Formação

Frei Patrício: Jesus veio para recuperar o ser humano

Precisamos perder a vergonha e correr para onde Jesus está. Ele, que nos ama, nos busca e, vendo-nos, entra na nossa casa.

Estamos caminhando para o fim do ano litúrgico, um ano belo, cheio de acontecimentos de alegria misturados com fatos tristes que só podem ser superados não com as nossas forças, mas com a confiança em Deus.

O que podemos dizer no fim deste ano é que vimos na Igreja uma vontade firme para ser cada vez mais transparente em tudo, sem medo, com vergonha em ver que dentro dela há mal, escândalos, pecados, mas que está decidida a não esconder nada.

O pecado, que é uma manifestação pequena ou grande da ação do demônio, que não é um fantasma inexistente, mas uma pessoa, um espírito real que luta, com todos os meios, contra Deus e contra o bem. Ele sabe que será derrotado e por isso se enraivece, tornando-se ainda mais violento e brutal. É ele que age assim contra os bons e contra os que anunciam o bem e a verdade. A Igreja, então, com dor, se “desnuda” na sua humildade, preferindo a vergonha à mentira.

O mal se vence não fazendo pacto com ele e nem fazendo concessões, mas por meio de uma luta face a face, da que se pode sair ferido, ainda que não mortalmente. Atos terroristas têm matado milhares de pessoas no mundo. Pela maldade humana vestida de cordeiro, muitas pessoas têm morrido de fome no mar – prófugos nômades –, encontrando a indiferença de tantas pessoas que fecham portos e não permitem entrar. Mas a Igreja sempre tem defendido que a vida vale mais do que todas as leis possíveis, pois nunca uma lei humana poderá valer mais do que a vida de um ser humano. Esta é a nossa fé e verdade trazida por Jesus, a qual não podemos renunciar. Temos visto rios de sangue inocente serem derramados injustamente, fecundando a terra para novos cristãos.

A Palavra de Deus nos fala que tudo é pó, vaidade, que tudo é relativo. Somos chamados a olhar para o futuro e, neste final de ano litúrgico, somos chamados ainda a pedir perdão a Deus pela nossa indiferença e pecado, mas não numa “choradeira” que não resolve nada, uma vez que o homem de fé vive sempre com otimismo no futuro, assumindo a sua missão de semeador de esperança e de vida.

Caminhar e viver é preciso. Edith Stein disse que “quando nos colocamos à escuta dos mais velhos, sempre temos a oportunidade de aprender”, devemos, pois, insistir na cultura da espiritualidade, do diálogo, da acolhida, da fraternidade e, assim, tudo será melhor.

Um grãozinho de areia diante de Deus

O perigo da idolatria é uma realidade sempre presente em todos os tempos e lugares. Não é um problema do passado, mas é um inimigo escondido dentro do nosso coração, que se alimenta do pão da superficialidade e do espiritualismo vazio e sem conteúdo. Precisamos sempre estar alertas contra a idolatria.

Quem somos nós diante de Deus? Somos, como se diz no livro de Sabedoria, um sopro de vento, e um grãozinho de areia que nada vale. E mesmo que não valhamos nada, somos também muito importantes diante do Senhor, que, do alto Céu, olha para cada um de nós com infinito amor e carinho. É uma das páginas mais belas sobre a bondade de Deus, Sua misericórdia para com todas as coisas, e muito mais com as pessoas que Ele criou, fruto do Seu infinito poder.

Só podemos agradecer

Diante da bondade de Deus, que olha para todas as coisas com amor e ternura, nos resta apenas bendizer e louvar. Qual é a vocação de todo cristão? A nossa vocação é glorificar com a nossa vida, com palavras e ações o Senhor Jesus, nosso Salvador e Redentor. Jesus em nós e nós Nele. Este mistério nos faz fecundos e capazes de trazer muito fruto como ramos enxertados em Cristo, videira viva. Sem Ele não podemos fazer nada. Não só não fazemos nada, como também não somos nada.

Somos chamados a estar vigiando de pé até que o Senhor venha, sem nos deixar encher a cabeça com fantasias idólatras ou com uma religião sem fundamento. Quem crê em Jesus não vai atrás nem de visões nem de mensagens extraordinárias, mas lhe é suficiente a nudez da fé despojada de toda folhagem, rica de frutos de boas obras.

É urgente correr para Jesus

Precisamos perder a vergonha e correr para onde Jesus está. Ele, que nos ama, nos busca e, vendo-nos, entra na nossa casa. Somente quando Jesus entrar na nossa casa e nós corrermos para acolhê-Lo é que vai acontecer o mistério da conversão, seremos, então, capazes de não ter mais medo dos nossos subterfúgios e, diante de todos, nós confessaremos e começaremos uma vida nova feita de graça e de obras.

É importante na vida espiritual redescobrir a importância do exame de consciência, que é um checape interior, em que tudo se vê, sentindo quem somos, e, mesmo na nossa fragilidade, nos sentimos muito amados.

Oração da alma enamorada

Senhor Deus, Amado meu! Se ainda te recordas dos meus pecados, para não fazeres o que ando pedindo, faze neles, Deus meu, a Tua vontade, pois é o que eu mais quero: exerce neles a Tua bondade e misericórdia, e serás neles conhecido. E, se esperas por obras minhas, para, por meio delas, me concederes o que te rogo, dá-mas Tu, e opera-as Tu por mim, e venham também as penas que quiseres aceitar, e faça-se. Mas se pelas minhas obras não esperas, por que esperas, clementíssimo Senhor meu? Por que tardas? Porque, se, enfim, há de ser graça e misericórdia o que em teu Filho te peço, toma os meus parcos haveres, pois os queres, e dá-me este bem, pois que Tu também o queres.

Quem se poderá libertar de seu baixo modo de agir e de sua condição imperfeita, se não o levantas Tu a ti em pureza de amor, Deus meu?

Como se elevará a ti o homem gerado e criado em baixezas, se Tu o não levantares, Senhor, com a mão com que o fizeste?

Não me tirarás, Deus meu, o que uma vez me deste em Teu único Filho, Jesus Cristo, em quem me deste tudo quanto quero; por isso folgarei, pois não tardarás, se eu confiar.

Por que tardas em esperar, ó minha alma, se desde já podes amar a Deus em teu coração?

O céu é meu e minha a terra, meus são os homens, os justos são meus e meus os pecadores. Os anjos são meus, e a Mãe de Deus e todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim. Que pedes pois e buscas, ó minha alma? Tudo isto é teu e tudo para ti.

Não te rebaixes nem atentes nas migalhas caídas da mesa de teu Pai. Sai para fora de ti e gloria-te da tua glória, esconde-te nela e goza, e alcançarás as petições do teu coração.


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