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Frei Patrício: a Paz afasta o demônio

A paz não é um produto que perde a validade e que se joga fora. Mas é um valor tão belo e profundo, que sempre dá seus frutos.

Estamos vivendo um momento de paz muito importante para o mundo e para a Igreja, um autêntico sacramento do amor de Deus, em que do céu é derramada uma chuva torrencial de paz e de amor. Devemos deixar-nos não só molhar, mas empapar por ela, para que, por onde passemos, possamos deixar sinais fortes de paz em todos os corações.

O Papa Francisco vai falar de paz e de justiça, para que, como diz o Salmo: “paz e justiça se encontrem, se abracem e façam surgir uma nova civilização do amor e da paz”. Quem constrói os muros, constrói a sua própria cadeia e, um dia, mais cedo ou mais tarde, se encontrará sozinho e sem ninguém que o liberte. Os muros sempre foram sinais de divisão, de força e de egoísmo.

Já as pontes sempre foram sinais de caminhos abertos e de diálogo. A Igreja tem cumprido este papel nestes últimos séculos e, hoje, sabe que não pode mais construir muros ao seu redor que a protejam. Ela está exposta às fortes ventanias, mas, com a graça de Deus, resiste fortemente e não vai cair, embora que, às vezes, há quem tente afundar a barca de Pedro. Entretanto as palavras de Jesus não foram nunca desmentidas. Por que deveriam ser hoje? As portas dos infernos não venceram a minha Igreja fundada sobre a rocha e sobre todos os que, na fidelidade a Jesus, manifestam a própria fidelidade ao Pedro de hoje, que se chama Francisco.

Um rio de paz chega inundando a terra de um lado ao outro: não há países que não se vejam obrigados, mesmo que com má vontade, a olhar para Roma e dar importância ao que o Papa e a Igreja dizem, porque a força da Igreja não está nas armas, no poder, no comércio, mas, sim, na força da paz e do amor.

Dentro da Igreja, devemos reconhecer o que há de podre, mas também o que há, na maioria, que são frutos bons, boas sementes, que dão flores bonitas e que prometem um dia colheita de paz e de esperança. Há anos que repito um refrão nos meus escritos:  “Devemos ser semeadores da esperança”.  É tempo de os cristãos saírem juntos para as periferias, semeando esperança nos corações áridos e desérticos. À primeira chuva, estes vão florescer e dar frutos. Rios de paz vão inundar a terra e ela será transformada em jardim.

O fundamentalismo sempre houve e sempre haverá. Mas quem são as pessoas fundamentalistas? São pessoas sem esperança e fechadas em si mesmas, que não defendem a verdade, e que, ao contrário, não têm uma visão de Deus e nem de futuro. Quem não deseja mudar, está morto há muito tempo, e Deus não quer o fundamentalismo em nada, Ele quer, na verdade, diálogo, paz, amor e vida plena para todos. O tempo já chegou, e esta é a hora em que não se adorará mais a Deus nem em Jerusalém nem em Gerizim, mas em espírito e em verdade.

Vamos nos deixar hoje invadir pela Palavra de Deus, olhando este mês de julho, em que temos muitas festas carmelitas: Nossa Senhora do Carmo, a festa dos pais de Santa Teresa do Menino Jesus – São Luís Martin e Zélia Guérin – (memória facultativa a 12 de julho), exemplos para todas as famílias; Teresa de los Andes (memória facultativa a 13 de julho), festas estas que nos animam a beber dos rios da paz.

Em Jerusalém, seremos consolados

Isaías 66 é o meu preferido. Nos momentos em que tenho medo de perder a esperança, abro a Bíblia, passam-se as páginas, e termino lendo novamente o profeta, que goteja esperança em todos os seus textos, especialmente neste texto.

