Formação

Frei Patrício: O mal se vence com a força de Deus e da oração

Vivemos em um momento difícil, mas uma coisa é certa: os que tem fé não lutam com armas humanas, são pessoas pacificas, cheias de amor e de paz, que vão lutar contra todos os amalecitas de todos os tempos com a força da oração.

Os amalecitas são vencidos com a oração

Quem são os amalecitas? São um povo que aparece muitas vezes na Bíblia, e sempre com uma atitude hostil contra o povo de Israel; são inimigos fortes e corajosos, que tentam derrotar o povo de Deus. São nômades, portanto, conhecem muito bem o deserto, e sabem como atacar pelas costas o povo que tenta, com esforço, conservar-se fiel à Palavra de Deus e chegar à terra prometida. No final, porém, não será a força do povo de Israel, a força das armas, a derrotar os amalecitas, mas, sim, a força de Deus e da oração.

Coloquei este título sobre a minha breve reflexão, porque me parece que os que são fiéis a Deus ao longo dos tempos se veem obrigados a lutar contra inimigos de todos os lados. Hoje, não temos mais inimigos que combatem a política dos cristãos, e nem a religião, embora exista uma luta forte contra os que querem manifestar a própria fé. A honestidade, que nasce das próprias convicções religiosas, é inimiga dos desonestos e das pessoas que, como dizia minha mãe Domenica, preferem pescar nas águas turvas da vida. O diabo foge sempre da limpidez de vida.

Quem são os amalecitas de hoje?

São todos os que lutam contra a cultura da vida, do diálogo, contra a cultura da acolhida dos que fogem da guerra, da fome e da morte. Os amalecitas de hoje são os traficantes de drogas que matam a vida humana, intelectual e psicológica. Também são aqueles que defendem a morte e não a vida em todas as etapas da existência humana. São os que exploram o trabalho, criando novas formas sutis de escravidão, em nome de um progresso individual e coletivo. Os amalecitas são ainda os que se apropriam da riqueza que pertence a todos e não somente a poucos. Enfim, os amalecitas de todos os tempos são os que se fecham no egoísmo e vivem absorvendo a vida dos pobres.

Vivemos em um momento difícil, mas uma coisa é certa: os que tem fé não lutam com armas humanas, são pessoas pacificas, cheias de amor e de paz, que vão lutar contra todos os amalecitas de todos os tempos com a força da oração. Os amalecitas não são vencidos com bombas nem com tratados de violência, podemos vencê-los apenas com a força de Deus.       

A figura do pequeno Davi, que com uma pedrinha do rio abate o gigante Golias, é sempre sinal de que a força de Deus não está nos exércitos nem nos meios técnicos, mas na proteção do Senhor. Estou pessoalmente convencido de que vai chegar o dia em que os amalecitas serão todos vencidos por um pequeno grupo de Israel, que com muitos calos nos joelhos saberá como vencer todos os ataques do mal.

Os místicos, os orantes, os contemplativos continuam a ser o coração da Igreja. Eles ficam noites e dias com as mãos levantadas assim como Moisés, no cume do monte. O povo vence os amalecitas somente se no alto do monte alguém continua a rezar.

Moisés permaneceu no monte rezando

Quando quero refletir sobre os meus fracassos apostólicos e procurar os porquês de não ter conseguido anunciar a palavra de Deus com eficácia, medito esta página do livro do Êxodo e descubro a razão. É a falta de oração. A Palavra de Deus deve ser escutada, rezada, vivida e anunciada.

Muitas vezes, confiamos em nós mesmos. Mas o povo crê na oração do padre, dos missionários, dos consagrados. Diversas vezes me pedem, dizendo: “Abuna, reze por mim”. Eu não falo árabe. Pois bem, aqui no Egito, as pessoas às vezes dizem: “quero uma bênção do padre com a barba branca”. Somos dois a ter a barba branca. Vai, então, aquele que fala árabe e o povo diz: “não. Queremos a bênção daquele que não fala árabe” e lá vou eu.

Precisamos recuperar o valor da oração como força missionária para vencer os perigos que encontramos na vida, seja no plano pessoal, comunitário ou eclesial. O Papa Francisco com o seu documento Gaudete et Exsultate nos convida a fazer da oração o centro da nossa vida, a força da missão. Como é belo escutá-lo no fim de todos os seus discursos dizer: “rezai por mim”. Nestes dias, me enviaram uma carta que escrevi a uma pessoa em 1969, na qual, da mesma maneira, terminava dizendo “reze por mim”. Isso é algo que peço sempre.

A bíblia é nosso livro de oração

Nestes domingos, estamos lendo a segunda carta do apóstolo Paulo ao seu filho, discípulo amado, Timóteo. Sabemos que este era muito jovem, um pouco instável, cheio de entusiasmo e pobre de convicções, desanimando, dessa forma, com facilidade. Paulo o animava, fazendo-lhe compreender que ele é servo da Palavra de Deus, que é a verdade e a vida e que serve para todas as circunstâncias, seja para aconselhar, seja para corrigir, “a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,17).

Não podemos ter medo de anunciar a Palavra de Deus mesmo nos sofrimentos, pois devemos ser sempre fiéis ao Senhor e não nos preocuparmos com o que os outros podem dizer.

Somente os pobres rezam

Uma coisa é certa, os orgulhosos não rezam porque pensam serem deuses e não ter necessidade de ninguém. São de fato terríveis o orgulho e a soberba. No texto do Evangelho de hoje, temos o exemplo da viúva que quer justiça, vencendo a resistência do advogado não através de discursos de leis, de teologia ou filosofia, mas pela sua insistência. Assim, Deus se vence – como diria Teresa do Menino Jesus e tantos outros santos – com a insistência do nosso amor e pedido. Nunca devemos desanimar na oração, pois chegará o dia em que Deus nos dará – na hora oportuna – o que pedimos, da maneira que seja conveniente para nós.

Deus é pai e mãe, de tal forma que nos dá o que é bom e não o que para nós parece bom. Semelhante a quando uma criança pede, chora, bate os pés, porque quer uma faca e a sua mãe, por sua vez, o deixa chorar, mas não lhe dá a faca até que ele saiba usá-la sem se ferir. Assim faz Deus conosco. A vontade de Deus não é satisfazer os nossos caprichos, mas nos levar à santificação.

Escola de Oração

“Sê homem de Deus, que anuncia Deus (cf. Carta ap. Maximum illud): este mandato toca-nos de perto. Eu sou sempre uma missão; tu és sempre uma missão; cada batizada e batizado é uma missão. Quem ama, põe-se em movimento, sente-se impelido para fora de si mesmo: é atraído e atrai; dá-se ao outro e tece relações que geram vida. Para o amor de Deus, ninguém é inútil nem insignificante. Cada um de nós é uma missão no mundo, porque fruto do amor de Deus.” (Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões 2019).


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