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Frei Patrício: O cristão é cidadão do mundo

É urgente redescobrir a alegria de receber peregrinos desconhecidos, Deus se faz presente nessas pessoas que nos visitam, devemos saber e ter consciência disto.

Todos somos peregrinos, nômades, e em um dia ou em outro temos necessidade de que alguém nos abra a porta da casa ou do coração para nos receber, nos acolher, para que possamos descansar e encontrar um lugar de repouso.

A teologia da hospitalidade sempre foi considerada sagrada não somente na Bíblia, mas sim em todas as religiões. Basta ler um pouco a literatura religiosa de todos os povos e nos convenceremos com facilidade. Mesmo hoje, em que somos saturados pela autossuficiência e pelo dinheiro, pensamos em comprar tudo ou quase tudo de que precisamos nas nossas viagens, perto ou longe do lugar em que passaremos a noite, por exemplo.

É verdade que a autossuficiência e o que chamamos de privacidade nos torna orgulhosos e, no lugar de pedirmos hospitalidade a um amigo ou parente, marcamos, com muito tempo de antecedência, via Internet, hotéis de 1 a 5 estrelas. Mas convenhamos que não é a mesma coisa ser recebido em uma casa amiga com um abraço e o ser por uma pessoa desconhecida, que, de paletó e gravata, nos recebe como estranhos, que nos faz muitas perguntas e olha com uma certa desconfiança.

É urgente redescobrir a alegria de receber peregrinos desconhecidos, mas cheios de fé, que partem dos piores lugares e terras para visitar lugares santos e não a fim de turismo. Aliás, me perdoem os meus leitores, mas turismo é coisa de rico e não de pobre. Pobre quando viaja não é para ver e conhecer, mas sim porque tem necessidades.

Hoje em dia, há muita gente que pede um pedaço de pão, una morada por uma noite, ou um copo de leite ou de água por estar cansado e faminto. Há novos peregrinos que devemos saber acolher no espírito do Evangelho de Mateus, capítulo 25, que são a imagem de Jesus: feridos e necessitados. Penso, por exemplo, nos migrantes, que,   empurrados pelo desemprego, pela fome, pela miséria, abandonam, com lágrimas nos olhos, a própria terra, a família, e se aventuram por outros países, de que nada sabem, em busca de trabalho e de pão e de um mísero salário para enviar uma parte à família distante.

Penso nos que fogem com toda a família, porque ameaçados da guerra, das perseguições civis e religiosas. Que para serem fiéis a si mesmos e a Deus deixam tudo para trás e partem aventurando-se para outros lugares, colocando em risco a própria vida. Penso nos prófugos, nos migrantes que enfrentam, pagando caro, o mar bravio e os homens violentos, para buscar um pedaço de terra e poder tentar uma vida nova, e, que ao chegar, se veem considerados como usurpadores da felicidade dos outros.

Vida de peregrinos é dura, é triste, logo, é necessário que abramos o coração e os acolhamos com amor e ternura. Não temos, aqui na terra, morada permanente. A minha teoria é de que Deus não dividiu a terra em países e bandeiras, nem a terra prometida ao povo de Israel, já que deu uma regra de comportamento de receber bem o estrangeiro, o órfão, a viúva e o pobre.

E nós? Como recebemos os desconhecidos que batem à nossa porta? Com amor ou telefonando para a polícia?

A escola de Abraão acolhendo hóspedes

Pessoalmente não me canso de voltar tantas vezes a ler e meditar esse texto delicioso do Gênesis. Logo entro em um clima contemplativo de ação de graças e de louvor a Deus pela delicadeza com que Abraão, no meio do dia quente, está descansando, mas, quando os seus olhos veem chegar os três hóspedes, desperta e toma atitudes de amor, de acolhida. Quem são estes três hóspedes que, às vezes, são um só? Sabemos com os padres da Igreja, os místicos, que veem sempre mais longe e que dão uma belíssima leitura que eles são as três divinas Pessoas da Santíssima Trindade que visitam a tenda do amigo Abraão.

Deus se faz presente nas pessoas que nos visitam, devemos saber e ter consciência disto. Por isso, há todo um ritual para receber quem vem de longe cansado: deve sentir-se em casa, ser bem recebido, com todo o conforto, com água para lavar os pés, óleo perfumado para a pele ressequida e boa comida. Deus recompensa abundantemente quem O recebe nos desconhecidos. Mas no amor de Deus há por acaso desconhecidos?  Não há: todos somos irmãos e conhecidos. Os hóspedes fazem milagres e Abraão como recompensa terá um filho: o filho da promessa.

O cristão cidadão do mundo

Para quem crê em Cristo, não há lugar fixo e permanente. É viajante do Espírito Santo e vai aonde o Espírito o envia e vai com alegria. Paulo, apóstolo, percebe que sua missão é anunciar Jesus a todos os povos. É belo contemplar a vida deste enviado de Deus, que vai sem medo e sempre é bem ou mal recebido, mas, seja qual for a acolhida, nunca desanima, porque sabe que sempre seu “sim” vai fazer brotar sementes em alguém que tem o coração aberto para colher a Palavra do Senhor.

Maravilhosas são as últimas palavras desta leitura “Nós o anunciamos, admoestando a todos e ensinando a todos, com toda sabedoria, para a todos tornar perfeitos em sua união com Cristo”. Por que termos medo dos outros? O cristão curado do mundo não tem medo de ninguém e sabe que, através do amor, mesmo os que não creem em Jesus o acolhem e recebem; e se não é recebido, Ele sempre recebe. Quem ama a Jesus não pode recusar ninguém na Sua vida.

Como Lázaro, Marta e Maria recebem os hóspedes

Lucas nos contando o encontro de Jesus na casa de Lázaro e de como é recebido nos dá uma maravilhosa lição de como se deve receber as pessoas. É preciso não dar demasiada importância às coisas exteriores, como Marta, mas dar mais importância ao diálogo, à escuta, ao hóspede, como fez Maria.

Teresa d’Ávila, sempre atenta a este Evangelho, nos recorda que não pode existir conflito entre trabalho e atenção a Jesus, entre oração e vida de missão, mas, na verdade, deve existir harmonia e amor, e, por isso, diz que em cada um de nós deve haver uma Marta e uma Maria, como irmãs unidas.

No mundo de hoje, queremos fazer bela figura e, por isso, às vezes, deixamos os hóspedes sozinhos e corremos para cá e para lá, para preparar comida e tantas outras coisas ao mesmo tempo necessárias e desnecessárias. O hóspede, se é bom amigo, não vem para comer, mas para estar conosco, para nos visitar, e o hóspede Jesus não vem para que Lhe demos coisas, mas para ser amado e nos amar.

Escola de oração

“No capítulo 25 do Evangelho de Mateus (vv. 31-46), Jesus volta a deter-se numa destas bem-aventuranças: a que declara felizes os misericordiosos. Se andamos à procura da santidade que agrada a Deus, neste texto encontramos precisamente uma regra de comportamento com base na qual seremos julgados: ‘Tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me, estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo’ (25, 35-36).” (Gaudete et Exsultate, 95). Hospedar, receber em nossa casa, bem como escutar quem precisa e alimentar quem sente fome são atos de misericórdia. Francisco nos convida a misericordiar, porque em cada irmão encontramos a Cristo, que nos amou primeiro.


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