Rios de paz vão percorrer a terra. Todos os prófugos vão voltar e serão consolados em Jerusalém. Mas que quer dizer Jerusalém para nós? É a Igreja que nos recebe e nos oferece sempre palavras de consolação e de força em todos os momentos de nossa vida. Assim, é belo que a Igreja defenda também a cidade de Jerusalém como cidade que não pertence nem aos judeus nem aos muçulmanos e nem aos cristãos, mas a todos os povos da terra. É a cidade de Deus na que devemos sempre ter os olhos fixos para ir beber da nascente da paz e da concórdia.

Sempre todas as religiões têm uma cidade, um lugar mais santo que os outros, mas Deus diz para cada um de nós o que disse a Moisés: “tira as sandálias, porque este lugar é santo” (Ex 3,5). O lugar santo é onde Deus se revela, mas o coração santo é o de todos os que buscam a verdade e a paz.

O nosso corpo é lugar santo

Paulo é um profeta, um santo, um convertido que ama com paixão a Jesus e que sabe que todos os sofrimentos que encontra no anúncio do Evangelho servem para uni-lo ainda mais a Cristo crucificado. Não se pode ser cristão autêntico sem um amor de fé na Cruz de Jesus e sem desejar ter no nosso corpo os sinais das Suas feridas que sangram diante dos pecados da humanidade e dos nossos. Não se trata de ter os estigmas como Pio da Pietrelcina ou Francisco de Assis, ou ter o coração transverberado como Teresa d’Ávila, mas, sim, se trata de ter estigmas invisíveis, que ferem o nosso coração diante do mal.

Peçamos ao Senhor, como Paulo, para estarmos sempre juntos a Jesus em todos os momentos de nossa vida. Eis o que Paulo diz:  “Doravante, que ninguém me moleste, pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus. Irmãos, a graça do Senhor nosso, Jesus Cristo, esteja convosco. Amém!”

A Paz afasta o demônio

Lucas, com seu estilo sóbrio, mas cheio de harmonia e de paz, nos apresenta Jesus, que envia os Seus discípulos de dois em dois pelas cidades da Galileia e pelo mundo inteiro, dando-lhes algumas recomendações que não se podem esquecer nunca. Que devem levar consigo?  Nada. Qual é a força que têm? Nenhuma. Que devem anunciar? A paz e que o Reino de Deus está perto.

Além disso, onde há um filho da paz, a paz fica, e se não houver nenhum, volta para eles. Isso não para guardá-la, mas para doá-la aos próximos que encontrarem. A paz não é um produto que perde a validade e que se joga fora. Mas é um valor tão belo e profundo, que sempre dá seus frutos.

O demônio da discórdia será vencido, mas isto não deve gerar em nós nem orgulho e nem soberba, mas nos dar humildade. Somos felizes porque os nossos nomes estão escritos no céu, no coração de Deus, que é fonte de paz e de comunhão. A leitura deste Evangelho deve constituir a regra suprema de todos os missionários que vão sem nada para nada receber, sendo semeadores de esperança e de paz.

Escola de oração

O Senhor conhece a cada um de nós melhor do que nós mesmos. Sabe de nossas fragilidades e das dificuldades de nossa vida que podem nos levar a cair. Para nos encharcar de graça, Ele nos deu os sacramentos e Jerusalém, a Igreja. Assim, diante da nossa miséria, miremos a misericórdia de Deus, que nos criou para sermos santos como Ele. Que, nela, nosso coração se encha de esperança, de paz e de fé, anunciando as graças de Deus.

A partir disso, reflitamos com as palavras do Papa Francisco: “Na Carta aos Hebreus, mencionam-se várias testemunhas que nos encorajam a ‘correr com perseverança a prova que nos é proposta’ (12,1): fala-se de Abraão, Sara, Moisés, Gedeão e vários outros (cf. cap.11). Mas, sobretudo somos convidados a reconhecer-nos ‘circundados de tal nuvem de testemunhas’ (12, 1), que incitam a não deter-nos no caminho, que nos estimulam a continuar a correr para a meta.

E, entre tais testemunhas, podem estar a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós (cf. 2Tm 1, 5). A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor.” (Gaudete et Exsultate, 3).


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