial, bem não fica formada, já é de extremo dinamismo, começando o fenômeno maravilhosos do crescimento. Este fenômeno da fecundação tem como palco as trompas de falópio, num período muito limitado de tempo.

Os espermatozoides alcançam o óvulo quando este inicia sua viagem através da trompa, caso isto não aconteça, o óvulo perde sua vitalidade e morre antes de chegar no útero. O processo de penetração do espermatozóide é mediado por reações recíprocas – o espermatozóide que faz o reconhecimento do óvulo, como pertencente à sua espécie; e o óvulo por sua vez libera substâncias químicas que atraem os espermatozoides e vice-versa, os espermatozoides também liberam substâncias para atrair o óvulo. Uma vez que o espermatozóide tenha atravessado a grossa capa que envolve o óvulo, o mesmo é fecundado, voltando de imediato a se tornar impermeável a entrada de outros espermatozoides.

Na penetração do espermatozoide a cauda se desprende , não participando do conteúdo que entra no óvulo.

Período germinal

Temos o ovo formado e como foi dito, inicia-se de imediato o processo de crescimento do novo ser, a partir da multiplicação celular, como método no processo de segmentação. Com uma semana de evolução, o novo ser tem aproximadamente uma centena de células. Neste período já tem chegado ao útero. O resultado desta intensa multiplicação celular é a formação de uma esfera oca, o blastocisto, cuja células internas darão lugar à formação do embrião e as células externas à placenta. O blastoscito move-se livremente no útero até que entre 7 e 10 dias de fecundação se adere às paredes uterinas que estão preparadas para recebê-lo e alimentá-lo, através de um revestimento rico em vasos sangüíneos. A capa externa da esfera oca, produz uns fermentos histolíticos, isto é, secreções que corroem a parede uterina e cava um nicho onde se implanta um novo ser, este por sua vez desenvolve prolongamentos para absorverem o sangue dos vasos sangüíneos circundantes. Após a implantação, a ferida provacada cicatriza, e a pequena “esfera” fica totalmente envolvida por tecido uterino. Este processo de implantação termina aos 12 ou 13 dias da fecundação. Em torno de 50% dos zigotos não conseguem realizar este processo de implantação, geralmente porque são anormais.

Período embrionário

Aos 14 dias a placenta a ser formada. A camada externa do blastocisto se converte em corcion, uma espécie de membrana protetora, que juntamente com os tecidos uterinos formará a placenta. A placenta terá uma função muito importante como mediadora do intercâmbio entre mãe e filho, garantindo ao novo organismo a passagem de substâncias nutritivas, órgão excretor para eliminação dos catabólitos ou resíduos do metabolismo do pequeno ser; funciona como pulmão para oxigenar o sangue fetal e ainda produz hormônios à semelhança de uma glândula de secreção interna. O cordão umbilical que se forma também neste período, se implanta no centro da placenta e é ele que realiza a comunicação do embrião com a placenta. Também é formado o saco embrionário, que rodeia o embrião e se mantém cheio de líquido, protegendo o mesmo de golpes e pressões, amortecendo-os.

O embrião agora cada vez mais dentro do corpo de sua mãe, recebendo dela tudo necessário para sua subsistência, tem no entanto uma certa autonomia se considerarmos o seu desenvolvimento e seu crescimento. Chamamos atenção que o fluxo dos apostes nutritivos da mãe para o filho, é unidirecional, não havendo mistura do sangue materno com o do embrião.

O coração do embrião começa a bater com um mês de vida, impulsionando o sangue pela rede circulatória embrionária, o qual é oxigenado pela placenta. Aos 2m o embrião já tem originado todos os órgãos corporais (e a face tem traços reconhecíveis dos órgãos), (exceto os órgãos sexuais), e aparecimento das primeiras células ósseas, o embrião passa a ser chamado FETO. No período embrionário se destaca a rapidez do crescimento e também uma maior sensibilidade à contaminação por certas doenças infecciosas e também aos efeitos da desnutrição materna, com implicações tanto na estrutura anatômica como funcional do organismo em formação. No período entre 2° e 3° mês de gestação é o mais provável a abortos espontâneos ou natural.

