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Frei Patrício: É tempo de vigiar para não cair

Hoje em dia, temos tantos meios de vigilância, são câmeras e mais câmeras, cadeados e mais cadeados, isto dificulta o trabalho do ladrão, mas muitas vezes ele é mais esperto e sabe como desativar todos estes meios, para roubar.

O início do ano é recebido com festa e com muita esperança no coração, esperança de que as coisas mudem. Com ele, também nós queremos mudar, para termos uma vida mais tranquila, mais cheia de paz e de alegria. A vida, no sentido material, muitas vezes depende de nós, do nosso trabalho, da nossa criatividade. O que desejamos muitas vezes é um salário melhor, um trabalho melhor, um plano de saúde… É claro que tudo isto é bom. Mas isso não é tudo para quem vê a vida além do horizonte, a vida depois da morte.

Sabemos que se o futuro material se prepara com o trabalho e com as economias, é verdade também que o paraíso deve ser conquistado com trabalho espiritual e com uma economia interior. A economia interior e do Paraíso não funciona segundo as regras da matemática, e isto o diz Santa Teresinha do Menino Jesus, quando nos recorda pelas palavras: “jogarei tudo no banco do amor”. É no amor e com amor, e somente por amor, que nós conseguimos viver na paz aqui e agora. Teremos depois, no Paraíso, uma recompensa sem fim.

Um processo de conversão interior

No início deste Advento, que nos prepara para a vinda de Jesus no mistério da realidade do Paraíso, devemos nos programar e fazer um projeto de vida, um balanço de como vivemos este ano que terminou e como queremos viver o ano que vai começar. São muitas as coisas que vão acontecer, nas quais devemos ter sempre diante de nós a Palavra do Senhor e as obras de caridade. Para começar o novo ano litúrgico, exige-se de nós, antes de tudo, um processo de conversão interior, e uma abertura ao Espírito Santo, que nos chama a renovar-nos não só exteriormente, mas principalmente no profundo do coração; enfim, ver dentro de nós o que faz difícil o caminho que leva para Deus.

Confesso que estou meio desconfiado dos muitos discursos e projetos espirituais e materiais que se tornam apenas ideias traçadas no papel sem se tornarem realidade, mas sei que mudanças são possíveis. Há resistência dentro de mim para o mundo das palavras. Li nestes dias um artigo com o título “a Salvação vem de Jesus”, eram mais de vinte páginas e não encontrei nem sequer uma vez, a não ser no título, o nome de Jesus, e nem a respeito da Salvação da alma, só se falava sobre a salvação de animais, do clima, das plantas, enfim, da ecologia.

Tudo bem, com muitas coisas eu concordo. Mas me parece muito estranho não falar da Encarnação, da Paixão, da morte e da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, que veio para salvar o que estava perdido, que é a humanidade – e não apenas os rios –, e dar-nos uma nova chance de libertação do pecado.

Esta linguagem me preocupa um pouco e me deixa às vezes meio triste. Nós cristãos não podemos falar de Salvação da humanidade e do  mundo sem fazer uma referência explícita a Jesus, que é o Alfa e o Ômega. O Pai enviou o seu único Filho para salvar a humanidade. O mistério do Natal está neste reavivamento da nossa fé, na pessoa de Jesus, que se faz um de nós para nos redimir dos nossos pecados e nos abrir as portas da alegria eterna, do Paraíso.

O sonho que o profeta Isaías

É belíssimo o texto poético, cheio de esperança, de vida, de sonho que o profeta Isaías nos oferece, mas sabemos, pela fé, que a poesia para nós é vida e realidade. Quem crê em Deus não é um sonhador, sob uma ilusão que diz para não se ter medo da realidade, mas é alguém que crê e, pela fé, vence todos os medos. Temos a beleza de Jerusalém e de Sião, que se ergue diante dos olhos do profeta. Ele vê todos os povos caminharem para a cidade santa, um povo unido, de paz, em comunhão, em que todo o mal é vencido e destruído pela força de Deus.

Vivemos em um mundo no qual parece que o medo e a violência dominam tudo, em que a corrupção parece até honestidade, mas isso é só aparência. Chegará o dia quando tudo isto cairá e surgirá o juiz verdadeiro, eterno, que não condena, porque é amor, mas que purifica os nossos corações. Se não houver Natal dentro de nós, tudo é uma pura ilusão. O Príncipe da Paz vem e nos convida: “vamos caminhar todos para a casa do Senhor, para a cidade santa, a casa do Pão, Belém, onde estará o filho de Deus, Pão da vida eterna”.

Tempo de caminhar

O salmista, no salmo 121/122, convida todos a colocarem-se a caminho para a cidade santa, de onde vem a Salvação. Não se pode caminhar  a noite, porque tropeçamos e caímos. Temos necessidade da luz. O convite e as palavras do apóstolo Paulo falam que a noite está avançada, está no seu fim, e a luz está nascendo de novo. Qual luz? Não é a luz do sol, que todos os dias surge e afugenta as trevas, é outra luz, a que nasce do mesmo Deus e que vem nos iluminar, para que possamos acolher em nós a verdadeira luz que é Jesus.

Devemos deixar de lado as obras das trevas e realizar obras da luz, que são o amor, a paz, a justiça. Quem encontra Deus vive pobre de coisas, mas rico de Deus, pobre até de apoio humano, mas sempre rico do apoio de Deus, que nunca lhe falta. É tempo de caminhar, diz Santa Teresa d’Ávila, caminhar para a santidade e para a perfeição. Não paremos olhando as nossas quedas, mas olhemos os nossos soerguimentos, e, assim, mesmo sofrendo, vamos em frente.

Tempo de vigiar para não cair

Quem caminha deve estar muito atento para não cair e ver onde coloca os pés, pois, mesmo na noite, precisamos avançar, sem cair e é por isso que necessitamos de um apoio que nos sustenta e nos dá força. Me parece que um dos melhores comentários a este texto do Evangelho de Mateus é o Salmo 22, “o Senhor é meu pastor, nada me falta”. Também Jesus nos convida, através de uma simples reflexão, a não nos deixar surpreender pelas coisas desagradáveis do pecado, da morte, estar sempre vigilante, como o dono da casa que sabe que corre o risco de ser assaltado e, dessa forma, toma todas as precauções para que isto não aconteça.

Hoje em dia, temos tantos meios de vigilância, são câmeras e mais câmeras, cadeados e mais cadeados, isto dificulta o trabalho do ladrão, mas muitas vezes ele é mais esperto e sabe como desativar todos estes meios, para roubar. Da mesma forma que quanto mais roubos temos, mais alta deve ser a vigilância, quanto mais perigos passa a nossa vida espiritual, mais vigilantes em Cristo devemos ser. Começamos o tempo do Advento na esperança, no dia que chega a necessidade de vigilância, para não sermos surpreendidos pelo mal.

“Quanto mais alguém está imerso em Deus tanto mais deve sair de si, isto é, ir para o mundo a fim de levar a este a vida divina” – Santa Maria Benedita da Cruz.


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