Formação

Falar a Deus como Pai

É o Pai o centro de unidade e de amor. Somente o Ele pode dar sentido à vida.

A oração possui várias dimensões e cada pessoa é convidada a descobrir qual o melhor modo de se dirigir a Deus. Há quem encontre em Deus um amigo, um pai, um irmão, um esposo etc. Outros preferem mergulhar em Deus Trindade e aí permanecer, como foi com Elisabeth da Trindade, uma carmelita francesa que ficou conhecida exatamente por seu amor ao mistério de Deus Trindade. Quero refletir sobre este mistério, ressaltando a pessoa do Pai e como podemos nos relacionar com Ele.

Na amorosa contemplação do Deus Trindade nos sentimos atraídos a silenciar e a deixar-nos invadir, a tomarmos consciência de que o amor de Deus, único e verdadeiro, se revela nas três divinas Pessoas. Toda a nossa existência é marcada pela presença de Deus como Pai bondoso que, em Jesus de Nazaré, manifesta toda a sua misericórdia e não quer que o pecador morra, mas que ele se converta e viva.

Somos convocados a descobrir a presença de Deus ao nosso redor e dentro de nós. A criação toda é puro reflexo da Trindade, especialmente atribuída à iniciativa de Deus Pai. Jesus move-se e vive no centro do amor do Pai e do Espírito Santo. Esta recíproca doação amorosa é fonte de toda a vida da Igreja, de toda comunidade e de cada cristão.

Não há dúvidas de que vivemos, hoje, uma crise de paternidade. Em nome de uma autonomia e liberdade pessoal tentamos romper com o passado, como se fôssemos capazes de iniciar uma nova caminhada sem fazer referência a ele. Todos nos perguntamos com uma certa angústia desde os tempos mais remotos: “Quem somos, de onde viemos e para onde vamos?”. Descobrimos a nossa verdadeira identidade na medida em que procuramos a nossa origem naquele que não tem origem, porque é eterno. É a sede de eternidade, presente em nós, que nos torna corajosos e humildes para buscar em Deus o nosso início e a nossa meta total. É no pai natural que cada ser humano procura a sua origem e, assim é em Deus Pai que nós devemos buscar a luz necessária para o nosso caminho e a nossa história.

Como não fazer referência ao profeta Isaías que nos fala dos filhos de Israel que se negaram a chamar a Deus “de seu pai” e não quiseram obedecer aos seus desígnios de amor?

“Sião dizia: ‘O Senhor me abandonou, meu Senhor me esqueceu!’ Porventura a mulher esquece a sua criança de peito, esquece de mostrar sua ternura ao filho da sua carne? Ainda que elas os esquecessem, eu não te esquecerei! Eis que nas palmas de minhas mãos eu te gravei; as tuas muralhas estão constantemente sob os meus olhos.” (Is 49,14-16).

Como esquecer os textos dos livros sapienciais onde se alude ao cuidado que o Pai tem para com seu povo, guardando-o de todos os perigos?

“Senhor, Pai e Soberano de minha vida, não me abandones a seus caprichos e não permitas que eles me façam cair. Quem aplicará a vara aos meus pensamentos e a disciplina da sabedoria ao meu coração, sem poupá-lo em meus desvios e sem deixar passar suas faltas? Para que não se multipliquem meus erros nem se acumulem meus pecados; para que eu não caia diante de meus adversários e meu inimigo não se felicite com isso? Ó Senhor, Pai e Deus de minha vida, não me dês a arrogância dos olhos…” (Eclo 23,1-4).

“Mas é a tua providência, ó Pai, que segura o leme: tu traçaste um caminho sobre o mar, vereda segura entre as ondas, mostrando por isso que podes salvar de todo perigo…” (Sb 14,3).

Estas passagens nos mostram uma profundidade no relacionamento com Deus como Pai. Esta visão progressiva da presença de Pai assume a sua plenitude na revelação de Jesus. Somente Jesus, que estava no seio do Pai e veio entre nós, poderá nos revelar a autêntica paternidade de Deus.

Por que Deus é Pai?
Deus é Pai porque nos dá a vida gratuitamente e numa atitude de puro amor. Por isso a paternidade de Deus não se conquista através das nossas obras, mas tornando-nos diante dele como “crianças”. É preciso, antes de mais nada, deixar-nos amar por Ele, numa atitude de acolhida e de discipulado. Na consciência da nossa pobreza descobrirmos a riqueza do amor paterno que faz surgir em nós uma nova vida (cf. Mc 9,33-35; 10,13-15; Jo 3,1-15).

Deus é Pai porque perdoa sempre os pecados da humanidade. O maior sinal do amor paterno, pleno e total é o perdão. Jesus nos oferece o amor de Deus como resposta a todas as enfermidades do corpo e da alma. Em Deus todos encontram o amor e a “cura” de todo mal. Coxos, cegos, paralíticos, pecadores, publicanos, prostitutas… todos que se aproximam com confiança de filhos experimentam o amor de Deus Pai. Como não recordar a parábola do filho pródigo que, na sua volta, não somente é recebido com amor, mas lhe é restituída toda herança perdida? (Lc 15).

