Formação

Escolhida por Deus

INTRODUÇÃO
A liturgia da Assunção coloca nos lábios dos anjos encarregados de receber Maria no Céu, esta interrogação cheia de entusiasmo:

Quem é Esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, forte como um exército em ordem de batalha?

Também os cristãos fazem a mesma pergunta. Os fiéis aspiram por conhecê-la melhor, desejam tomar uma consciência mais esclarecida daquela presença que sentem ao mesmo tempo tão universal e tão próxima, tão mundial e tão íntima. Este curso gostaria de responder a este anseio filial. Sem entrar nas minúcias das controvérsias teológicas, dirige-se a todos os cristãos, a fim de que conheçam melhor sua Mãe e acolham-na mais conscientemente em sua vida.

1. MARIA NOS DESÍGNIOS DE DEUS:

1.1 A IMACULADA CONCEIÇÃO
” Desde o princípio e antes de todos os séculos Deus escolheu e preparou, para Seu Filho único, a Mãe em quem Ele se encarnaria e da qual nasceria. Amou-a mais, a ela só, do que ao universo inteiro e com tal amor que pôs nela, de maneira singular, suas maiores complacências. Eis porque, abastecendo-se nos tesouros de sua divndade, Ele a cumulou maravilhosamente e mais do que a todos os espíritos angélicos e a todos os santos, a fim de que seja sempre e completamente isenta de qualquer pecado e que, toda bela e perfeita, apareca em tal plenitude de inocência e santidade, que não se possa, após a de Deus, conceber outra maior e cuja grandeza nenhum outro pensamento senão o Deus, poderia conceber.

Para a honra da santa e indivisível Trindade, para a glória e brilho da Virgem, Mãe de Deus, para a exaltacão da Fé Católica e aumento da religião cristã, pela autoridade de Nosso Senhor Jesus cristo, dos santos Apóstolos Pedro e Paulo e nossa. Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a Bem-Aventurada Virgem Maria foi, no primeiro momento de sua conceição, por uma Graça e um privilégio singular de Deus Todo Poderoso, e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, preservada e isenta de toda mancha do pecado original, é revelada por Deus e, por conseguinte, deve ser firme e constantemente acreditada por todos os fiéis”. (Bula “Ineffabilis Deus”, Papa Pio IX, 8 de Dezembro de 1854).
O fato de o Dogma só ter sido decretado em 1854 não significa absolutamente que a verdade tenha começado em 1854. A verdade da Imaculada Conceição sempre existiu, mas precisou ser decretada em 1854.

Antes de tudo, precisamos ter em mente que o privilégio da Imaculada Conceicão só pode ser teologicamente entendido como participação de Maria na Graça Redentora de Cristo, da qual foi antecipadamente cheia, em virtude de sua colaboração na obra Messiânica e como dom que lhe foi concedido em favor de toda a Igreja. Os privilégios concedidos por Deus não são frutos de algum esforço natural humano, e que a Graça jamais foi concedida unicamente para enaltecer uma pessoa privada (ainda que esta pessoa seja Maria), mas sim em favor do povo de Deus. Por isto o Senhor, no exercício de sua misericordiosa liberdade e sabedoria, concede a Maria o privilégio da Imaculada Conceicão, segundo a missão salvífica que no meio do seu povo ela há de desempenhar. Toda a glória de Maria não é ,pois, senão uma preparacão e um prefácio para o papel que Deus lhe destinou, o mais inédito que uma criatura já teve: ser a Mãe de Deus!

Portanto, para compreendermos a Imaculada Conceição na sua origem, precisamos volver ao pensamento primário do Criador:
” Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com toda a bêncão espiritual em Cristo, e nos escolheu NELe antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos”(Ef 1,3-4)
Sabemos que, pelo Pecado original, o homem se afastou do plano de Deus, mas que este, no seu amor, preparara a “recriação” de sua obra-prima decaída:
” No Seu amor, nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por beneplácito de sua livre vontade, para fazer resplandecer a Sua maravilhosa Graçca, que nos foi concedida por Ele no Bem-Amado. Nesse Filho, pelo Seu sangue, temos a Redencão, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da Sua Graça”(Ef 1,5-7).

