Formação

Cativar!

Uma das cenas mais comoventes de O Pequeno Príncipe é aquela na qual o principezinho, após viajar por vários planetas e ter, afinal, pousado na Terra, encontra-se com a pequena raposa. An-dando pela vastidão de nosso planeta e ansioso por encontrar os homens e obter amigos, o nosso herói descobriu, num jardim, centenas de rosas iguais àquela que deixara em seu minúsculo aste-róide, o B 612. Por um momento, aquela que ele considerara única no mundo e à qual dedicara todo o seu afeto não era, senão, igual a um sem-número de rosas existentes no nosso planeta. Regara-a, protegera-a do frio da noite com um paravento, suportara todo o seu orgulho de flor para, no fim, saber que ela era uma simples rosa comum. No entanto, a raposa dedicou-lhe um ensina-mento que iria provocar um sobressalto nas emoções do principezinho. A raposa queria algo dele, algo que escapa dos sentimentos comuns e que alça o nosso coração a novas descobertas. O nosso pequeno príncipe procurava amigos, mas esquecia que eles só podem ser encontrados atra-vés da conjugação de um verbo muito simples e extremamente especial – cativar!

Na Última Ceia, Jesus declarou toda a profundidade de seu amor por seus apóstolos ao revelar-lhes que o segredo do verdadeiro discipulado não se funda simplesmente na hierarquia entre o Mestre e seus servos, mas na amizade existente entre eles: “Já não vos chamo servos, porque o servo permanece na ignorância do que faz o seu senhor; chamo-vos amigos, porque tudo o que ouvi junto de meu Pai vo-lo fiz conhecer” (Jo 15,15). Só há verdadeiro relacionamento quando existe disponibilidade, doação e afeição mútuas. O amor de amizade é proclamado como aquele funda-mentado na descoberta do outro, quando o amante se dá a conhecer inteiramente à pessoa ama-da e a faz experimentar integralmente os frutos de seu amor. Cristo nos oferta o fruto supremo de Seu amor – a Eucaristia – para que nós, Seus amigos, possamos continuamente beber da fonte da Misericórdia e, através desta sublime prova de amor, manifestar em palavras e atos a nossa ami-zade. Sem máscaras e sem disfarces.

A raposa ensina ao principezinho que só conhecemos bem aquilo que cativamos. Segundo ela, o verbo “cativar” significa “criar laços”. O conhecimento pleno do outro e o amor surgido entre ambos só se torna real a partir da experiência da conquista e da abertura de coração. Este necessita estar escancarado, como o de Cristo na Cruz, para que abarquemos, sem reservas, o outro na sua reali-dade mais íntima e total. Jesus abriu o seu coração e, com isso, remiu a humanidade inteira. Nós, ao abrirmos o nosso, damos aos que amamos aquilo que nos é mais precioso – o dom da nossa vida, obra perfeita de Deus e meio pelo qual Ele expõe a Sua sabedoria. O verdadeiro amor de ami-zade é aquele fundamentado na graça de Deus e que tem como referência o Seu amor. O próprio Cristo funde as duas realidades de amor numa só e as coloca como mensagem central e definitiva de toda a Palavra de Deus: “O primeiro de todos os mandamentos é este: ‘(…) Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração (…)’. Eis aqui o segundo: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’” (Mc 12, 29-31). Acima de tudo, cativar é eleger – é escolher, sob a inspiração sincera da caridade e do discernimento maduro da fé, aqueles a quem chamamos amigos.

Na encíclica Deus é Amor, o Papa Bento XVI tenciona encontrar o verdadeiro significado do amor cristão, utilizando-se dos termos gregos eros, ágape e philia – indicativos da várias dimensões do sentimento amoroso expostas na Bíblia. Relacionando os dois primeiros, o Santo padre deseja chegar à verdadeira definição do amor, querida por Deus e adequada às mais diversas exigências humanas. O amor eros é mundano, possessivo e procura o próprio interesse; de forma diversa, o amor ágape é fundado na fé, oblativo e gratuito. Este último diz muito acerca do amor philia, com ele se identificando e sendo como que o gênero deste. O Papa nos ensina que as duas primeiras realidades de amor não se anulam, antes se complementam e dão o cerne do amor cristão a ser vivido concretamente pelos homens. Inicialmente, o amor que sentimos busca a si mesmo, é in-tenso e localizado no campo das sensações. Ao se purificar no contato com Deus e com a verdade do próximo, na maneira como nos foi ensinado por Cristo, tendemos a buscar satisfazer plenamen-te o outro, colocando-o como complemento de nós mesmos; é um amor que passa a buscar o es-vaziamento do ser amante para alcançar o preenchimento do ser amado. É dessa transformação que nasce a unidade entre as realidades ágape e eros, haja vista que devemos viver o viés divino do amor sem esquecer os sentimentos próprios de nossa realidade.

O amor philia identifica-se com o amor ágape na medida em que a verdadeira amizade se funda na total identidade e solidariedade entre as pessoas. Este sentimento de complementação é ausente nas amizades vividas entre os jovens de hoje, que procuram antes viver um individualismo e um materialismo exacerbados, fundados no ter em detrimento do ser. Na divisões formadas entre as tribos, o sentimento puro de amizade é preterido pelo preconceito e pelas exclusões. Os jovens não procuram doar-se e conhecer-se mutuamente; antes, vivem superficialmente relacionamentos em que buscam, antes de tudo, a satisfação dos próprios interesses e alcançar um status social mais elevado. Os lugares, as roupas e as atitudes ditas “da moda” formam o que a mídia explora como sendo determinantes para os jovens viverem essa falsa liberdade e felicidade.

Cativar significa ser responsável pela pessoa amada. É célebre a frase dita pela pequena raposa no livro: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. É viver a realidade do amigo na integridade do amor autêntico – os anseios, as dores, as alegrias e as necessidades. A vivência do amor divino é, pois, o referencial que nos permite viver a amizade na sua forma mais pura e total, haja vista que a doação de Deus a nós deve nos levar a doar-nos inteiramente aos irmãos, fazendo-os penetrar na nossa realidade e levando-os a abrir os seus corações a nós. O próprio Pa-pa, na encíclica mencionada, revela a importância dessa comunhão fraterna entre os irmãos: “A união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou tornarão Seus (…) Tornamo-nos ‘um só corpo’, fundidos numa única existência”. Da mesma forma é a exortação do apóstolo João: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (I Jo 4,7-8).

Nós, jovens, devemos, pois, buscar viver concretamente o amor nas nossas amizades. Um amor que nasce da pureza de intenções, passa pela conquista sincera através do afeto e deságua no conhecimento mútuo que gera o nosso crescimento pessoal. Devemos nos cativar e viver este afe-to de maneira concreta, sem esquecer as necessidades e as angústias dos nossos amigos. A pala-vra “amigo” não é apenas adjetivo – é um título que damos àqueles que experimentamos pelo amor, a verdadeira caridade ensinada pela cruz e ressurreição de Cristo. Num mundo tão marcado pelo desamor e pelas relações vazias e frias, cativar é preciso!


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *