Formação

Nossas origens confirmam a Fidelidade de Deus

As Sagradas Escrituras estão repletas de orações e hinos que cantam os feitos amorosos do Senhor, as maravilhas de um Deus sempre fiel às suas promessas, os favores divinos concedidos a mulheres e homens fracos como nós. Moisés e os filhos de Israel, acompanhados da profetiza Míriam, proclamam a libertação da escravidão vivida pelo povo eleito no Egito (cf. Ex 15,1-21); Ana canta o fim de sua esterilidade (cf. 1Sam 2,1-10); Raquel confessa a misericórdia de Deus para com sua filha Sara (cf. Tb 8,15-17) e muitos outros reconhecem e professam a ternura e a benevolência do coração do nosso Deus além, é claro, dos 150 salmos que, sobretudo quando suplicam ou imploram o perdão das faltas cometidas, centram-se na bondade de um Deus que sempre age em favor do seu povo, porque “tu, Senhor, és um escudo para mim; tu és a minha glória, aquele que ergue a minha cabeça” (Sl 3,4). O Novo Testamento, que do início ao fim é um hino de louvor à constância do amor de Deus, guarda o Magnificat de Nossa Senhora (cf. Lc 1,46-55), o Benedictus de Zacarias (cf. Lc 1,68-79) e o Nunc dimittis do velho Simeão (cf. Lc 2,29-32), que cantam a fidelidade divina em cada um dos seus versículos e que diariamente a Igreja põe nos lábios através das horas litúrgicas para bendizer e exaltar Aquele que é o princípio de toda boa obra.

Conscientes da nossa imensa limitação e pequenez, nossas Regras de Vida Shalom afirmam que “em seu infinito amor o Pai quis escolher almas esposas para o Seu Divino Filho e para isto não escolheu as melhores, as mais belas, mas, a fim de manifestar a sua glória e seu poder, resolveu escolher as mais pecadoras, as mais fracas, os vasos de argila, para aí realizar Sua grande obra. Toda a glória pertence, assim, Àquele que nelas tudo realizou” (RVSh, 209). Com isso, quem aparece não somos nós, nem os nossos feitos em si mesmos medíocres, mas Aquele que interveio com toda a força do seu braço, Aquele que em nós tudo realizou, Aquele a quem a glória é unicamente devida agora e por toda a eternidade, Aquele que verdadeiramente é fiel. Foi Ele que “criou e resgatou pessoas para lhe darem uma resposta de amor vivendo como Ele nos chamou a viver. Ele não só nos criou para isto, como também nos resgatou do mundo, do reino das trevas onde estávamos” (RVSh, 269) e nos deu uma magnífica Vocação, nos confiando uma Obra “para que dela cuidemos com zelo e, com seus frutos, alimentemos e alegremos a Igreja e o mundo” (ECCSh, 15). Diante de tanta graça recebida, sem que merecêssemos um só dos favores divinos, só nos resta dizer: “que fazer, ó Senhor, a não ser amar-Te perdidamente! Entregarmo-nos a Ti com toda a nossa fraqueza e, apesar dela, nos consumirmos de amor por Ti e sermos servos de teu Reino? Nosso coração só pode ter gratidão ao Senhor, gratidão eterna e unir todo o nosso ser para corresponder a este amor perfeito com que Ele nos ama” (RVSh, 212-213).

O caminho da fidelidade de Deus

Quando o Senhor inspirou a fundação da Obra e mesmo o início da Comunidade, o que se tinha de mais concreto era a Promessa de Deus e fiar-se nisso parecia loucura. Porém, o máximo que tinham Abraão, Moisés, Maria, Pedro, Francisco de Assis, Teresa de Ávila e tantos outros na história, também era a Voz de Deus, a Promessa Divina, que deve ser acolhida não pela riqueza do seu conteúdo, mas sobretudo por seu autor: O Deus Fiel. O testemunho dos que caminharam à nossa frente sempre nos encoraja e impulsiona.

Ao nosso jovem Fundador de apenas vinte e dois anos e aos primeiros era pedido uma lanchonete para evangelizar mesmo que não contassem com experiência neste campo e muito menos com condições financeiras para tal empreendimento. Logo que esta primeira resposta foi dada e se inaugura a Lanchonete do Senhor, Deus passa a revelar a profundidade de sua vontade e não pede apenas o serviço, mas a entrega total e incondicional ao seu Reino. Jesus faz ressoar mais uma vez na história dos homens o seu convite: “vem e segue-me”. Dessa forma, começa a manifestar-se aquele projeto amoroso do coração do Pai, que escolhe, prepara e chama pessoas concretas para uma determinada missão que supera em muito a pobre condição humana.

Como se já não bastasse o inusitado convite para fundar uma lanchonete, que entre um sanduíche e um refrigerante anunciasse a Palavra de Deus aos jovens, o Senhor agora pedia uma consagração de si numa vida comunitária com características completamente novas em relação às formas existentes na Igreja. Mais que uma instituição, Ele nos queria como família, uma Nova Família. “Celibatários, casais, sacerdotes, pessoas em processo de definição de estado de vida, homens e mulheres, jovens e adultos. Uma só família de irmãos e irmãs, todos em iguais condições, cujo vínculo não se constitui em um único estado de vida, mas no chamado comum a, juntos, consagrarem suas vidas e seus estados de vida a Jesus Cristo” (ECCSh, 5).