Maria é aquela em quem tudo isto é ANTECIPADO e realizado em plenitude: Desde o primeiro instante de sua criação, ela será REDIMIDA do Pecado Original, e plena de Graças. Maria foi, pois, em perfeição e plenitude, desde o seu nascimento, aquilo que só alcancamos pelas águas Batismais. Filha de uma raca de pecado, Maria não incorreu no Pecado da raça humana. Para ela, Deus suspendeu milagrosamente o “contágio hereditário” da falta original, e isso se deu em vista, e por mérito antecipado dAquele que deveria nascer dela. A santidade do Filho é causa da santificacão antecipada da Mãe, como o sol ilumina o céu antes mesmo de surgir no horizonte.
Não ser manchada pelo pecado original não constiui porém, todo o mistério. Esse privilégio traz imediatamente consigo, de modo positivo, uma plenitude de Graça e de Caridade, uma invasão do Espírito Santo na alma.

A PLENITUDE DE GRAÇAS – Sobre isto, convem esclarecer duas coisas:
Quando dizemos plenitude de Graças, costumamos avaliar esta plenitude exclusivamente de modo quantitativo, o que constitui um erro. Ela é uma realidade quantitativa e qualitativa, porque quanto maior, mais possibilita a união com Deus, e a introducão na Sua vida íntima.
A plenitude de Gracas em Maria, é própria de uma criatura, e não é como a de Jesus, que é Deus-Filho. Em jesus, a plenitude está completa desde sempre. Em Maria, a plenitude é limitada e portanto suscetível de crescimento. Ela recebe o Espírito Santo na Sua Concepcão, na Encarnacão, em Pentecostes. E cada vez o Paráclito faz grandes coisas nela. Sua vida teologal de fé, esperanca e de Caridade conhecerá uma expansão progressiva e, de fato, maravilhosa!

1.2 A ALMA EM HARMONIA COM DEUS –
Quanto mais uma alma sobe para Deus, mais intensamente Deus a atrai: mais ela é dócil à Graça, mais rápida é a sua ascenção. Esta é uma comparação de Sto. Tomás de Aquino. O crescimento contínuo da Graça se faz em Maria num rítimo prodigioso. É-nos difícil alcançar o seu progresso espiritual em virtude mesmo de sua rapidez, porque ele obedece a uma Lei de aceleração comparável à queda dos corpos no espaço. A santidade de Maria já no início excedia a de todos os santos, e o seu crescimento na Graça segue um rítimo vertiginoso, sem nenhum recuo, sem nenhuma recusa, pois ela sempre aderiu inteiramente às Graças recebidas. Daí um aumento de amor sempre maior, uma aproximação de Deus mais íntima, uma adesão à Deus mais unitiva.

1.3 A ISENÇÃO DAS CONCUPISCÊNCIAS:
Concupiscência significa todo movimento de desejo mau, toda aspiração desordenada do apetite sensitivo, que convida a razão a se rebelar contra o bem. Ela é aquela tendência funesta para o pecado, aquela força funesta que nos torna remissos para praticar o bem, e inclinados a praticar o mal, seja antecipando-se à razão, seja resistindo à ela. É aquela “lei”, contrária à lei da nossa mente, que nos obriga a repetir como S. Paulo: ” Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero” (Rom 7,19).

Ela é conseqüência do primeiro pecado do homem, que foi criado para ter seu apetite racional submisso à Deus, e consequentemente o seu apetite sensitivo submisso ai racional. Porém, instigado pelo demônio, o primeiro homem escolheu livremente rebelar sua razão contra Deus, e consequentemente sua área sensitiva se revoltou contra a razão, intalando a desordem interior no coração humano. Daí se acendeu o “fogo” da concupiscência. A concupiscência portanto, não é um pecado, mas fruto do pecado, e como tal, não é destruída pelo Batismo. Ao contrário, ela permanece oferecendo ao homem a oportunidade de escolha por Deus, ou não Deus.
Maria, por privilégio de Sua Conceição Imaculada, foi preservada de toda concupiscência desde o primeiro instante de Sua existência, em virtude dAquele que dela nasceria, o puríssimo Jesus. Jesus foi isento de toda concupiscência por virtude própria, ou seja, por ser Ele Deus-Filho. Já Maria o foi em previão dos méritos de Seu Filho.

