Formação

Frei Patrício: Ninguém conhece os caminhos de Deus

O mistério é belo e fascinante. Seja o mistério da natureza, seja o mistério humano, ou o mistério divino. Crer no mistério é viver a aventura da vida, é deixar-se conduzir e guiar não pelo destino cego, mas, sim, pelo Deus amoroso e providente.

Devemos nos convencer de que ninguém conhece nem a Deus e nem os Seus caminhos. Mas, na Sua bondade infinita, o Senhor não quer nos preocupar inutilmente, então, nos revela dia após dia a sua Vontade, nos chamando, assim, a viver no Seu amor.

A grande contemplativa e mística Edith Stein diz “sabemos que Deus nos conduz, mas não sabemos para onde, mas Ele nos conduz”. Estas palavras sábias me têm ajudado muito nos caminhos da minha vida. É claro que antes dela os profetas falaram isto, e também o próprio Jesus, quando nos diz “a cada dia é suficiente a própria preocupação” (Mt 6,34). Hoje, vivemos em um mundo humano que pensa saber tudo, conhecer tudo e que quer, no seu orgulho, desafiar, como os construtores da Torre de Babel (cf. Gn 11,1-9), o próprio Deus. O maior orgulho é gritar contra o Senhor e dizer-Lhe: “eu sei tudo: conheço o meu passado, domino meu presente e conheço o meu amanhã.”

Descortinar o Mistério

O mistério é belo e fascinante. Seja o mistério da natureza, seja o mistério humano, ou o mistério divino. Crer no mistério é viver a aventura da vida, é deixar-se conduzir e guiar não pelo destino cego, mas, sim, pelo Deus amoroso e providente.

 O pecado maior dos tempos modernos – e, creio que o será ainda mais no futuro – é o do ser humano brincar de Deus, fazer nascer quem quer e fazer viver quem quer. É necessário saber que a vida não pode ser manipulada, nem dada e nem tirada, pois é dom de Deus e apenas Ele tem o direito de dar e tomar a vida, quando quer e como quer.

Este meu raciocínio pode parecer contrário à ciência e ao avanço da tecnologia. Porém não é nada disso, pois fé e razão não são inimigas. Elas são duas irmãs que devem caminhar juntas e lutar para conquistar e revelar a verdade. Elas têm, entretanto, uma diferença substancial: para a fé não há limites, e para a ciência, sim, uma vez que os ultrapassando, se se encontra em um beco sem saída.

Quem dá o direito ao ser humano de decidir quem deve viver ou morrer? Quem dá a ele o direito de definir os tempos do fim do mundo? De criar racismo, que é insuportável à inteligência humana? Como ele pode sentir-se feliz destruindo os outros e criando uma pobreza desumana para viver na riqueza? Deixemo-nos guiar pela Palavra do Senhor que é luz, paz, amor e justiça. Ele nos criou livres, mas quem usa mal a sua liberdade ofende a mesma dignidade de Deus Amor.

Pode ser que algum dos meus leitores torça o nariz com o que vou dizer – mas paciência: nós não vivemos o meio-dia, mas sim a noite da ciência. Estamos em um caminho de regressão mística e espiritual em que queremos substituir a Deus e dominar o mundo com o nosso orgulho. É um caminho terrível que leva não à vida, mas à morte.

Somos salvos pela sabedoria

Perdoem-me se ainda uma vez cito Santa Edith Stein, filósofa que chegou com tranquilidade a conhecer a verdade por meio da leitura de uma grande mística, Teresa de Ávila, uma buscadora incansável de Deus Amor. Ela diz “não será a fenomenologia a salvar o mundo, mas sim a Paixão do Senhor Jesus”. Esta é a síntese do que diz o livro da Sabedoria deste domingo. Devemos ler este capítulo nove e, se não somos preguiçosos, ler também o capítulo dez. Assim, descobriremos grandes coisas. Abandonar-se nas mãos de Deus é viver a grande aventura da fé: “sair em uma noite escura”, mas iluminada pela luz da fé, que ilumina não com sua luz, mas com sua obscuridade, que é sabedoria e amor.

Faço uma confissão: eu gosto muito quando não entendo alguma coisa de fé, ou alguma realidade humana. Eu me ajoelho e rezo assim: “Senhor, eu não entendo nem por que nem como, mas sei e tenho a certeza de que tu desejas o meu bem, então ainda que não entenda, digo sim e vou em frente. Toma-me pela mão, para que eu não faça esteiras”. Com a oração, a paz volta a reinar no meu coração.

A sabedoria do velho Paulo

Paulo, já velho, não fala mais com a autoridade humana, mas com a autoridade da sabedoria, em favor do amigo Onésimo, que era escravo e agora é livre e tem medo de voltar ao seu antigo patrão, Filêmon, que é também cristão. Esse bilhetinho de saudações é um tratado de teologia e de antropologia da misericórdia humana e divina. Quem é cristão não pode nunca permitir-se o luxo de dominar os irmãos na fé e nem os que não vivem a mesma fé. A fraternidade rompe qualquer barreira e muros de divisões.

O Papa Francisco quer e nos convida a romper todos os muros de separação, de elitismo, de orgulho, e nos convida também a dar-nos aos outros, para construir pontes de fraternidade e de amor. Não devemos usar nunca a nossa autoridade jurídica, mas sempre a nossa autoridade moral, de anunciadores do Evangelho.

As exigências para seguir Jesus

Posso dizer que estou chegando a um ponto da minha vida em que o único livro que tem possibilidade de mudar o meu pensamento é o Evangelho. Os outros livros são gotas de água que caem em mim e não me molham muito. É belo ler o Evangelho derramado sem a preocupação de saber qual palavra Jesus pronunciou e nem que sentido ela tinha nos seus tempos. Creio que os tradutores da Bíblia são honestos, e por eu não saber, não posso me permitir ler a Palavra nem em hebraico, nem aramaico, nem em grego nem em latim, mas somente e mal em italiano e em português. E isto me basta.

Este trecho do Evangelho de hoje é fenomenal. Jesus nos diz três coisas. A primeira delas é que se queremos segui-Lo, devemos abandonar todos os afetos e ter um único amor, a Ele, e segui-Lo sempre e sem choramingar o passado. É duro, mas é também fonte de consolação e de paz interior. A segunda é que, antes de dizer sim, parar e analisar as nossas possibilidades, para não começar um caminho e depois, com o rosto vermelho de vergonha, voltar atrás. Logo, é preciso pensar, discernir bem e decidir, para assim, sermos fiéis. E a terceira coisa é que devemos renunciar a tudo. Esta palavra, tudo, não é minha, mas de Jesus. Não devem ser renúncias dietéticas ou apenas por um tempinho, para depois voltar ao que era. Decisões assim não combinam com o amor. É o para sempre e o tudo que nos dão medo, mas, com Cristo, o medo já era.

Vamos meditar a alegria de seguir Jesus na aventura do Seu amor, sem fazer contas nem contabilidade, porque o amor rende quando é no banco do amor.

Escola de oração

Deus é coerente, nada que existe O nega, mas, na sua beleza, O mostra para todos nós. O homem não nasceu para o que passa, mas por meio disto alcança o que não passa. Por isso, não recusando o que há de científico ou o que há de mais concreto, temos de reconhecer que tudo vem de Deus, tudo que é bom vem Dele. A ciência não se opõe a fé, mas a testifica. A fé, por sua vez, lhe dá sentido, assim como tudo que está em Deus. “O gnosticismo supõe ‘uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos.’” (Gaudete et Exsultate, 36).


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *