Formação

Autodomínio na vida cristã

2013_09_22_20_36_06_autodominioO autodomínio ou temperança é um dos “requisitos” básicos para o progresso na Vida Espiritual – Esta tem seu “ponto culminante” na Visão Beatífica – por isso, o cristão deve se esforçar por praticá-lo com empenho.

Na reflexão que pretendemos desenvolver a seguir, iremos acentuar, em linhas gerais, a definição deste importante atributo, bem como, a necessidade de buscar sua prática para um reto desenvolvimento da vida cristã.

O homem, após a perda do estado de justiça original [1] sempre foi, em maior ou menor grau, afetado pelo pecado ao longo dos tempos. Desordens incríveis grassaram (e grassam) entre os seres racionais e livres que habitam este mundo que, por sua vez, dão largas às mesmas sem cerimônias nem escrúpulos. A maioria dessas desordens tem raiz também no descontrole dos impulsos, instintos, e “pulsões”, para utilizarmos terminologia freudiana, ainda na moda.

A esse respeito, Santo Tomás de Aquino (1977, p. 205), afirma que “(…) a consequência do pecado [que surge com a perda do já citado estado de justiça original] foi que, tendo sido a vontade humana desviada da sujeição a Deus, desaparecesse aquela perfeita sujeição das forças interiores à razão e, do corpo, à alma. Seguiu-se, então, que o homem sentisse, no apetite sensitivo interior, movimentos desordenados de concupiscência, de ira e de paixões, não conforme a ordem da razão, mas muito mais a repelindo e obscurecendo.” (p. 205)

Nesse sentido, para controlar os movimentos supracitados, é necessário, a fim de o ser humano manter-se com retidão no propósito da beatitude, cultivar (com o auxílio da graça) o autodomínio. Este é como que um desdobramento da virtude da temperança, que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio nos bens criados, conquanto, segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), ajuda a fazer prevalecer a vontade sobre os instintos e desejos, mantendo estes dentro dos limites da honestidade [2]. É, de fato um hábito que deve ser alcançado pelos que querem agradar a Deus, e isso por vários motivos.

Primeiro, porque dominar a si mesmo é uma das recomendações lapidares do evangelho. Nosso Senhor, embora fosse já confirmado em graça e com as paixões plenamente reguladas por sua vontade firme, aplicou-se na mortificação, a fim de nos dar o exemplo para o controle pessoal, jejuando, silenciando-se nos momentos oportunos, disciplinando-se na oração e conseguindo suportar desconfortos sem murmurar, nem reclamar. Sabia também tratar com docilidade seus interlocutores, e até com “dureza”, quando necessário, sempre dentro das normas da caridade e da justiça.

Por outro lado, no homem comum o autodomínio ajuda a refrear as paixões e vícios mais grosseiros da alma, que são a porta de entrada para o pecado. Por vezes, surpreendemo-nos com atitudes virulentas, estúpidas e relapsas em nós e nos outros. A raiz desses problemas reside na falta de equilíbrio interno e externo. Daí ser necessário o controle e domínio de si, que se solidifica na alma pela graça divina, e deve ser acompanhada pelo esforço pessoal de cada um.

Por fim, a virtude de que ora discorremos – autodomínio – , torna- nos mais sociáveis e educados. Sociáveis no referente ao contato com o outro. Faz-nos vê-lo com olhos espirituais e tratá-lo melhor e com paciência. Ajuda-nos a sermos mansos, misericordiosos e educados no que tange a utilização ordenada dos dons de Deus, fazendo-nos moderados no comer e beber; no vestir, na utilização dos divertimentos modernos e até no “gastar”…

Percebemos o quão necessário se faz o cultivo e a assimilação de tal virtude na nossa vida para que possamos ser melhores aos olhos do Pai Celeste, trilhando o caminho da vida reta, pura e virtuosa.

