Formação

Frei Patrício: A terra deserta florescerá

É tempo não de ir ao supermercado, mas sim à igreja para uma boa confissão. Tempo de vestir a roupa nova da alma como noiva preparada para receber Cristo, o Esposo.

Daqui a dez dias, será o Natal; a luz que é Jesus virá para dissipar as trevas, e os anjos descerão do céu para anunciar a Boa Nova da Paz a todos os homens e mulheres da Terra de boa vontade, que buscam fazer um mundo novo, onde não haja mais guerra nem morte, mas vida em plenitude.

É tempo de parar um instante e de dar uma olhada não no nosso guarda-roupa para a noite de Natal e para o fim do ano, mas sim para a nossa alma, para ver como está nosso guarda-roupa espiritual, feito de conversão e de boas obras. É tempo não de ir ao supermercado, mas sim à igreja para uma boa confissão. Tempo de vestir a roupa nova da alma como noiva preparada para receber Cristo, o Esposo.

Ontem, celebramos a festa do grande místico João da Cruz, que na sua vida foi um cantor de quem busca a Deus e aprendeu, no silêncio e no sofrimento do cárcere de Toledo, a saber correr atrás das coisas do Alto e não parar sobre as coisas que passam. Devemos, sem dúvida, nos voltarmos aos grandes contemplativos que nos educam nos caminhos que não só levam a Deus, mas que nos obrigam a comunicar o Senhor encontrado na oração.

O Natal está às portas. As coisas são enfeitadas para a festa, mas a maioria dos enfeites é de plástico e depois de uma semana se desfaz, por ser de material reciclado… Precisamos nos vestir das virtudes que nem o tempo nem a traça podem destruir, porque foram tecidas de amor, esperança e fé.

Tempo de busca

É tempo de sair pelas ruas afora, com o coração cheio de amor e buscar os muitos “Cristos” abandonados, que se alimentam dos resíduos jogados das nossas mesas, que sofrem pelos descuidos dos que têm o sacrossanto dever de cuidar da saúde, da cultura, da casa, do pão para todos. Antes, eu acreditava que havia pobre que não queria nada. Hoje, acredito que as almas que não querem nada são as insensíveis aos sofrimentos que andam por aí sem sentirem-se tocadas pela miséria humana. 

Tempo de esperança

O Natal não acontece por causa do calendário nem chega automaticamente, mas vem à medida que preparamos o nosso coração. É tempo de sonhos e de esperança, de silêncio de escuta do choro das crianças, que clamam por um pouco de calor humano paterno e materno. Como podemos nos preparar para esta grande festa da alma, berço onde Jesus quer nascer e crescer? Cabe a cada um de nós esta preparação, mas não devemos fazê-la sozinhos, porque caminhamos sempre juntos. Uma pessoa só não faz o povo de Deus, somos um povo, porque somos muitos e, se estamos sozinhos, caminhamos na fé com aqueles que nos precederam e com aqueles que virão depois de nós.

É tempo de acordar e caminhar seguindo a estrela que nos levará onde Maria, José e Jesus nos esperam, para começar o novo caminho da esperança.

Vede, ele é nosso Deus, ele vem!

Não sei quantas vezes tenho lido e relido este capítulo 35 do profeta Isaías. Ele alimenta a minha alma em muitos momentos da minha vida, quando a tempestade do deserto, com a sua poeira fina, me impede de chegar e continuar o caminho, quando as trevas da fé tentam me parar no meu caminho para Deus. Quando as nuvens densas do desespero pesam na minha alma, corro como cervo sedento à nascente deste capítulo e recupero, em um momento, toda a força, coragem, luz e amor para continuar o caminho para a terra prometida do Céu e também a terra prometida aqui na Terra.

Leia com atenção e beba como se fosse uma bebida deliciosa, o deguste com um alimento que sacia, para nunca desanimar na sua vida. De que fala o profeta? De deserto florido, de joelhos revigorados, de mãos que se levantam, do povo a caminho, de vida nova que nasce dentro de nós, fecundada pelo rio subterrâneo da esperança e da fé.

Pare um instante e você verá, como diz o profeta, coxos que correm, cegos que veem, surdos que ouvem, mudos que cantam um cântico de esperança e de alegria. Isto é o Natal permanente da alma que crê, que espera e que ama.

Vem, Senhor Jesus, nós te esperamos

O Salmo 145/146 é um cântico de vitória de quem espera o rei que volta da batalha, é além disso, um grito de esperança e de vida que toca o nosso coração. Na segunda leitura, na Carta de São Tiago, temos as três atitudes de quem está convencido do poder de Deus. Uma delas é ser homem de perseverança, fiel até a vinda do Senhor, pois quem espera alguém não pode, de forma alguma, desanimar ou perder a coragem; mas deve, sim, ficar alerta, desperto, para que, quando a pessoa chegar, possa ser acolhida com alegria. Assim, devemos fazer nós que esperamos Jesus neste Natal.

A segunda atitude ensinada a nós por São Tiago é a de esperar como o agricultor que, depois de ter lançado a semente, vive uma esperança dinâmica, ativa, sabendo que chegará o tempo para fazer a colheita, mas que não será de imediato, porque é necessário tempo. Às vezes, temos pressa de recolher imediatamente os frutos do que fazemos, porém há um tempo de gestação que deve ser vivido na esperança de que o dia da colheita chegará.       

E a outra atitude presente na leitura se trata de que não devemos murmurar nem nos queixarmos uns dos outros, mas viver na paz e na alegria a nossa fé. As críticas, nos recorda tantas vezes o Papa Francisco, destroem a comunidade, a Igreja, e cada um de nós. Precisamos caminhar juntos, para o Cristo, que vem nos visitar.

O Senhor vem. Não seremos nós, com a nossa pressa, que apressaremos a Sua vinda. Ele vem no tempo oportuno. Nós devemos esperá-Lo.

Colocar os óculos da fé, para ver que Jesus vem

Bem-aventurados os que tiverem paciência, porque verão a vinda do Senhor e não ficarão desiludidos. Não consigo acreditar que o fim do mundo é amanhã nem depois de amanhã e que só profetas de desventuras, que gritam no fim das coisas bonitas da vida, vão ter a vitória.

Acabou o celibato na Igreja. A vida religiosa não tem mais esperanças. Francisco é o último Papa antes do fim do mundo, haverá um terremoto que destruirá toda a humanidade, satanás está vencendo, as portas do inferno estão cheias e o Paraíso está vazio… Quem mais tem alguma coisa sobre o fim do mundo, coloque aí nessa lista…

Eu creio que Deus sabe o que faz e não vai revelar a ninguém os segredos escondidos nos séculos, chegará o momento, a hora, mas não é agora. O Evangelho nos apresenta a figura profética de João Batista, que nos dá alguma dica para a vinda de Jesus. São sinais de esperança, o florescer do amor, os cegos vão ver, os coxos, andar; os surdos, falar; o bem, enfim, florescerá.

Cada um de nós tem uma missão: preparar os caminhos do Senhor. Preparemos bem o Natal e teremos feito a nossa parte.

Feliz preparação! Organize o guarda-roupa da alma e não o do corpo.

Enquanto aguardamos a vinda do Senhor, O anunciemos a todos com fé e confiança: “o próprio Jesus vem ao nosso encontro, repetindo-nos com serenidade e firmeza: ‘não temais!’ (Mc 6,50). ‘Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos’ (Mt 28,20). Estas palavras permitem-nos partir e servir com aquela atitude cheia de coragem que o Espírito Santo suscitava nos Apóstolos, impelindo-os a anunciar Jesus Cristo”. (Gaudete et Exsultate, 129).


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