Formação

E-mail à esposa do Fantasma

Cara Senhora Demichel,

Através da Internet, tomei conhecimento de seu casamento com o Sr. Demichel, falecido há um ano e meio. Soube que a cerimônia ocorreu na prefeitura de Nice e que os amigos e familiares do casal se fizeram presentes. Soube, também, que o choque do acidente que vitimou seu então namorado levou-a a perder a criança que esperava, o que lamento. Teria sido uma bela e viva lembrança do Sr. Dmichel.

Gostaria de pedir-lhe que me esclarecesse algumas dúvidas, uma vez que não conheço a lei francesa e gostaria de saber o que se considera, em sua terra, como casamento:

Inquieta-me, em primeiro lugar, o fato de o casamento supor, necessariamente, a união de duas pessoas em corpo e alma. Jesus explicou aos saduceus que, no céu, não há casamento. Lá, as pessoas não se casam e não se dão em casamento, pelo mero fato de não terem mais corpo. O casamento supõe a união dos corpos pelo ato conjugal. Como a senhora e o falecido Sr. Demichel, a sete palmos do chão há dezoito meses, cumprirão este item indispensável à união matrimonial?

Um outro ponto em que careço de esclarecimento, é o fato de que, para que exista o casamento, faz-se necessário o consentimento explícito de ambas as partes – falo do casamento cristão, pois, para mim, é o único que existe, uma vez que é o único que faz de duas pessoas uma só. Como foi possível ao Sr. Demichel dizer o seu “sim”? Como a senhora resolveu esta lacuna? Utilizou uma procuração? Neste caso, quem a assinou? Nem sequer as impressões digitais do Sr. Demichel podem ser colhidas…

Se não a aborreço, há ainda uma coisinha: o casamento verdadeiro é sempre fecundo. Isso é, supõe que o casal se uma com a intenção clara de procriar, de ter filhos. Fico a imaginar como o Sr. Demichel, falecido, alma separada do corpo, poderá cumprir este item indispensável à validade do matrimônio.

Uma curiosidade: qual será o estado civil da senhora? Aqui no Brasil, a gente costuma dizer de um mau casamento que a esposa é “viúva de marido vivo”. Será que a senhora é a versão francesa, a “casada de marido morto”? Quando perguntarem seu estado civil, o que responderá? “Casada?” “Viúva?” Ou será que a lei daí supõe uma casada-viúva como estado civil?

Perdoe-me, Sra. Demichel. Não quero fazer brincadeiras com seu estado, mas é que a própria notícia me soa como brincadeira. A senhora, de fato, casou-se com o Sr. Demichel? E, se casou-se, estando a alma já separada do corpo (é isso a morte), a senhora casou-se com o corpo ou com a alma? Se foi com o corpo, depois de um ano e meio, provavelmente não restou muita coisa. Se com a alma, bem, teríamos de voltar ao início da carta.

Há ainda uma pergunta. É sobre a fidelidade. Como a senhora sabe, o casamento supõe o amor fiel e exclusivo. Isso significa que a senhora, tendo casado com uma pessoa morta, não poderá vir a casar-se novamente, a não ser que o morto morra. Aí, a senhora há de convir, temos um grande problema! A senhora não teria como amar um outro homem e casar-se com ele a não ser que o falecido Sr. Demichel falecesse!

Da sua parte, este item é uma vantagem. Não há o menor perigo de o Sr. Demichel ser-lhe infiel. Não há concorrência no céu. Outra vantagem a seu favor, é que não há perigo de a senhora desrespeitá-lo, nem na saúde, nem na doença, nem na alegria, nem na tristeza. Só haveria como desrespeitá-lo na morte e isso, mesmo sem desejar, a senhora já fez. O resto, fica tudo igual, o que – havemos de convir – não deixa de ser uma certa vantagem, uma certa estabilidade parada como a própria morte.

Os problemas não acabam por aqui. Veja, Sra. Demichel. Com todo o respeito: ao casar-se, os esposos se tornam uma só carne e, onde uma só é a carne, um só é o espírito. A carne vem primeiro, entende? Como isso será resolvido? A senhora morre ou ele ressuscita?

Há, além disso, a complementaridade entre homem e mulher. O enriquecimento mútuo pelo diálogo, pela renúncia de cada dia, pela personalidade de um que enriquece a do outro, pelo crescimento comum, pela santificação um do outro. Uma vez que isso se faz com o olhar, o sorriso, as palavras, a presença, com o perdão, a confiança, a esperança, como será no caso de vocês, em que sua cara metade não mais vê, nem sorri, nem fala, nem ouve, nem perdoa, confia ou espera?

A senhora afirma, muito nobremente, que a morte de Eric não mudou seus sentimentos. E era para mudar? Como a senhora deve saber, um casamento não pode basear-se em sentimentos. Sua base é Cristo que suscita o amor mútuo e o renova a cada dia. Casamento baseado em sentimentos, Sra. Demichel, com morto ou com vivo, um dia acaba. A base é o amor e o amor humano supõe gente inteira, de corpo e alma, entende? Não foi à toa que o Verbo se fez carne!

Outra frase nobre da senhora, foi que, ainda que Eric esteja morto, a senhora respeita os valores que compartilhava com ele. Muito bom. É isso mesmo. No entanto, o fato de eu respeitar os mesmos valores de bilhões de pessoas no mundo inteiro, não é suficiente para que me case com elas. O casamento é fruto de um tipo de amor entre duas pessoas vivas. A este amor, chama-se amor conjugal e, como todo amor legítimo, originado da Trindade, dura para sempre, renova-se sempre.

Imagino-a, Sra. Demichel, daqui a 40 anos. Continuará sozinha, aos 75, sem filhos, sem marido visível, cheia de rugas. Imagino-a respondendo a novos amigos. Meu marido? Bem… continua no mesmo local, do mesmo jeito e com a mesma idade de quando nos casamos… Nunca tivemos problemas de relacionamento…

Perdoe-me, Sra. Demichel, mas, em minha confusão, preciso de ajuda para compreender que tipo de motivação a levou a cometer este desatino. Preciso que me ajude a entender se a senhora se leva a sério. Necessito que alguém me sacuda, me belisque, para acreditar que este é apenas um fruto mórbido de uma sociedade que pensa ser o casamento um mero contrato, um “papel passado” tão sem valor que pode ser firmado até com um morto.

Olha, Sra Christel Demichel, a senhora tem um nome tão belo, derivado do nome de Cristo, não estrague esta semelhança, apenas sinal de sua identidade mais profunda. Enquanto é tempo, ouça o meu conselho: corra a divorciar-se! Separação de corpos, a senhora já tem. Separação de bens, também. Não vai haver litígio. Faça algo por si mesma. Seu marido não vai se ofender, nem vai se mexer. Não vai dizer nada, nadinha. Liberte-se dessa mentira macabra e tenha coragem de amar de verdade um homem vivo, completo. Será, certamente, muito mais exigente que o finado, mas dará sentido real à sua vida, entende?

Com todo o respeito e sincera vontade de leva-la à verdade,

Maria Emmir

PS. Ainda um conselho, se me permite: procure ler um documento fantástico sobre a família e o casamento. Chama-se “Familiaris Consortio” e foi escrita por um homem santo que ainda tem esperança de que o homem seja salvo pelo amor que tenha conhecido em sua família. Se lhe sobrar tempo – não há mesmo ninguém para desarrumar a casa ou sujar a louça – leia também a “Humanae Vitae”, com menos de vinte páginas, escrita por outro homem santo, que previu, entristecido e preocupado, casos como o seu e procurou alertar o mundo para evitá-los. Foi, infelizmente, uma voz a clamar, solitária, no deserto.

Emmir Nogueira


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