Formação

Case-se comigo

Virou uma espécie de tradição. Casamento de artista, para valer mesmo, tem de ser como um kit completo: lugar de sonhos para realizar a cerimônia (na grande maioria das vezes, sem um ranço de religiosidade); badalação nos primeiros meses, com as fotos dos pombi-nhos pipocando à exaustão na capa das revistas de fofoca; e, por fim, separação bombástica e brusca, logo após, quando as juras de amor eterno se transformam em ofensas pessoais e baixarias veladas, registradas com vigor para alavancar a audiência. Esse parece ser um círculo vicioso que acomete nove entre dez artistas e a previsão sombria é a de que tende a continuar, com a vida das celebridades se confundido com a sinopse das novelas, sendo exposta ao público com a lupa de aumento da vulgaridade e da malícia.

De toda a falação que esse tipo de assunto gera nas rodas, o saldo que se retira é o do desgaste que a instituição do casamento sofreu e sofre por conta desse novo conceito de união, tão elástico quanto desprovido de intensidade e profundidade. Hoje, já se pensa o casamento em vista do futuro divórcio (e a conseqüente divisão dos bens), como um tipo de investimento no qual o que vale é que se ganha, sem chance de perda nenhuma. E porque matrimônio nenhum se sustenta com essa superficialidade, nós temos hoje a ficção da relação a dois, onde a simples convivência entre o homem e uma mulher basta para consumar o casamento entre eles, sem qualquer compromisso ou cerimônia. E aí, o casamento troca de significado: união estável, caso, romance…

Stephen Kanitz, jornalista e administrador por Harvard, nos diz, em artigo sobre casamento, que “o objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre”. O ótimo é que não é um padre ou um teólogo quem nos diz isso, mas um homem que, por sua estrutura pessoal, descobriu o verdadeiro sentido da vocação matri-monial. Defender a solidez do matrimônio não é obra só para religiosos mas para todos aqueles que entendem a instituição como fundamental na formação da estrutura familiar. “Em virtude da sacramentalidade do seu matrimónio, os esposos estão vinculados um ao outro da maneira mais profundamente indissolúvel. A sua pertença recíproca é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja”, nos ensina a encíclica Familiaris Consortio. Pelos escritos da Igreja, percebe-se a importância do casamento não apenas como sacramento e oportunidade de aprofundamento da vida espiritual (embora isso já fosse extremamente necessário) mas também como ferramenta de consolidadação da socieadade, por seu núcleo central que é a família.

Fala-se em casar com o objetivo central de se encontrar a pessoa amada. Porque eu amo aquela pessoa, encontro-me bastante capaz de me unir a ela para sempre. No entanto, o ranço do descartável corrói o sentimento do amor que julgamos sentir, a capacidade que juramos ter de formar uma relação sólida e esperança que pensamos possuir de observar esse “para sempre” com um olhar de missão e de vida. Por isso, o “para sempre” não dura uma estação e a impressão que fica é que o casamento, na sua acepção tradicional e necessária, tende ao fracasso e à extinção nos dias de hoje. Ou, ainda, ganha significados não desejáveis, como quando se quer desnaturar o matrimônio para abrigar a relação homossexual, assunto que gera polêmica e insatisfação no mundo gay.

A midia, como geradora de opiniões, tem sua grande parcela de culpa nesse fanômeno de vulgarização do casamento, ao elevar à última potência essa superficialidade que permeia as relações conjugais das personalidades. Chegamos a pensar ser completamente “normal” um casamento que dura um mês, porque na dança da solidão dos famosos, trocar de par é comum e, muitas vezes, até útil nessa busca de orientação. O divórcio é essa chance apropriada de se alcançar a liberdade frente a um relcionamento que já não traduz em satisfação para mim. Stephen Kanitz complementa: “O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informa-ções necessárias para tomar as decisões corretas. As promessas e os contratos preen-chem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação”. O jornalista analisa o matrimônio na sua visão contratual mas nem por isso ignora a força moral e vocacional que esse contrato abrange. Contrato, aqui, implica comprometimento e responsabilidade, qualidades imprescindíveis para o alcance da maturidade afetiva e da correta realidade conjugal. Ou, ainda, pode-se dizer que o contrato é a aliança firmada entre os noivos e que sela essa garantia do afeto e do compromisso com o cônjuge.

Dom Eusébio Oscar Scheid, Arcebispo do Rio de Janeiro, chega a falar em “insegurança” por parte dos jovens diante do desafio do matrimônio. Segundo ele, “esta insegurança tem, por certo, raízes muito mais profundas: no íntimo mais íntimo das pessoas em causa. A própria escolha definitiva e irreversível de um ou de uma consorte para a vinculação vital parece limitar o campo quase infinito das opções, frustrando ou até tolhendo a liber-dade”. O erro consiste em colocar como ausência de liberdade a escolha de alguém com quem partilhar a vocação do matrimônio. Segundo lição de Jacques Phillipe em seu “Li-berdade Interior”, a liberdade maior não reside no escolher dentre as várias opções que nos apresentadas, mas, sim, de acolher, com amor e decisão, o que a vida, dom de Deus, traz a nós. É necessário entender que o casamento advém de um processo que implica amadurecimento pessoal e livre adesão fundamentada na liberdade, nas quais os futuros cônjuges assumem a responsabilidade do amor em comum e dão seu sim a Deus, gérmen da nova família.

“É pois indispensável e urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e promover os valores e as exigências da família”, despede-se o Papa João Paulo II ao final da Familiaris Consortio. Promover a consistência do matrimônio frente aos desafios do mundo de hoje é tarefa que leva a evangelizar. É preciso, antes de tudo, certificar que o casamento é fundado nos alicerces maduros da fé e do amor e não palco de flashes e baixarias, os quais acabam por lhe desnaturar. Amando e promovendo o amor no coração do próximo, estaremos, enfim, dando sinal concreto à aliança firmada por Deus no alto da Cruz.

Por Breno Gomes


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