“O domínio de si mesmo é um trabalho, a longo prazo. Nunca deve ser considerado definitivamente adquirido. Supõe um esforço a ser retomado em todas as idades da vida. O esforço necessário pode ser mais intenso em certas épocas, por exemplo, quando se forma a personalidade, durante a infância e a adolescência.” (Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 1998, n. 2347, p. 607)

NOTAS
1 O Aquinate, na obra Compêndio de Teologia, acentua o fato de que o estado de justiça original produzia, dentre outros, o efeito de fazer com que “(…) no homem, as partes inferiores se submetessem às superiores sem dificuldade de espécie alguma. (cf. p. 202)
2 Cf. n. 1809, p. 487
REFERÊNCIAS
AQUINO,Santo Tomás. Compêndio de Teologia. Riode Janeiro:Presença, 1977
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 1998, n. 2347, p. 607

 

Formação

: Fevereiro/2011

08.04

Escrito sob um olhar acadêmico, o Pe. João Wilkes (Assistente Internacional da Comunidade Shalom) apresenta-nos este excelente estudo sobre a Espiritualidade da Comunidade Católica Shalom, a começar pelo contexto da realidade brasileira durante o seu nascimento, as etapas de sua fundação, o fundador, os irmãos, a organização e estruturas, o crescimento, a difusão internacional e a aprovação pontifícia, trazendo-nos detalhes enriquecedores. Deixe-se encantar pela nossa história, quem sabe você também não encontre nela a sua própria história.

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Comentários

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  1. O resultado só podia ser este. É que o Catecismo da Igreja Católica gerido por um general, digo cardeal, Cardeal Ratzinger, acertou em cheio ao viajar perimetralmente pelas esferas alusivas à sexualidade humana. É que aquele Cardeal, criatura especial, divisou de longe a exclusividade divina que opera na psique dos humanos nestes comportamentos…:)

  2. O homem nasce de uma relação sexual e depois – vítima dos estragos causados pelo pecado original – faz o mesmo tipo de relação com outra mulher sem o propósito daquela relação que o gerou. O prazer não tem dimensão universal, zera-se na sua ínfima carne. É um especialista em transformar relações naturais em relações contra a natureza. É um cego fazendo incesto com a própria mãe. A coisa só não vira uma epidemia porque neste distante e quase invisível planeta terra ainda há criaturas abnegadas que ajoelhadas gritam um nome que tem infinito poder e ama suas criaturinhas lá presas pela gravidade. Assim muitos são iluminados. Aquele incestuoso é um ingênuo, inconsciente, inocente…ainda um não iluminado…

  3. Quando o assunto é sexo tudo é complexo. Se ele, o assunto, não parar na fronteira da inteligência humilde do homem e avançar na auto suficiência da ingênua e inconsciente arrogância, acontece um dramático e cômico desfecho: o doutor falante vira revolver na mão de macaco malabarista : vai sair tiro pra todo lado, inclusive contra si próprio…:)

  4. No km 1.168 tem uma destas magnífica, simples, sóbria, elegante e inteligente descrição: “a economia da salvação está em ação na moldura do tempo…”. O mundo não é capaz de absorve-la naturalmente, este mesmo mundo, que parece estar mitificando um presidente milionário americano, vai ler aquela economia como muito dinheiro…:)

  5. O Catecismo da Igreja Católica é uma rodovia de 2.865km. Nos primeiros 25 km esquentam-se os motores. O km 26 é como que uma igualdade rodoviária de kms: km 26 = km 1. Ao Pai abraça-se no km 1. Ao Filho no km 2 e ao Espírito Santo no km 3. Para turbinar o viajante, exatamente no km 3, no fechar da Trindade, há uma placa rodoviária muito forte por conter um pedaço de um dos mais fortes discursos na história da humanidade. Pegue a rodovia, ver-se-á o que falo e constate que ela atravessa vastidões ermas e ignotas, a despeito de seu projeto magnífico, da simplicidade do viajar, da sobriedade, elegância e inteligência, tudo proporcionado pelo suavíssimo conforto de rolamento. Esta alegoria é para dizer que ela, a rodovia, ainda que imponente e soberana, é desconhecida. Os poucos iluminados que viajam por ela se extasiam com a luz ao longo da viagem. Aos iluminados: boa viagem!!…

  6. Pequena correção: no escrito em itálico acima onde se reproduz o que está no CIC (Catecismo da Igreja Católica), onde se lê n. 2347 lê-se 2342.