Institucional

Confira homilia completa de Dom Peruzzo no Shalom de Curitiba

jorge-e-dom-peruzzoO arcebispo de Curitiba, Dom José Antonio Peruzzo, presidiu missa no centro de evangelização da Comunidade Católica Shalom na capital paranaense neste domingo. Durante a celebração, o responsável local do Shalom em Curitiba, Jorge Wagner dos Santos Medeiros, fez sua profissão de votos perpétuos de pobreza, obediência e castidade, no Celibato pelo Reino dos Céus. Confira homilia completa de Dom Peruzzo:

“Caríssimo Jorge Wagner, dirijo-me a você mas aqui a Palavra é para todos nós. A pergunta dirigida a você foi esta: o que pedes a Deus e à Comunidade? E a resposta – não usa o verbo, mas na resposta ele está subentendido: ‘peço a misericórdia de Deus e a graça de ofertar a minha vida a Cristo e ao seu Reino’. Quero ofertá-la fazendo minha profissão de votos perpétuos de pobreza, obediência e castidade no Celibato pelo Reino dos Céus. Os estatutos da Comunidade Shalom são um meio e uma referência, mas decisiva é a sua relação pessoal com Deus. Vamos tentar interpretar tudo isso partindo do Evangelho e das leituras.

O que você pede a Deus e a Comunidade diz respeito a um povo, você quer viver seus compromissos nos quadros de uma Comunidade. Moisés conduziu um povo que estava a caminho, mas os percalços se impunham, no caso da leitura, os amalecitas que impediam que o povo fizesse sua travessia para o deserto, para chegar à Terra Prometida.

Alguns combatentes desceram para enfrentar a adversidade e o inimigo era a mentalidade da época, havia o que se sabia e se conseguia falar de Deus, um Deus forte, que fazia fortes os seus. Ainda não se conhecia a sua face misericordiosa, mas já era perceptível a força. Quando Moisés orava, os combatentes venciam. Os braços abertos eram um sinal exterior de uma atitude interior que ele tinha. Pesaram-lhe os braços, puseram pessoas para sustentá-los. Parece quase cômico, mas há uma inteligência de fundo muito interessante: uma Comunidade a sustentar os braços do orante para que o próprio povo experimentasse as vitórias de Deus. Também a Segunda Leitura é ilustrativa: ‘Proclama a Palavra várias vezes, que o teu falar seja o falar da Palavra, caríssimo Timóteo’.

Vamos um pouco mais para interpretar, vamos tomar os parâmetros bíblicos preparados. Um juiz iníquo, portador de autoridade, imbuído, sim, de vigores institucionais, mas frio. O Evangelho o qualifica de ‘iníquo’, da palavra ‘in’ ‘aequus’, que não tem igualdade, que não tem justiça, digamos assim, treinado em ser indiferente ante à necessidade do outro. Ele cedeu à insistência de uma pessoa que, para os padrões sociais da época, era um protótipo de desamparada: a viúva. Ela não tinha com quem contar, não podia trabalhar para se sustentar, não tinha filhos, só tinha a sua capacidade de ser perseverante. Se até alguém que não ama a justiça se cansa da perseverança de uma viúva, como seria Deus que é Pai, que ama a justiça e que tem encantos pelos seus? É uma espécie de parábola, de comparação por contraste.

Então, (dirige-se ao Jorge Wagner), no dia em que a Palavra e a celebração propõem esse ponto de partida, e o seu pedido é a graça de se tornar oferta a Deus, fazendo de sua vida uma entrega, observando votos, conselhos evangélicos, a pobreza… Muito parecido com a viúva, que não tinha outra possibilidade a não ser a perseverança e a capacidade de orar. Muito parecido: pobreza, obediência… Muito parecido com os discípulos, que foram educados a oferecer sua liberdade ao Senhor, a quem seguiam. Vez por outra vamos perceber os discípulos com dificuldade para compreender e aderir à Cruz, às vezes disputando até grandezas, tão bobos que eram. Mas também sua liberdade, quiseram eles oferecê-la ao seu Senhor. A castidade… Muito parecido com o modo do próprio Senhor amar; para amar a todos, fez dos seus afetos uma entrega a Deus.

Pois bem, o que fazer com todas essas ofertas e entregas de si mesmo, se não for para termos os braços abertos como Moisés, a perseverança da viúva e a capacidade a Timóteo exortada de ser palavra do próprio Senhor? Eu gostaria de enfatizar que não se trata de meras observâncias. Os observantes, os fariseus, muito bons observantes sempre criaram dificuldades ao Senhor.

O seu pedido foi ‘a misericórdia de Deus e a graça de ofertar a sua vida a Cristo e ao seu Reino’. Pedir a misericórdia não se trata de apenas pedir que Deus tenha compaixão, não é apenas esse o sentido de misericórdia, mas é deixar-se envolver por sua própria graça. Miser, miséria; cordis, coração. Miser cordis. É isso que nos basta, que a nossa entrega seja a linguagem amorosa do discípulo que faz de sua vida testemunho da Ressurreição de Jesus. Agora, concluindo: fazer da vida linguagem humana. E no seu caso, linguagem masculina da presença amorosa de Deus para todos. No caso das mulheres, linguagem feminina da presença amorosa de Deus, amor pelo Senhor partilhado com todos.

Sabe (dirige-se a Jorge Wagner), sua fidelidade será sinal dos carinhos de Deus por estes (olha para toda a assembleia). Seu tropeço pode obscurecer uma presença tão amorosa de Deus por estes. Somente isto: transfigurar Deus ou desfigurá-Lo. Que o Espírito Santo venha participar dos seus passos.

Se você se encontrasse com Moisés, ele te recordaria que mantinha os braços abertos. Se você se encontrasse com Timóteo, ele repetiria: ‘Paulo me ensinou a estar sempre ligado à Palavra de Deus’. E se em alguma esquina a viúva da parábola aparecer, ela vai te dizer para ser perseverante na oração. Ouça-os. Do restante, Deus cuida”.

Transcrição: Emanuele Sales

Mantido o tom coloquial


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