Isto não significa que Maria era uma espécie de “marionetes”, sem vontade própria. A primeira mulher, Eva, também não conhecera a chama da Concupiscência, e escolhera o mal. Embora as tentações do Maligno não pudessem penetrar nela, que recebeu da divina providência uma assistência especialíssima, Maria foi mais livre do que nós, porque jamais saiu do âmbito da liberdade humana para a escravidão do pecado.

1.4 A GRAÇA SANTIFICANTE EM MARIA
No primeiro instante de sua existência, Maria foi “Cheia de Graça”, não no sentido absoluto, infinito, ou seja, incapaz de aumento, como o foi Jesus Cristo mesmo em Sua vida terrena, mas e, sentido relativo à sua capacidade de receber a Graça, naquele momento. Porém, ela cresceu em Graça até o fim de sua existência terrena, porque Deus aumentava Sua capacidade para receber mais Graça, e novamente a “enchia”:

Em Sua Imaculada Conceição, Maria foi cheia de Graça segundo a plenitude requerida para a Sua futura dignidade de Mãe de Deus; No momento da Encarnação do Verbo, recebeu uma plenitude mais perfeita que a primeira, que convinha à atual Mãe de Deus; E ao final de Sua vida terrena recebeu uma plenitude que ultrapassou todas as outras, atingindo o mais alto grau possível a uma criatura.

Maria cresceu incessantemente em Graça nos acontecimentos favoráveis e nos adversos. Reflitamos nisto também nós, que podemos e devemos fazer bom uso da Graça Santificante recebida no Batismo e das Graças atuais que a cada dia recebemos para a nossa santificação, nas mais diversas circunstâncias e acontecimentos.

2. A ANUNCIAÇÃO
Sabendo que toda a Glória da Imaculada Conceição de Maria teve em vista a missão à qual Deus lhe chamou, vamos refletir a passagem do Evangelho que narra o Mistério da Anunciação, revelação divina deste chamado à própria Virgem Santíssima, e também, de certa forma, a cada um de nós. O relato da Anunciação à Maria deve ser situado em continuidade com a história do plano Salvífico de Deus. Sabendo disto, podemos observar os vários “anúncios” da parte de Deus, encontrados no Antigo Testamento, nos quais Ele chamou “mediadores”, que recebiam Graças extrordinárias sempre compatíveis com a missão que deveria desempenhar para benefício de um povo.(Isaac, Moisés, Gedeão, Sansão, Zacarias). Foram assim anúncios de vocações, que continham algum aspecto do chamado à Maria, mas não todos os aspectos, porque Seu chamado foi especialíssimo, superando todos os anteriores:

” AVE, CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR É CONTIGO. PERTURBOU-SE ELA COM ESTAS PALAVRAS E PÔS-SE A PENSAR NO QUE SIGNIFICARIA SEMELHANTE SAUDAÇÃO. O ANJO ENTÃO DISSE-LHE: NÃO TEMAS, MARIA, POIS ENCONTRASTE GRAÇA DIANTE DE DEUS”(Lc 1,28b a 30)

” Ave”. Tal saudação, traduz o convite a alegrar-se pela escolha divina de si mesma e de seu povo, o povo de Deus. É o convite não à uma alegria passageira, superficial, mas uma alegria messiânica, histórica, da realização de uma promessa abrangente no tempo e no espaço: é a espera de todo um povo, e de muito tempo, para todos os que virão e de todos os tempos.
João Paulo II, na sua Encíclica sobre Nossa Senhora(Redemptoris Mater), se refere a ela como “Filha de Sião”, usando uma comparação de grande sentido teológico: Os “filhos de Sião” são aquele resto de Israel, povo humilde e humilhado, mas renovado pelo Amor de Deus, de Quem depende inteiramente, e por Quem será elevado, segundo a promessa divina. Segundo documentos do Magistério da Igreja, o termo “Filha de Sião” realmente é aplicável à Maria: O Salmo 87 diz que Sião se transformará em “mãe de todas as nações”, e Maria realmente se transformou em “Mãe dos Filhos de Deus”.