Comportamento materno

A gravidez provoca no organismo da mãe, modificações significativas, tanto de natureza endócrina, metabólica, como neurovegetativas, em conseqüência ao processo adaptativo ao importante papel da maternidade. Podemos dizer que neste período o organismo materno entra em hiperatividade e a mãe sente maior necessidade de repouso e descanso. Coincidindo com esta necessidade sono (hipersônia) a mãe também como que regride psicologicamente ao centralizar-se mais em si mesma (ensimesmamento).

As primeiras suspeitas de gravidez estão relacionadas aos sintomas cansaço, hipersonia, verificação da falta menstrual, e em muitos casos “mal estar” gástrico, náuseas, vômitos, produtos das modificações endócrinas e metabólicas.

Muitos estudiosos sobre o fenômeno da gravidez, comentam da atitude da mulher ante a suspeita de estar grávida. Ela tem agora um corpo que é o receptáculo de um tesouro. Todo ele tem um outro significado, sente que há neste corpo uma profunda transformação. A primeira gravidez torna o corpo da mulher magnificamente belo, sua pele se torna mais viva, e delicada, e o peito se torna mais firme.

A mãe ausculta a si mesma, mas também àquele que cresce dentro dela.. Uma verdadeira revolução afetiva se produz no seu interior.

A medida que avança a gravidez esta presença física e psicológica do filho que ela abriga em seu ventre, incrementa uma exaltação do seu eu interior, sente-se habilitada por uma força maior que a sua, seu ser é agora mais denso, vivenciando a duplicidade dos 2 corpos e das 2 vidas em si. Esta nova sensação de plenitude a direciona ainda mais para dentro de si, reflexo das transformações do seu corpo e de sua afetividade.

“O amor a si mesma é o prelúdio do amor para o novo ser”. As mulheres que não tem uma auto-imagem positiva, ou então as mulheres que se amam desmesuradamente, têm dificuldade de manter este diálogo amoroso entre ela e o filho que cresce dentro de si, para perdurar numa intimidade.

A gravidez vai transformar as relações consigo mesma e com os demais. A atitude narcisista que a grávida adota, chama atenção dos familiares, muitas vezes criticando-a. O esposo por sua vez sente-se deixado de lado, passando a solicitar da esposa uma atenção redobrada. É importante que o esposo saiba de todo este dinamismo, para que ele possa colaborar, fazendo-a sentir-se cuidada, compreendida, amada, para que a esposa possa se dar ainda mais ao seu filho, que está sendo gestado. Por outro lado os filhos maiores reclamam da mãe assistência continuada, sobretudo pela capacidade própria que têm de captar muito precocemente a gravidez da mamãe. Igualmente devem ser orientados de acordo com suas idades, e lhe pedido uma colaboração. Esta atitude dos pais favorece um clima de alegria e satisfação no ambiente familiar. É importante que lhes seja transmitido que tal acontecimento não os fará sentir-se excluídos ou substituídos, mas que na partilha e na convivência serão não só valorizados como irmãos mais velhos, como haverá a continuidade do amor que recebem.

A mãe por outro lado tem que preparar-se para o nascimento do seu bebê, fato este que vai quebrar a vivência de um eu que se exaltou.

O fato de uma mãe preparar um berço, as roupinhas, os utensílios que serão usados pelo neném, concretiza a separação que a mãe terá, e estimula-a para elaborar o sentimento de perda que em breve será vivenciado.

Período fetal

Começa aproximadamente com 8 semanas de gestação. Durante este período o novo ser necessita para alcançar toda maturidade necessária, para viver fora do organismo materno. Há um contínuo de crescimento e desenvolvimento de cada órgão. Aos 7 meses de vida intra uterina, o feto está apto para uma vida independente, embora ainda não com uma prontidão satisfatória. Seus órgãos e sistemas funcionam de forma rudimentar, e se o nascimento ocorrer neste período, o bebê requer cuidados especiais.

No final da gravidez a mãe experimenta os temores de um parto que se aproxima, mas também conscientiza a responsabilidade do cuidado que o filho implica. Teme ainda que seu bebê não seja perfeito. A estas fantasias negativas se contrapõem outras positivas de um lindo e saudável filho que terá. Nesta fase, para as atividades do lar, e para as relações sexuais sente-se menos disposta. Se tem demonstrado que não há prejuízo do relacionamento sexual, no final de uma gravidez normal.

Vida psíquica pré-natal

Desde o mais precoce da concepção já existe uma vida psíquica, embora não haja manifestações; é necessária um certo desenvolvimento corporal para que se manifeste a vida psíquica, segundo Jerônimo de Moragas.

