Formação

Como eu era antes do merthiolate que não arde

testeira

O melhor filme de romance de todos os tempos da última semana estreou nas telas do cinema na última quinta-feira (16), com o título de “Como eu era antes de você”.

O filme, que liderou as bilheterias brasileiras em sua estreia, conta a história de Will Trainor (Sam Clafin que trabalhou na franquia de “Jogos Vorazes”), um jovem de família rica, boa pinta, com uma vida atlética e uma linda namorada, que é atropelado por uma moto ao atravessar a rua em um dia de chuva, enquanto falava ao celular, e que acaba ficando tetraplégico. Sua vida sofre outra grande mudança (além do acidente), quando sua mãe (Janet McTeer) contrata como sua cuidadora Daenerys Targaryen, ou melhor, Louise Clark (Emilia Clarke), uma jovem de uma cidade pequena, sem grandes planos para o futuro, e com um gosto peculiar para a moda, que aceita o emprego depois que o café, onde trabalhava, fecha.

O filme é muito engraçado. A atuação dos atores principais é muito boa. Acerta na tentativa de arrancar boas risadas do público, na trilha sonora, e em fazer as pessoas chorarem. Talvez entre na lista dos melhores filmes de comédia romântica de muitas pessoas. Só que esse filme não é só mais uma comédia romântica clichê. O tema central retratado é o suicídio assistido e a tentativa, quase heroica da personagem principal, de fazer um homem se interessar de novo pela vida.

(Spoiler)

O personagem Will, no final do filme, se interna em uma clínica de suicídio assistido, por ter prometido aos seus pais que viveria somente mais seis meses, pois a condição de deficiente físico trazia muita dor para eles e, ainda mais, a ele próprio,sendo a melhor saída encontrada. Como se dissesse “eu te amo tanto que não quero ver você sofrer por ter que lidar com minhas limitações”. Como se o motivo para ser amado fosse poder dar sempre algo em troca; como se o amor, pra existir, necessitasse de uma recompensa. Se o amor não puder lidar com as limitações, qual o sentido que se tem em amar? Se o amor exige recompensa, não é amor, é qualquer outra coisa, mas não amor. “A experiência amorosa exige sacrifício. Não se ama para ser recompensado. O amor é sua própria recompensa”¹

A cena final tem a emoção de filmes medievais, onde o cavaleiro se despede da família e da pessoa amada para partir pra a guerra. A diferença é que o cavaleiro medieval olha o mundo e enxerga algo pelo qual valeria a pena viver e se for necessário, morrer, não porque odeia ou despreza o mundo, mas porque o ama. O suicida olha o mundo e não enxerga nele nada pelo qual valeria a pena viver, é “a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo…Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe.”²

A sociedade se acostumou com Merthiolate que não arde, e, hoje, quer viver o amor nos mesmos padrões. Então, quando a dor das feridas do outro, suas fraquezas ou inutilidades, começa a arder na minha vida, é melhor excluir a ardência, excluir o outro, como em um rompante cego da Rainha de Copas – de Alice no País das Maravilhas – “Cortem a cabeça!”. Só que nesse caso, cortou-se a própria cabeça, para que o outro não tivesse que lidar com a “feiura” de uma vida limitada. Como se a melhor forma de vida fosse uma sem imperfeições,sem limitações, quando, na verdade, o que faz a vida ser realmente bela são os seus contrastes, suas arestas.

Você já se perguntou “quem nessa vida pode ficar inútil pra você, sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora? É assim que nós descobrimos o significado do amor. Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim.”³ Só o amor nos dá a coragem para permanecer, mesmo quando a nossa utilidade já tiver partido. Aventure-se na experiencia de amar, pois tudo nessa vida que merece ser lembrado, traz em si um sacrifício.

[¹] Adélia Prado

[²] Chesterton

[³] Pe.Fábio de Melo

Marcos Nunes


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Para quem não viu “Como eu era antes de você”, NÃO VEJAM, foi o pior filme de drama que eu já vi na minha vida. De romance não há nada, porque só uma pessoa que entrega ao amor, enquanto a outra é egoísta, que não sabe o significado do amor ao próximo, muito menos com a própria vida. Sinceramente não sei que mensagem positiva um filme desse pode passar, principalmente para pessoas que passam pelo mesmo problema. Não foi a dor física que fez com que ele desistisse, foi a dor de não saber lidar com o ego e a vaidade limitada. Filme bonito, romântico são histórias de superação, histórias que o destino escreve. Na boa, fiquei revoltada com o filme e com a mensagem que ele passa. Imagina para pessoas que andam com cadeira de rodas assistir um filme desses?

    1. Meu irmão, leia o livro, a discussão sobre isso é muito maior.
      Infelizmente esse filme foi vendido como uma comédia romântica, mas ele não é. A autora deixa bem claro em vários pontos que o principal é a dificuldade que os deficientes físicos passam, as dificuldades de acessibilidade, de ter programas que incluam um deficiente sem que ele se torne algo isolado ou diferente só por ter uma deficiência e principalmente a dificuldade que alguns cadeirante tem de aceitar sua condição. E se vc tivesse lido o texto a cima direito, é falado isso.

      O Will é sim um cara egoísta que não conseguiu de nenhuma maneira aceitar sua condição por não saber lidar com a dependência vitalícia com as outras pessoas, ele nunca fez isso quando andava e não queria ter isso agora. Mas também ajudou a Lu a superar um grande trauma, a sair da cidade e ter uma vida própria. No fim, apesar de sua fraqueza de ver a vida muito além do que ele passou, ele ajudou uma pessoa.

      Então meu irmão, leia o livro, reveja a história, veja as entrelinhas e volte a ver esse texto.