Por fidelidade ao chamamento divino, alguns resolveram dar um passo na fé, apoiados unicamente no Autor da Promessa, e passaram a levar uma vida em comunidade. Por serem bastante jovens, por abraçarem uma forma de vida inteiramente nova e por não buscarem outra segurança para suas vidas além daquela prometida pelo Evangelho (Mt 10, 37-39) e que requeria um completo abandono nas mãos da Divina Providência, geraram suspeitas em alguns setores da Igreja, junto aos familiares e na sociedade, sendo muitas vezes perseguidos e incompreendidos. No entanto, Deus estava construindo sua obra, primeiramente na vida daqueles que foram chamados e, a partir deles, na Igreja e no mundo. Com isso “o rosto da vocação foi se desenhando mais claramente. (…) fomos nos enraizando no louvor, no amor esponsal e na vida carismática. A espiritualidade Teresiana e Franciscana foram suportes para a nova espiritualidade que surgia. Íamos cada vez mais compreendendo o nosso chamado de sermos discípulos e ministros da Paz, do Shalom do Pai em um mundo marcado pelo pecado, mas tão sedento da graça de Deus. E esta graça nós fomos chamados a anunciar: o Cristo morto e ressuscitado que visita os seus discípulos e ministra sobre eles a Sua Paz. Assim o quadro ia sendo pintado e do tesouro da Igreja, coisas novas e velhas iam se combinando pelo Espírito e dando forma a uma nova espiritualidade, destinada a homens e mulheres que quisessem viver o Evangelho até suas últimas conseqüências, na pobreza, obediência e castidade” (RVSh, anexo I – 95).

A Obra nascida no meio dos jovens e em vista deles, em pouco tempo atingiria não somente a eles, mas também a famílias, crianças e pessoas das mais diversas procedências sócio-culturais e de diferentes faixas etárias. Os frutos brotavam abundantemente e numerosas pessoas passaram a ser evangelizadas segundo o Carisma que Deus nos tinha concedido e outras tantas sentiram-se chamadas a comprometerem-se mais e mais com os valores e o serviço do Reino. A total confiança de que estar nas mãos da Igreja é estar nas mãos de Deus e a completa obediência ao seu ensinamento de Mãe e Mestra, nos fez prosseguir o caminho por trilha muito segura.

Com o passar dos anos, o Senhor foi nos fazendo entender seus desígnios e promessas. O ardente desejo de anunciar a Boa Nova através de uma lanchonete e, a partir dela, de muitos outros meios estava em profunda sintonia com aquilo que em 1992, ou seja, dez anos depois, o Santo Padre falava na conferência de Santo Domingo ao convocar toda a Igreja para uma Nova Evangelização: nova nos métodos, nova no ardor e nova nas expressões. A forma original de vida, que reúne clérigos e leigos, casais e celibatários, desabrochou nos diversos continentes e tornou-se uma realidade eclesial, hoje conhecida como “Comunidades Novas” ou “Novas Fundações” (cf. exortação apostólica pós-sinodal Vita Consecrata, 62) e vivamente animada pela hierarquia da Igreja, como fez o Papa João Paulo II na vigília de Pentecostes em 1998, na Praça de São Pedro, no Vaticano: “Como é grande, hoje, a necessidade de personalidades cristãs amadurecidas, conscientes da própria identidade batismal, da própria vocação e missão na Igreja e no mundo! E eis, então, os movimentos e as novas comunidades eclesiais: eles são a resposta, suscitada pelo Espírito Santo, a este dramático desafio do final de milênio. Vós sois esta resposta providencial”.

Quando foram escritas em 1984, nossas primeiras Regras de Vida falavam que nossa Comunidade abrigaria os três estados de vida, que deveríamos estar abertos a novos membros e a novos meios no anúncio de Jesus Cristo e que estabeleceríamos comunidades missionárias segundo a vontade de Deus. Naquela época só era possível vislumbrar e crer em tudo isso que encerra o desígnio de Deus a nosso respeito. Hoje, porém, quando encontramos no interior da Comunidade a presença dos três estados de vida (matrimônio, celibato consagrado e sacerdócio) e vemos crescer o número de seminaristas, de casais de namorados que com seriedade caminham para o matrimônio e de jovens que numa opção de amor buscam a consagração celibatária; quando vemos se multiplicar as vocações e casas comunitárias em quase 50 dioceses e já começamos a partir para o Exterior; quando vemos a semente da lanchonete ter desabrochado em tantas frentes apostólicas, como são os diversos centros de evangelização, de formação e de espiritualidade, as Edições, as creches, o colégio, o orfanato, as casas de recuperação de dependentes químicos, as casas de acolhimento e promoção humana, o trabalho com a comunicação, a cultura e a arte; quando tomamos em nossas mãos os nossos Estatutos devidamente reconhecidos e aprovados pela Santa Mãe Igreja; e sobretudo quando contemplamos a ação amorosa de Deus em nossas vidas e na vida daqueles que Ele nos confiou, só podemos voltar nossos olhos para o Autor da Promessa e gritar, bradar com alegria: DEUS É FIEL. DEUS É SEMPRE FIEL. ALELUIA!

Estamos apenas no início. Deus ainda tem muito a realizar em nós e através de nós, para a glória do Seu Nome, salvação das almas e bem da Santa Igreja. Sejamos fiéis para com Aquele que tem sido fiel conosco. Peçamos a graça para conservarmos sempre a humildade que nos leva a reconhecer que “todo dom valioso e toda dádiva perfeita descem do alto, do Pai das luzes” (Tg 1,17), e não de nossos méritos e conquistas humanas.


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