“Cheia de Graça, o Senhor é contigo”, a expressão “Cheia de Graça”, que substitui o nome de Maria, indica ao mesmo tempo a missão e unção recebida da parte de Deus: O título anuncia não somente o papel de Maria na história da Salvação, mas indica que Deus já o fez de tal maneira a dispô-la para este papel. Ele é assim o “germe” de sua missão. Preparada com a plenitude da Graca para uma missão específica na Salvacão trazida por Jesus Cristo, ela é a imagem da atuação criadora de Deus, santa por obra divina, e não por simples esforço humano. A expressão ” O Senhor é contigo ” significa que é o Senhor quem realizará a obra por meio de quem é chamado. Deus está presente para assistir ao fiel, ao qual se lhe confia uma obra que interessa a todo povo escolhido.

” Cheia de Graça” é um elemento literário que tem função teológica
“Perturbou-se” Maria por compreender a grandeza da missão, superior à sua pequenez. Ela realmente, por si mesma não estaria à altura do chamado de deus para si, mas o Senhor a conforta: “Não temas”. Não há o que temer pois esta não é apenas a história de Maria, mas a história da humanidade, que Deus ama com amor infinito, e mais que tudo quer resgatar.

” EIS QUE CONCEBERÁS E DARÁS À LUZ UM FILHO, E LHE PORÁS O NOME DE JESUS. ELE SERÁ GRANDE E CHAMAR-SE-Á FILHO DO ALTÍSSIMO E O SENHOR DEUS LHE DARÁ O TRONO DE SEU PAI DAVÍ; E REINARÁ ETERNAMENTE NA CASA DE JACÓ; E O SEU REINO NÃO TERÁ FIM”(Lc 1,31-33).

O anjo aqui anuncia à Maria o cumprimento, em seu seio, da promessa Messiânica, de deus para todos os homens. Maria não é chamada a ser simplesmente mãe física daquele menino, mas a mãe do Herdeiro da promessa Davídica, ao qual se dará o nome de Jesus: sua maternidade não é separável do projeto salvífico que deus deseja realizar por meio dela. Sem dúvida, Maria não sabia, no momento da Anunciação, todas as modalidades da Obra Redentora. mas bastava-lhe saber que Jesus seria o Messias tão esperado, de quem conhecia os anúncios proféticos e por quem esperava ansiosamente em suas orações como os Israelitas fiéis. Mas sua fé iria muito mais além do que conhecia e compreendia: Maria não sabia de tudo, mas tudo aceitou, porque a fé e a Caridade não precisam saber de tudo para serem perfeitas.

” MARIA PERGUNTOU AO ANJO: “COMO SE FARÁ ISSSO, POIS NÃO CONHEÇO HOMEM?” RESPONDEU-LHE O ANJO: O ESPÍRITO SANTO DESCERÁ SOBRE TI, E A FORÇA DO ALTÍSSIMO TE ENVOLVERÁ COM A SUA SOMBRA. POR ISSO O ENTE SANTO QUE NASCER DE TI SERÁ CHAMADO FILHO DE DEUS. TAMBÉM ISABEL, TUA PARENTA, ATÉ ELA CONCEBEU UM FILHO NA SUA VELHICE; E JÁ ESTÁ NO SEXTO MÊS AQUELA QUE É TIDA POR ESTÉRIL: PORQUE A DEUS NENHUMA COISA É IMPOSSÍVEL”(Lc 1,34 a 37)