No desenvolvimento neurológico alguns acontecimentos são expressos para se definir etapas. As respostas neuromusculares a estímulos são claramente reconhecidos antes do 5° mês de gravidez e podem ser considerados como manifestações preliminares de uma vida psíquica. Estas manifestações neuromusculares foram observadas por Carmichael e Minkowski, embora de forma incipiente, já no 3° mês.

As vias gustativas e olfativas se desenvolvem mais precocemente, enquanto que as ópticas e auditivas só iniciarão a funcionar por ocasião do nascimento, pois requerem estímulos do mundo externo. O feto tem dificuldade de sentir o mundo que o cerca, mas não é impedido para sentí-lo. Seu cérebro está cada vez mais pronto para facilitar sua sensibilidade próprio sensitiva. Ele experimenta desejos e afetos. Mas também, mediante evolução dos processos metabólicos, endócrinos ou afetivos da mãe, o feto experimenta sensações de agrado e desagrado.

O eu fetal
Freud já falava que existe um contínuo da vida intra-ulterina com a primeira infância. A escola Kleiniana fala de eu pré-natal. Os estudos de vários autores mostram que um prematuro tem a capacidade de adaptação, comprovando a existência de uma organização psíquica de 24 semanas já é capaz de exercer a sucção e a deglutição bem como de reagir aos sabores de doce e salgado e aos estímulos olfativos. Com 28 semanas já reage à luz e a escuridão, se supõe que seja capaz de reagir às sensações cutâneas de dor, de temperatura e pressão, antes do nascimento.

O eu do feto não necessita se adaptar ao meio, uma vez que a mãe cumpre esta tarefa e segundo Paul Osterrieth o principal trabalho psíquico do feto consiste consiste em uma visualização interior dos objetos internos herdados, em forma de imagens, que seriam as protofantasias herdadas.

O Eu pré-natal é totalmente permeável aos conteúdos do Ele (mãe), não havendo um limite entre o Eu e Ele, já que a repressão se estabelece com o nascimento. Portanto o Eu se iria formando por identificação com padrões herdados construídos no Ele. As protofantasias herdadas seriam como planos a partir dos quais se construiria o eu. Além do mais, a permeabilidade entre o Eu e o Ele, semelhante a permeabilidade e simbiose biológica com a mãe, também se rompe com o nascimento. Este seria então o momento em que o Eu fetal se veria obrigado a buscar objetos externos para satisfazer suas necessidades: a biológica pela ausência do cordão do cordão umbilical e a do eu fetal pela repressão e censura que enfrenta. O mundo fetal se caracteriza por uma quase total ausência de tensões e uma quase imediata satisfação de necessidades. Haveria portanto uma situação de máxima dependência e de máxima segurança. No seio materno estaria perfeitamente alimentado de substâncias previamente digeridas e metabolizadas por sua mãe, num lugar de temperatura constante e ideal, num lugar cômodo e protegido.

Logo o mundo fetal se caracteriza por:

– Ausência de relação direta com os objetos do mundo exterior
– Baixo nível de tensão, com predomínio da satisfação das necessidades.
– Permeabilidade entre o Eu e o Ele
– Atividade perceptiva interno do eu e sua relação exclusiva com fantasias inatas.
– A unidade e a coerência do eu fetal se rompe com o impacto do nascimento
– As funções autonômicas do eu herdadas permitirão sua adaptação ao mundo pós-natal.

O dormir é considerado uma reprodução da primitiva situação fetal. No repouso diário se regride a esta situação ideal, de segurança, para recuperar a energia, mediante a perda transitória da relação com o mundo exterior e a volta ao mundo interior. Recria no sono profundo a permeabilidade perdida do eu fetal e a Ele.

O impacto do nascimento é por demais importante, se não fosse este período de possibilidades de volta ao seio materno seria difícil suportar.

O neonato dorme a parte do dia = aproximadamente 3 horas de vigília e 21 horas adormecido ou dormindo. Próxima a 6 meses fica equilibrado sono e vigília (metade dorme, metade fica desperto. Além do mais o recém nascido segundo Spitz tem uma barreira protetora a estímulos. Os estímulos protetores só são percebidos quando a nível de intensidade excede a do umbral da determinada barreira protetora. (Este texto foi baseado no conteúdo do livro “Claves para la comprensión de la psicologia de las edades” dos autores M. Cristina Griffa e José Eduardo Moreno).


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