A humanidade de hoje, muitas vezes seduzida por falsas luzes e religiões, como o filho da parábola pede o que é seu e vai por caminhos desconhecidos, desperdiçando a graça e o amor até tocar o âmago da miséria. Levanta-se e volta corajosamente para a casa do Pai que, ansiosamente, nos espera para nos abraçar e nos cobrir de beijos, cobrindo-nos com as vestes do amor e readmitindo-nos à plena comunhão. O homem, seja qual for a sua culpa e pecado, jamais deve ter “medo de Deus”. Não se pode ter medo do amor do Pai que tem uma única missão: amar e perdoar.

Santa Teresa de Jesus mantinha um profundo relacionamento filial para com Deus Pai e se sentia muito livre diante dele, expressando com palavras toda a sua ternura:

“Esperança minha, Pai meu, meu Criador, meu verdadeiro Senhor e Irmão, quando penso no que dissestes, isto é, que vossas delícias são habitar com os filhos dos homens, minha alma se inunda de alegria. Senhor do céu e da terra, onde está o pecador que, depois de tais palavras, possa ainda desesperar? Será, Senhor, que não tendes outros com quem deliciar-vos, para virdes a um verme tão repugnante como eu? No batismo de Vosso Filho, dissestes que nele púnheis vossas complacências. Somos iguais a ele, Senhor? (Exclamações 7,1-3).

Deus é Pai porque permanece aberto ao diálogo com a humanidade. Não é um Pai autoritário, fechado em si mesmo, mas um Pai que corre atrás dos filhos que se afastam dele ou os espera numa atitude de abertura e de amor. É o Pai amigo e companheiro, que faz conosco a história e nos oferece a cada momento sua aliança. A sua delícia é viver entre nós.

No início do terceiro milênio necessitamos, sem violentar o mistério da paternidade de Deus, redescobrir na vida cotidiana a presença paterna de quem nos criou por puro amor e nos admitiu em Jesus como seus filhos adotivos. Somos chamados filhos de Deus e na verdade o somos. Quando o ser humano rompe com seus “pais” ou por eles não é reconhecido, criam-se dramas imensos e profundos. Como não recordar a crescente e constante atenção que a Igreja tem dado nestes últimos tempos à reconstrução da “família”, reforçando a responsabilidade dos pais como primeiros evangelizadores dos filhos e primeiras testemunhas da experiência do amor de Deus, derramado em nossos corações?

Jesus nos revela o Pai
É significativo na vida terrena de Jesus que uma das primeiras e uma das últimas palavras suas foram dirigidas ao Pai, como chave que abre uma nova maneira de dialogar com Deus, e chave de leitura que abre a porta da eternidade onde seremos acolhidos para sempre no abraço amoroso do Pai.

Em Lc 2,49 temos as primeiras palavras pronunciadas por Jesus, que nos mostram todo o projeto que Ele veio realizar, estar totalmente a serviço do Pai e não se deixar distrair por nada nem por ninguém. Mesmo se incompreendido deve permanecer fiel àquele que o enviou para restaurar o reino de Israel, para que todos sejam como um rebanho guiado por um pastor sábio.

E as últimas palavras, pronunciadas na cruz, na sua dor imensa e profunda – não como um grito de desespero, mas de dor – são uma pergunta filial ao Pai que, ao longo da vida, esteve sempre ao seu lado. Jesus nos mostra como na dor só nos é permitido invocar o Pai para que ele venha em nosso socorro: “nas tuas mãos eu entrego o meu espírito” (Lc 23,40).

Portanto, toda a vida de Jesus é uma perfeita sintonia com o Pai, e um desejo permanente e constante de não realizar nada mais que a vontade dele: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai que me enviou”.

É o Pai o centro de unidade e de amor. Somente o Ele pode dar sentido à vida.

Vemos como Jesus falava com um amor especial do Pai e, em suas últimas horas de convivência com os apóstolos, apresentadas nos capítulos 15 a 17 de João, principalmente em sua oração sacerdotal, Jesus repete 27 vezes o nome do Pai.

“Pai, é chegada a hora…” (Jo 17,1).

“E agora, Pai, glorifica-me junto de ti, com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse…” (Jo 17,5).

“Pai santo, guarda-os em teu nome…” (Jo 17,11).

“Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti…” (Jo 17,21).

“Pai, quero que, lá onde eu estiver, os que me deste estejam também comigo…” (Jo 17,24).

“Pai justo, enquanto o mundo não te conheceu, eu te conheci…” (Jo 17,25).

Mergulhemos na adoração silenciosa deste amor de Deus Pai, falemos com Ele com toda confiança, e que a força do Espírito Santo nos permita proclamar que o homem jamais estará sozinho, sempre terá um Deus Pai que o ama e quer por ele ser amado.


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