Formação

Frei Patrício: Como impedir a violência?

Não declare guerra de nenhum tipo a ninguém e nem use a violência contra ninguém; os violentos e os guerreiros, não encontrando ninguém com quem guerrear, deixam de guerrear.

Não sou um sociólogo, e tampouco um policial. Aliás, tenho horror de armas, “complexo armofobia”. Mas não vou fazer psicanálise por causa disso, minha vocação não é trabalhar no exército. E sei também a causa deste medo das armas. É de antes do meu nascimento, quando mataram na guerra o meu pai Alessandro. Minha mãe estava grávida de mim de um mês. Está explicado. Vivemos num mundo em que se gasta mais para comprar armas, as mais sofisticadas possível, que para comer, construir escolas, hospitais e estádios de futebol. Há sempre uma desculpa que não se sustenta: “devemos defender-nos”.

Mas defender-nos de quê e de quem? Geramos inimigos dentro de nós com a nossa maneira de ser, com o ódio que temos e depois queremos defender-nos. Não confiamos em Deus nem nos outros e nem nós mesmos, e aí preferimos ir por aí com um 38 na cintura achando que isso nos dá segurança, e o outro com 68, mais rápido no gatilho, dá um tiro e tudo acabou.

As cadeias são sempre maiores e até mais bonitas, mais aparelhadas, com todos os meios tecnológicos para vencer ladrões, e ladrão não é ladrão de galinhas, mas cientista que se diverte em inventar instrumentos mais sofisticados para derrubar os outros. É luta para valer que não vai terminar com facilidade. Há um só método, uma só pedagogia para vencer a guerra, a violência: não fazer guerras e nem ser violentos. E aí tudo acaba.

O método se chama Evangelho, doado gratuitamente por Jesus de Nazaré, que nos convida a amar os inimigos, a dar as mãos aos que nos odeiam, a caminhar dialogando com os adversários, a sentar-nos à mesa com todos e a sermos amigos de todos. O método de Jesus é muito simples e eficaz: “se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. (Lc 6,29).

Não reclame a quem não te devolve o que você emprestou. O exemplo de Jesus, suas palavras, suas atitudes, sem dúvida, foram a primeira não-violência da história. A primeira “passeata da não-violência” foi o Domingo dos Ramos em que Jesus entrou em Jerusalém montando num jumentinho, sem armas e todos o clamaram rei dos judeus, mas também havia muita gente espionando para ver como matá-lo. A não-violência e a não-guerra vêm de Deus, a violência e a guerra vêm do diabo.

Jesus não usou a força para autodefesa, deixou que as coisas acontecessem. A derrota foi aparente, a vitória da ressurreição foi para sempre. Isso também aconteceu com os grandes pregadores da não-violência que morreram vítimas do ódio de Gandhi a Martin Luther King, e tantos outros que venceram a violência, a guerra. Não declare guerra de nenhum tipo a ninguém e nem use a violência contra ninguém; os violentos e os guerreiros, não encontrando ninguém com quem guerrear, deixam de guerrear.

Davi foi grande, não se vingou

O primeiro livro de Samuel nos relata guerra sem fim e ódio que não acaba, um ódio familiar de Saul contra Davi. E quando Davi tem a possibilidade de se vingar, de matar Saul, toma uma decisão maravilhosa de amor e respeito. E dirá aos que o incitam para matá-lo: “não o mate… não estenda a sua mão contra o ungido do Senhor”. Ao mesmo tempo, Davi quer deixar o sinal de sua presença não violenta, rouba a lança e a bilha de água do rei e depois as mostra. É um gesto de grandeza de ânimo do rei Davi por não se vingar, não se aproveitar da situação para eliminar o seu inimigo. É assim que se age, com magnanimidade de ânimo e não com mesquinharia.

Sem Deus não é possível a paz

O apóstolo Paulo continua a sua reflexão com arte, com discernimento, colocando à nossa frente o homem velho e o homem novo. O homem velho, o primeiro Adão que foi tirado da terra é incapaz de viver a plenitude de amor, é frágil, tem medo, se vinga, quer ter sempre domínio sobre os outros. É um homem terrestre, contaminado e pecador. Mas esse velho homem deve desaparecer através do novo Adão, que é Jesus. Quando Jesus entra a fazer parte da nossa vida, tudo vai mudando, o homem terrestre desaparece e o homem celeste vai aparecendo e revela a bela imagem de Deus. Teremos, um dia, o corpo glorioso como o de Jesus, mas desde já somos chamados a assimilar a
pessoa de Jesus, o Seu jeito de ser, o Seu caminho.

O amor é a única solução

As três leituras litúrgicas de hoje estão bem colocadas e uma explica a outra. O Evangelho nos coloca contra a parede e nos dá a receita certa para vencer para sempre o mal; é um remédio amargo, mas se bem tomado, e tomado por toda a vida, impede as doenças que prejudicam a convivência pacífica.

Não julgar os outros, não condenar, não se preocupar em ser moralista com os outros e depois nós mesmos nadarmos no barro e na sujeira. Sempre tive medo de três tipos de pessoas, as que gritam sempre ao escândalo dos outros e que não vêm a própria mediocridade, os santos de aparência; também tenho medo das pessoas que deixam tudo passar e não se dão conta de que é necessário ser profeta de Jesus no mundo em que vivemos; e por último, tenho medo dos indiferentes, para quem tudo vai bem e não sabem ser palavra de correção fraterna à luz da misericórdia e do Evangelho.

O critério fundamental, que é o espelho do nosso agir, não são as palavras, mas sim as nossas obras. Precisamos dar frutos, e sobre os frutos não se pode discutir, “não se colhem figos de espinheiros e nem uva da planta espinhosa (Lc 6,44) ”. Isso é mais do que certo, como de homem com homem não nascem criança e de mulher com mulher não nascem crianças. Veja como você está.

Escola de oração

Fiquemos com a reflexão do Papa Francisco: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra.

És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais”. (Gaudete et Exsultate, 14)


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