Formação

Frei Patrício: Olhar para o céu sem se esquecer da terra

Como é belo o encontro com Jesus, olhando para o céu e depois voltar ao dia a dia, trabalhando e construindo o Reino.

Uma das festas que mais amo é a Ascensão ao céu de Jesus, que, depois da Ressurreição, quis ficar ainda 40 dias conosco para nos consolar, nos dar os últimos conselhos e ensinamentos, para sermos no meio dos irmãos sinais vivos de que a Sua passagem entre nós não foi inútil. São 40 dias não de jejuns e de penitência, mas de alegria pascal e amor, em que os discípulos tentaram gravar no próprio coração ainda mais todas as palavras e gestos do Mestre.

A força da memória

Vivemos em um momento em que a era da digitalização não dá muita importância à força da memória. Hoje tudo se conserva em e-mails, em dossiês, em bibliotecas virtuais que viajam pelo espaço e que mediante um toque se fazem presentes nos nossos computadores. Sem dúvida uma coisa útil, bela, fascinante, mas que não chega nem aos pés da memória que Deus nos deu através da qual revivemos emoções, sofrimentos, alegrias e esperanças. O nosso coração e o nosso cérebro são dotados da memória que canta as maravilhas de Deus e chora os próprios pecados, o que nunca um computador poderá fazer, por mais perfeito que possa ser.

Olhos fixos no céu

Celebrar a Ascensão de Jesus ao céu é ficar com os olhos fixos no céu, para onde Ele volta para estar para sempre com o Pai e o Espírito Santo, mas sem esquecer a terra. Do alto do Seu trono glorioso não domina como um sublime faraó a terra, mas a olha com ternura e bondade, para derramar sobre ela e sobre a humanidade a plenitude de Sua graça e de Seu amor.

Viver a Ascensão é percorrer novamente todo o caminho que Jesus fez: o primeiro caminho, descendo do seio da eternidade até a terra; não para um giro turístico ou uma visita rápida, para logo em seguida voltar para o céu, mas permanecendo conosco, fazendo a Sua morada entre nós, habitando conosco revestido da nossa fragilidade, e assumindo nossos sofrimentos, experimentando fome, sede, cansaço, dor; compreendendo quem somos nós e, depois, passando através da porta estreita da Paixão e da morte, viver para sempre.

Necessitamos contemplar Jesus na Sua plenitude e na Sua doação. Não ensinar a produzir dinheiro e nem a ser dirigentes de empresas, mas a ser servidores uns dos outros, pois a obra nos chama, sem reserva, a partilhar com os mais pobres o que temos e somos.

Amar o céu 

O amor transformador da graça é uma verdadeira ascensão com um olhar sublimado das coisas da terra às coisas do céu. Amar a Ascensão não é desprezar a terra, mas amar o céu para onde caminhamos. A terra onde caminhamos neste momento particular da nossa vida é, na verdade, a construção aqui e agora de uma verdadeira e autêntica antecipação do que será o paraíso, onde a vida não terá mais fim. A Igreja, a comunidade, a pessoa humana são realidade em Ascensão, a caminho, vencendo os obstáculos, acolhendo a cruz que nos abre a porta para realidades novas.

Olhemos para o céu, para a pátria definitiva

Peço perdão pelas muitas vezes que meus irmãos evangelizadores e eu – não todos – falam sem se respaldar, mas, por sua vez, a partir de coisas que ouviram dizer. Isto é ruim e faz mal. Lucas é claro na sua descrição do momento em que o Senhor convocou todos para a despedida de Jesus. É normal que os presentes tenham ficado olhando para Jesus que subia ao céu, mas os anjos se encarregaram de despertá-los deste sono místico e chamá-los à realidade, a voltar ao cotidiano. Como é belo o encontro com Jesus, olhando para o céu e depois voltar ao dia a dia, trabalhando e construindo o Reino.

Um gesto de adoração

É belíssima a conclusão do Evangelho de Lucas: em um envio solene, Jesus levou os discípulos para fora, para perto de Betânia, ergueu as mãos, os abençoou e subiu ao céu. Uma liturgia solene, cheia de saudade, de amor e de paz. E, diante deste subir para o céu, o evangelista faz questão de nos dizer que todos se prostraram e O adoraram. É o primeiro gesto de adoração que o Evangelho menciona diante deste sublime milagre. Porém a adoração não pode durar para sempre, é necessário voltar para Jerusalém, quer dizer, para a própria missão, para continuar aquela que 
o mesmo Jesus tinha começado e terminado em Jerusalém, Cidade Santa.

Jerusalém e o Templo são os lugares onde sempre podemos e devemos buscar o Senhor. Hoje nós O buscamos na Nova Jerusalém, que é a Igreja santa e pecadora, mas que não silencia diante do pecado e que não fica debaixo do peso dele; mas que se ergue e continua o seu caminho corajoso pelas estradas do mundo. Jesus sobe ao céu, nos pesca no céu, e nos deixa aqui na terra, para continuar a Sua missão e é nossa a missão de anunciar e de testemunhar até o fim do mundo o amor que não tem fim.

Escola de oração

Sabemos, então, que o céu começa na terra. Logo “Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço. Tudo pode ser recebido e integrado como parte da própria vida neste mundo, entrando a fazer parte do caminho de santificação. Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão. ” (Gaudete et Exsultate, 26)

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