Formação

Homens e mulheres os criou…

Dom Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de São Paulo e Secretário Geral da CNBB

Em junho de 2004, o Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, enviou a todas as Conferências Episcopais uma carta “sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo”. O documento, que é público, aborda algumas concepções antropológicas questionáveis apresentando, depois, à luz da antropologia bíblica, a resposta da Igreja a tais problemáticas.

Acontece que a abordagem atual do tema da mulher manifesta, não raro, a tendência de apresentar a mulher como antagônica do homem; e a uma atitude de dominação machista se contrapõe a afirmação do “poder feminino”, como se a solução fosse, finalmente, a vitória de um sobre o outro. Ou então, para solucionar a tendência da dominação de um sobre o outro, propõe-se a minimização ou a eliminação da diferença sexual entre o homem e a mulher.
As conseqüências dessas atitudes são muito graves: Não apenas a base da família é abalada e perde sua razão de ser, mas também se introduz uma confusão preocupante sobre a própria identidade pessoal e sexual, que não deixa de ter suas conseqüências nos adolescentes e jovens, e mesmo nos adultos.

Certamente não se pretende reafirmar e propor ainda como válidos certos padrões culturais questionáveis, que afirmavam a supremacia do homem sobre a mulher, nem também se pretende revalidar comportamentos discriminatórios do homem em relação à mulher. Nem mesmo se quer afirmar que existam na sociedade, além das aptidões próprias da natureza, também atribuições e papéis sociais, que cabem somente a ele, e outros, unicamente a ela.
O estudo bíblico sério levou a compreender melhor a igual dignidade do homem e da mulher. Ao mesmo tempo ajudou a ver que a diferenciação dos sexos não é mero acessório biológico destinado a possibilitar a procriação, mas está inscrita, por desígnio do Criador, no âmago da identidade pessoal do ser humano. E se é assim, então tem um significado e uma finalidade, que devem ser reconhecidos e valorizados. Ignorar isso, não pode deixar de ter suas conseqüências negativas graves.

Homem e mulher não são “contrários” nem existem para se guerrear, até subjugar um ao outro. Nem foram feitos para estarem voltados, cada um, apenas para si mesmos. Sua existência pode realizar-se plenamente apenas numa atitude dialogal e na complementação recíproca. Sozinhos, cada um deles é incompleto. Existem para colaborar e para se ajudar. A diferença não deve ser fonte de discórdia, mas possibilidade dinâmica de colaboração; nem deve ser negada ou nivelada. A identidade sexual é uma dimensão essencial da pessoa e precisa ser levada totalmente a sério.

A sociedade humana precisa ter as marcas do masculino e do feminino e ficaria muito empobrecida sem elas. Valeria a pena refletir seriamente se algumas situações problemáticas da sociedade atual não decorrem, exatamente, da negação do papel da mulher na sociedade? A afirmação do individualismo, quase narcisista, carece da capacidade altruísta tão própria da mulher; a insensibilidade e o descaso crescente em relação à vida frágil e ameaçada não será fruto amargo da depreciação da maternidade? A violência que aparece por toda parte não será também devida à falta de ternura?

A rejeição ou negação da identidade acaba sempre gerando desorientações e tensões, deixando insatisfeitas e frustradas as pessoas. E a sociedade também. Vem à mente a palavra de Jesus: “No princípio não foi assim” (cf Mt 19,8). No desígnio do Criador, homem e mulher foram pensados para se ajudarem na realização da tarefa confiada a ambos e para encherem o mundo de alegria. E Deus viu que assim estava bom. Muito bom! (cf. Gn 1,31).

Fonte: Revista Shalom Maná


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