Formação

Frei Patrício: A fé nunca duvida

Eu nunca discuto sobre fé, e muitas pessoas me perguntam por quê.

Estamos quase no fim do ano litúrgico, e a Igreja nos convida a fazer uma avaliação da nossa vida de fé, de esperança e de amor. Deus caminha sempre conosco. Ele exige que não duvidemos da sua palavra e nem da palavra dos seus profetas. Não é o povo que caminha com Deus, mas é Deus que caminha com o seu povo e envia sempre os seus profetas, que são luzes na noite da escravidão.

O profeta nem sempre é aceito, aliás, muitas vezes se vê obrigado a fugir de um lugar a outro para desempenhar a sua missão. O mundo não pode viver sem profetas… É bom parar um pouco para pensar, e aí a história nos ensina que em todas as categorias encontramos bons e péssimos profetas, seja na política, na economia ou na religião. Cada batizado é, por força da sua pertença a Cristo, sacerdote, rei e profeta, missões que são interligadas e importantes para viver a vida com alegria e com responsabilidade.

No batismo nós recebemos três dons por parte de Deus, dons de mãos beijadas, sem merecimentos, que muitas vezes esquecemos e deixamos “no freezer”, os fechamos num cofre de segurança e permanecem inutilizados. É o grande pecado de muitos cristãos, que
são cristãos apenas porque um dia foram batizados, mas depois esqueceram tudo e hoje vivem como se não fossem batizados.

O papa Francisco várias vezes nas suas homilias tem perguntado assim, rasteiro: “quando você foi batizado?” É claro que pouquíssimas pessoas lembram pessoalmente quando foram batizados, porque a maioria recebeu o batismo quando criança, mas é bom ver, perguntar. Eu sei que fui batizado imediatamente ao meu nascimento e pesava somente 800 gramas e devia morrer… Assim me falou minha mãe Domênica. Creio que seja um dos poucos que pode dizer que recebeu de Deus o cêntuplo em peso… Aliás, cheguei a pesar mais de 100 kg… Hoje estou menos do cêntuplo, mas falta pouco.

Como você dinamiza a sua fé?

Eu nunca discuto sobre fé, e muitas pessoas me perguntam por quê. O motivo é simples: a fé é o que eu creio e não consigo explicar, porque para o que explico e entendo não necessito de fé, então se não consigo nem entender e nem explicar como posso discutir? Só posso dizer que sou muito feliz pela minha fé. Santa Teresinha do Menino Jesus na sua noite de fé diz: A fé não é o que eu sinto, mas o que creio.

Vai e faz como eu te digo

A palavra de Deus do Livro dos Reis conta a história do profeta Elias, que se vê perseguido pela rainha Jezabel pela sua fidelidade a Deus. Que fazer? Tem medo de morrer, então foge e procura asilo numa cidade distante, Sarepta, onde fugitivo, cansado, faminto, sente necessidade de pedir ajuda. E pede não aos ricos, nem aos poderosos, mas sim a uma pobre viúva que busca um pouco de madeira para fazer, pela última vez, um pouco de pão e morrer de fome com seu filho. A viúva escuta a voz do profeta, que pede ajuda e faz como ele pede, tem fé na voz do profeta que representa Deus, e Deus vem em sua ajuda. A fé da viúva se faz caridade generosa e Deus a recompensa abundantemente, nunca mais a farinha nem o azeite vão acabar. Deus é sempre assim: nunca se deixa vencer em generosidade.
Todas as vezes que nós confiamos totalmente em Deus e damos tudo para aliviar a dor, o sofrimento dos mais pobres, Deus vem em nossa ajuda. A viúva e o órfão pobres à espera da morte são instrumentos para salvar a vida do profeta. Devemos recuperar a confiança no Senhor, não ter medo, ajudar quem nos pede algo. O mal jamais poderá vencer o bem. Antigamente, no tempo de Elias profeta, a idolatria ditava, também hoje a idolatria do poder e do dinheiro dita entre nós, mas os pobres continuam a ser seres vivos de fé e de caridade.

O pecado foi destruído para sempre

Quando eu era jovem, não gostava da Carta aos Hebreus. Ela me parecia difícil e muitas vezes sem sentido, longe da realidade; hoje é o meu livro preferido de teologia, de espiritualidade, de oração. Muitas vezes medito esta carta e tantas vezes me encontro a repetir versículos que me alimentam no caminho da vida e me dão esperança renovada. Como é belo saber que Jesus se ofereceu uma vez para sempre ao Pai como hóstia santa e imaculada, como sacrifício de amor e de misericórdia, e que com a sua morte na cruz, destruiu para sempre o pecado. Por esta oferta de Jesus nós somos criaturas novas, salvas e redimidas para sempre. Ele é o sumo sacerdote cheio de amor por nós que assume os nossos pecados e nos abre a porta da verdadeira esperança e alegria. Façamos desta carta ao Hebreus o nosso livro de teologia e de oração e sentiremos uma grande paz inundar o nosso coração.

Como distinguir os verdadeiros profetas

Jesus hoje nos oferece critérios seguros para saber quem são os verdadeiros e os falsos profetas. Quem ama demais a si próprio e gosta de ser elogiado por todos, quem ama o dinheiro, o comodismo, o conforto, quem se preocupa em aumentar a sua própria fortuna, a sua conta no banco e que explora os pobres não tem amor nem a Deus e nem aos pobres. Pode ter certeza de que esses tipos de pessoas são falsos profetas que não devem nem ser escutados, tampouco imitados. Na palavra de Deus de hoje temos duas mestras que nos ensinam o que é a fé autêntica e a caridade, as duas viúvas, a de Sarepta, que dá tudo para sustentar o verdadeiro homem de Deus, o profeta Elias, e no Evangelho a pobre viúva que dá tudo o que tem com generosidade. Quem dá o que lhe sobra e do que não tem necessidade não é generoso. Jesus nos convida a mudar a nossa maneira de agir, de pensar, de ver. Devemos ter confiança, Ele nunca abandona os que Nele confiam.


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