Formação

Frei Patrício: O medo não pode existir no coração de quem tem fé

Para Jesus, o amor é não ter medo de nada e de ninguém, é proclamar e viver o grande anúncio.

Ontem celebramos uma festa muito querida ao coração do povo e da Vida Consagrada: a apresentação de Jesus no Templo por parte de Maria e José, o dia da luz. A luz que é Jesus se vai espalhando pelo mundo inteiro e Maria é o grande candelabro que sustenta e oferece esta luz à humanidade. A vida consagrada celebra a oferta da própria vida como dom recebido e doado. Sempre o consagrado é teofania, imagem viva de Jesus no meio do povo. Mas os consagrados são santos pobres, obedientes, castos, profetas, e mais, o Evangelho é uma força para todos. Não podemos e nem devemos esquecer que somos chamados a ir ao Templo para fazer não mais a oferta de coisas materiais, mas sim de vida.

No Templo, sempre encontramos alguém que nos espera, o velho Simeão e a profetisa Ana, que nos acolhem e nos falam dos tempos novos. Todas as noites, a Igreja nos convida, antes de ir dormir, a rezar o cântico de Simeão (“Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meus olhos viram a tua salvação…” – Cântico rezado durante a oração das Completas), que não é um cântico de quem espera a morte, mas de quem espera a vida em plenitude.

Ao mesmo tempo, Simeão apresenta a profecia da dor que salva e da paixão que abre novos caminhos e nova vida. A festa das velas, como também é chamada, anuncia a mesma Paixão e Ressurreição. Sem os olhos fixos num futuro melhor e de esperança, nós perdemos de vista a beleza do nosso futuro, que não pode nunca ser um futuro de pessimismo, mas sempre de alegria, de vida em plenitude e de amor.

A liturgia deste domingo também nos chama a ter a coragem de olhar as dificuldades nos olhos e não ter medo. O medo nunca é bom para a vida. É normal que diante da cruz, do desconhecido, surja o medo, mas este deve ser logo superado com um ato de fé no Senhor, que vai conduzindo a nossa história pessoal e comunitária. Vamos caminhando, construindo, pedaço por pedaço, o nosso dia. Deus é o arquiteto, o engenheiro, nós somos pedreiros, e como tal, seguimos o desígnio que nos é colocado nas mãos. Com fidelidade, a casa será bem construída e nenhuma tempestade nem terremoto poderá destruí-la. O povo de Deus sempre avança na noite, mas a luz de Deus guia-o até o fim. O medo não pode existir no coração de quem tem fé.

Farão guerra, mas não te vencerão, porque eu estarei contigo

O profeta Jeremias na sua existência sofreu bastante. Foi incompreendido, perseguido, caluniado, colocado na cadeia, mas nunca se afastou de Deus. Tinha a convicção de que Deus lhe tinha confiado uma missão, a de conscientizar o povo do rei para que se convertesse. Insiste na conversão através de dois caminhos muito importantes: a palavra e a simbologia dos gestos.

O texto de hoje pode ser que seja um dos mais conhecidos de toda a Escritura. Ele nos manifesta a misericórdia e a ternura de Deus, que nos escolhe por puro amor, aliás, com um amor eterno. Somos escolhidos por Deus antes do tempo, amados antes que fomos formados no seio materno, fomos conhecidos amados e consagrados para uma missão.

Sempre que leio esse texto confesso que me comovo e me pergunto o que Deus encontrou em mim de tão importante para me escolher, me consagrar e me dar uma missão que não é fácil escolher uma vez para sempre. Jeremias se sente profeta no meio do povo como luz, como sentinela que deve viajar e chamar atenção para que o povo não se afaste do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, ele tem medo, e Deus lhe infunde coragem. Quem confia em Deus vai ser rejeitado, mas não vencido.

O coração do cristianismo é o amor

O cântico da caridade de Paulo apóstolo é escrito num momento de profunda contemplação e de profundo sofrimento em constatar que a comunidade de Coríntios tem tudo: riqueza, inteligência, pregadores excelentes, teólogos, mas não tem o amor. Tem divisões, tem concorrência, tem competitividade, brigas, busca de poder…

E quando falta o amor que vem de Deus e que nos faz irmãos entre nós no perdão, na caridade e na esperança, a que servem os carismas chamativos? Curas, milagres, visões, interpretações dos corações? Não servem a nada. Devemos voltar no dia e meditar, ou melhor, rezar esta grande oração de Paulo especificamente o versículo 7: o amor suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo, e o versículo 13 que diz que a virtude maior é amor, aqui e na eternidade. Compreender e viver isso é santidade.

A profecia do amor

Jesus não é o profeta da Lei, é o profeta do amor. Não importa que seja incompreendido, rejeitado, condenado e crucificado, Ele continua a ser sempre o profeta do Amor. Mas, que o é amor para Jesus? É dar a vida até a última gota de sangue e não parar de falar a todos que não devemos julgar nem condenar, que devemos acolher os pecadores, que ele veio para servir e não para ser servido… Para Jesus, o profetismo do amor é lavar os pés não só dos discípulos, mas de todos, é ir na casa dos pecadores e das prostitutas, é dialogar com a samaritana, é receber de noite Nicodemos que tem medo de ser visto e julgado, é deixar a pecadora lavar-lhe os pés com suas lágrimas e beijar-lhe os pés. Para Jesus, a profecia do amor vai sempre ao encontro dos últimos.

Para Jesus, o amor é não ter medo de nada e de ninguém, é proclamar e viver o grande anúncio. Não são os justos que necessitam de salvação, mas os pecadores. Não são os sãos que necessitam de médicos, mas os doentes… o amor não pode jamais desaparecer, porque é vida, é primavera, é santidade, o desamor é egoísmo, inverno, é morte. É compreensível que os que não amam e não sabem o que é amor se revoltem contra Jesus, que faz referência a Elias, que foi enviado a uma viúva fora do povo eleito, e faz referência a Eliseu que curou o leproso, Naamã, pagão, e deixou leprosos muitos que eram judeus… O amor não faz distinção de pessoas, de raça, de cor, de religião… Ama e basta.

Escola de oração

Diz-nos Papa Francisco que “a santidade é o rosto mais belo da Igreja. Mas, mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes, o Espírito suscita ‘sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo’”. (Gaudete et Exsultate, 9). Rezemos com esta reflexão.


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