No Antigo Testamento, várias mulheres estéreis deram milagrosamente à luz seus filhos predestinados (Isto é, que tinham um papel especial na história da Salvação):Gen 18,11;Jz 13, 4ss;1 Sm 1,11;Gen 30,23. Este prodígio, destinado a mostrar claramente a intervenção divina, repete-se no nascimento de João Batista (Lc 1,36). Mas eles foram sinal e figura de uma manifestação divina ainda mais maravilhosa: o nascimento virginal de Jesus. Isto porque quanto à Nossa Senhora, o milagre foi singular, ultrapassando todas as outras manifestações milagrosas do AT: A maternidade e a virgindade consagrada são duas vocações distintas, que Deus conciliou em Maria, não em duas fases, mas simultaneamente, e perpetuamente. Maria, cuja virgindade se tornou eloqüente a intervenção onipotente de Deus na história do homem, é assim modelo e intercessora das duas vocações: o matrimônio, e a virgindade consagrada.
Entre todos os meninos prometidos por Deus para o Seu povo, Jesus representa o ponto mais alto: Não foi gerado pela intervenção de um homem, mas concebido pelo Espírito santo e nascido, inteiramente da Graça, em uma mulher Santa e virgem, é o presente maior dado por Deus aos homens.

3. A MATERNIDADE DIVINA
O Espírito Santo, que pelo Seu poder cobriu com “sua sombra”, ou seja, deixando-a Imaculada como antes, deu nela início à divina Maternidade, e ao mesmo tempo fez seu coração perfeitamente obediente à comunicação divina, que supera todo pensamento e capacidade humana.
” ENTÃO DISSE MARIA: ‘EIS AQUI A SERVA DO SENHOR, FAÇA-SE EM MIM SEGUNDO A TUA PALAVRA’. E O ANJO AFASTOU-SE DELA”(Lc 1,38)

(EBED=DOÚLE=SERVA). Uma longa tradição popular traduziu para o português esta resposta como: “eis aqui a escrava do Senhor”. Mas a palavra escrava não é fiel ao na Bíblia hebraica, sendo o certo dizer “serva”. Mesmo porque a resposta de Maria não é a de uma mulher submetida à força a um amo contra a própria vontade, mas resposta de uma jovem israelita cheia de fé que aceita com PLENA LIBERDADE colaborar no desígnio salvador de seu povo, conforme o projeto de Deus que se lhe comunica como um chamado. É muito importante entendermos isto para saber que Maria não assume uma posição de opressão ou inferioridade, mas sim de PERTENCER ao Senhor, e de se colocar debaixo da Sua proteção. Ser EBED de Deus significa sempre ter um bom Senhor, jamais servidão no sentido negativo.

…”Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”…Se Maria é serva humilde, então resta-lhe apenas abrir-se à ação da Palavra de Deus, como uma israelita fiel em nome do povo. Maria reconhece Deus como autor de toda a obra salvadora que Ele quer realizar por ela, e aceita na fé colaborar, ser mediadora na intervenção divina, como foram no AT Abraão e Moisés, e as mulheres chamadas a libertar o povo.

Dois aspectos muito importantes:
a. A proposta da Anunciação não se refere a um chamado de Deus para uma transformação individual ou para uma santidade privada. É um chamado particular a participar da obra Salvadora por seu Filho, é um chamado de caráter universal. Assim, a anunciação do anjo não se dirige apenas à Maria, mas à humanidade e à Igreja, por intermédio de Maria. Dizendo “sim” à maternidade, Maria disse sim à obra de seu Filho. E essa obra de Seu Filho nada mais é do que a Salvação coletiva de toda a humanidade. Maria, por seu sim maternal, comprometeu realmente a sorte da humanidade. E por esta repercussão universal, adquire a dimensão de Igreja. Maria é aquela que disse “sim” à Encarnação por toda a humanidade. É aquela em quem toda a humanidade se abriu para a vinda de Seu Salvador.

Essa obra salvadora, não se realizará de maneira abstrata. Ela começa a realizar-se concretamente em Maria, por sua livre aceitação obediente POR MEIO DA FÉ. Ela oferece sua colaboração como receptáculo passivo da ação de Deus. É Deus quem será o autor da obra, mas atuará nela. Deus, é o único autor na obra Salvífica. Mas vale-se de instrumentos pessoais que aceitam colaborar livremente, ainda que sua colaboração consista apenas em deixar que Deus realize algo em si.

b. Porém, na concepção de Jesus, Deus quer a livre aceitação de Maria, para que se veja que cada homem fará sua Salvação por um ato de aceitação livre e pessoal.
O anjo, anuncia UM DECRETO DIVINO e não deixa lugar para dúvidas sobre a certeza de sua realização. E devemos entender que o que Ele decide não é apenas a maternidade de Maria, mas todo o futuro eterno de Seu Filho.
Em outras palavras, o desígnio de Salvação não depende de Maria, mas Deus pede a sua LIVRE COOPERAÇÃO nele.
Deus não usa os seres humanos como marionetes. Ele não liberta o homem transformando-o em um objeto passivo, obrigando-o, pois isto equivaleria à sua destruição, e Deus não destrói o homem. A graça vem de deus ao homem como um dom, não como uma imputação. E realiza-se plenamente no homem com a sua livre colaboração. E foi conforme o Seu modo de agir que Ele desejou que Maria fosse livre ao aceitar a graça para ela e para o povo.

Por isto é que devemos entender que a Revelação não é simplesmente um ensinamento, mas a comunicação de projetos salvíficos de deus e um convite à participação nele. É uma autocomunicação de Deus que convida à fé, e a fé é a nossa entrega total a ele como resposta, para que Ele faça em nós a Sua vontade.
O “FIAT” de Maria constitui portanto uma expressão de alegria e não uma declaração indiferente de submissão. Maria é a alma ansiosa que tudo espera do Senhor e por isso proclama-se Sua serva.

Conclusões:
São dignos de admiração a total disponibilidade e esquecimento de si que percebemos em Maria. Nisto consiste sua humildade Maria tem consciência da vontade de Deus e se mantém na simplicidade. Deus é toda a sua riqueza e posse. Ela está totalmente a serviço da Palavra Criadora de Deus.

Digna de nossa admiração é também sua fé. A fé de Maria é mais preciosa do que sua maternidade, que é fruto da fé. Ela consentiu em ser Mãe de Jesus não apenas por uma maternidade física(nesse caso só seria venerada como uma das mães dos filhos “que chegam a ser heróis”). Ela aceitou livremente ser a Mãe do Deus que salva, do Filho do altíssimo, daquele que será chamado Filho de Deus. E é claro que, no momento da Anunciação, captou essa missão segundo a fé própria de uma jovem israelita, que não conhecia a doutrina trinitária. Por isso sua fé teve de crescer em meio à escuridão, junto com a experiência do crescimento do Filho, e à luz da Palavra (Maria também foi evangelizada)

Por isto é que a Igreja desde o princípio afirmou, através dos Santos Padres, que Maria “Concebeu primeiro em seu coração, e depois em seu ventre”(Sto. Agostinho). Ela representa por isto a fé da Igreja, que se regozija ao acolher em seu seio o Salvador. Deus lhe pediu que aceitasse ser a Mãe do Filho de deus, o Redentor, mas ela não conhecia em profundidade a essência deste Redentor(ou seja, a divindade de seu Filho no sentido trinitário), e ainda assim entregou-se na fé. Por isto Maria é a primeira cristã.

Se para nós, Maria é apenas mãe biológica de Jesus, nossa doutrina não difere da de alguns protestantes que não negam a maternidade de Maria. Ela seria apenas a mãe de um grande herói. Mas se compreendemos que sua maternidade é também e principalmente pela fé e dentro da ordem salvífica, aí podemos vê-la (sua maternidade) como projeto divino de Salvação em favor da Igreja

No plano divino, o Filho se encarna PARA ser Redentor, encarnação esta que se realiza no seio de Maria, com seu livre consentimento, e já é desde p início, parte da obra de nossa Salvação.
Por seu consentimento, na fé, Maria é a primeira a participar CONSCIENTE E LIVREMENTE da Salvação messiânica cumprida em Seu Filho. E seu consentimento é decisivo , no plano do Pai, para a Salvação de todo o mundo.


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