Formação

Frei Patrício: Quem perdoa é forte e corajoso

O perdão é uma graça de Deus, um dom que vem do Alto. É preciso, antes de mais nada, fazermos a experiência do perdão de Deus no sacramento da confissão, porque Deus não repreende o pecador, mas o perdão o abraça no amor e só lhe diz “Vai em paz e não peques mais”.

Não sei por que, mas, ao longo da minha vida, não tenho mais encontrado dificuldades em perdoar. Dizia-me uma vez um confessor meu que esta é uma graça de Deus, mas eu respondi que pode ser que isso seja dureza do meu coração.

Para mim, perdoar é normal e creio que deveria ser assim, visto que todos erramos, e o perdão é só recomeçar o caminho com todos, sem raiva no coração, e sem sentirmo-nos feridos por coisas que não têm valor. Seja qual for a ofensa, eu posso fazer com os outros que me provocam o mesmo que fez Jesus do alto da Cruz, dizendo: “perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

Hoje, vivemos em um mundo no qual parece que somos incapazes de caminhar juntos, lutando para defender o que chamamos de os nossos interesses e direitos. Porém, diante de Deus, somos todos pecadores e temos necessidade de misericórdia. Não quer dizer que quando recebemos uma bofetada na cara ou um pontapé com o sapato da ingratidão, que não doa e que seja carícia. Nada disso. Sofremos e muito, mas isso não é motivo para permanecer de cara fechada ou recusar viver juntos, cooperar e nos amar em Cristo Jesus.

O perdão é uma graça de Deus, um dom que vem do Alto. É preciso, antes de mais nada, fazermos a experiência do perdão de Deus no sacramento da confissão, sair leve das nossas confissões, porque Deus não repreende o pecador, mas o perdão o abraça no amor e só lhe diz “Vai em paz e não peques mais”. É esta a pedagogia de Jesus ao longo de todo o Evangelho.

Quando não perdoamos, nos ferimos, nos isolamos, e somos obrigados a fazer teatros, a fazer de conta que vamos bem, quando não é bem essa a verdade. É preciso ter coragem de manifestar o que pensamos, a alegria de discordar dos outros, e de não fingir que somos de pedra. No entanto, é necessário que depois de discutir e nos desentender, saibamos nos reconciliar e, olhando para Cristo Jesus, caminhar de cabeça erguida.

Quem perdoa é forte e corajoso. Quem não perdoa é frágil e sofredor, remoendo o tempo todo o seu passado, lambendo suas feridas. Ou seja, é um pobre infeliz. A pior coisa na vida é o desejo de vingança, que normalmente leva à calúnia, à mentira e à falta de respeito para com os outros.É o que penso. Se estiver errado, ajudem-me a ver certo e me corrijam. Pode ser que haja muitas pessoas que não gostariam de viver comigo, já eu não tenho ninguém com quem não gostaria de viver.

Deus perdoa. E aí?  Eu devo perdoar.

O povo é de Deus ou de Moisés?

Deus está triste com o povo, porque este se tem afastado Dele, tem construído um bezerro para adorar e tem destruído a aliança. O Senhor se queixa com Moisés, dizendo “veja o que tem feito ‘o teu povo’”. Moisés escuta e depois responde a Deus, dizendo: “por que te encolerizas, Senhor, contra ‘o Teu povo’”.  Mas, afinal, de quem é o povo: de Deus ou de Moisés?

É dos dois. O povo é de Deus, mas Ele o tem confiado a Moisés, portanto ele é responsável pelo erro do povo, porque não tem cuidado convenientemente do povo recebido, a fim de que fosse fiel ao Senhor. Moisés, na sua conversa com Deus, acaba por convencê-Lo a perdoar e a não abandonar o Seu povo. Deus sabe que o povo de Israel é cabeça dura, mas o ama mesmo assim. “Vejo que este é um povo de cabeça dura. Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação” (Ex 32,9-10).

O perdão do Senhor restabelece a aliança para sempre. A misericórdia será sempre maior que o nosso pecado, e, se Deus nos perdoa, também nós devemos perdoar sempre os que erram contra Ele e contra nós.

Reconheçamos que somos todos pecadores

Não é fácil aceitar que alguém nos jogue no rosto o nosso pecado. Isto nos faz mal, mas é um remédio salutar, pois se o médico quer curar os enfermos, deve dizer-lhe que estão doentes e a gravidade da doença.

Não deveríamos nos cansar de rezar, de meditar o Salmo 50, no qual o nosso irmão Davi narra a sua luta e choro do momento em que Natan lhe jogou na cara o seu pecado, sendo este um choro benéfico, como foi o de Pedro quando o seu olhar se encontrou com o olhar manso e misericordioso de Jesus.

O apóstolo Paulo, na sua carta a Timóteo, não faz teologia da misericórdia, mas somente diz que Jesus Cristo veio para salvar todos os pecadores, para nos perdoar para sempre. Paulo não tem vergonha de confessar diante da comunidade, diante dos seus discípulos, que ele mesmo foi um grande pecador, um blasfemador contra Jesus, um perseguidor, mas que Cristo se colocou no seu caminho e o salvou. Cristo veio ao mundo para salvar todos os pecadores e ele, Paulo, se considera o primeiro pecador. Esta é chave da Salvação.

Deus nos recebe sempre com festa

Há parábolas no Evangelho que lemos de vez em quando e que não falam forte ao nosso coração. Há outras também que não se leem. E há ainda aquelas como a dos dois irmãos ou do filho pródigo, que hoje preferimos chamar de parábola do pai misericordioso, que, por seu turno, nunca nos cansamos de ler, meditar e voltar a ela em todos os momentos difíceis, de tristeza, de pecado. Como, por exemplo, nos momentos em que nos sentimos rejeitados pelo nosso agir, não compreendidos e abandonados pelos falsos e interesseiros amigos, que se aproveitam da nossa ingenuidade ou estupidez, para nos dominar e depois nos deixar sozinhos.

Esta parábola é para infundir coragem a todos os desanimados, aos que não têm fé, e aos pecadores que sentem medo e vergonha dos próprios erros. Todos precisamos nos levantar e ir com confiança ao Pai do céu, pois seremos recebidos com amor, abraços e beijos.

Um conselho: todos os dias do ano, ler o capítulo 15 de Lucas, pois, com isso, a nossa maneira de viver vai mudar.

Escola de oração

Como o Senhor se alegra em nos ver amando os nossos irmãos! Que grande alegria é receber o perdão de um irmão, e mais ainda o perdão de Deus! Se nós, tal qual somos, temos todos os pecados perdoados por Aquele que é o único que pode nos julgar, por que queremos privar o nosso irmão dessa bênção e a nós mesmos do perdão do Senhor?

“Dar e perdoar é tentar reproduzir na nossa vida um pequeno reflexo da perfeição de Deus, que dá e perdoa superabundantemente. Por esta razão, no Evangelho de Lucas, já não encontramos ‘sede perfeitos’ (Mt 5,48), mas ‘sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado’ (6,36-38).” (Gaudete et Exsultate, 68)


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *