Apresentação

O caminho de Jesus foi anunciado pelos profetas do Antigo Testamento e registrado pelos discípulos no Novo Testamento. Neste especial, Juan Ulloa, missionário da Comunidade de Vida, apresenta à luz das Sagradas Escrituras os passos de Jesus, o Ressuscitado que passou pela Cruz.


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 Cristo, luz das naçõesO Servo Sofredor | Caminho Rumo ao Calvário | A Morte na Cruz | Capturado pelos SoldadosEvangelhos Sinóticos e Evangelho de João| Quem foi Pôncio Pilatos? | Flagelação, prelúdio da crucifixão | O Silêncio de Jesus | Abstinência de Jesus | Poder dado do Alto | Tomaram as Vestes de Jesus


Tomaram as Vestes de Jesus

Os sinóticos afirmam: “Após crucificá-lo, repartiram entre si suas vestes, lançando a sorte” (Mt 27, 35); “Repartiram suas vestes, lançando sorte sobre elas, para saber com que cada um ficaria” (Mc 15,24); “Repartindo suas vestes, sorteavam-nas” (Lc 23,34).

Em João, temos mais detalhes: “Os soldados, quando crucificaram Jesus tomaram suas roupas e repartiram em quatro partes, uma para cada soldado, e a túnica. Ora, a túnica era sem costura, tecida como uma só peça, de alto a baixo. Disseram entre si: “Não a resguemos, mas tiremos sorte, para ver com quem ficará”. Isso a fim de se cumprir a escritura que diz: “repartiram entre si minhas roupas e sortearam a minha veste” (Jo 19,23-24).

O quarto evangelho já coloca uma referência bíblica entre o que Jesus vive com o Antigo Testamento. O evangelista refere-se ao Salmo 22, 19 que contém o texto citado.

Nas imagens e ícones do Crucificado, vemos normalmente Jesus com um pano na cintura cobrindo os seus genitais, porém, como lemos nas Escrituras, os soldados “tomaram suas roupas” deixando-o nu.

Hoje para nós pode resultar difícil ver a nudez como algo puro devido ao sensualismo deformado em que a concepção do corpo nu na nossa sociedade reduz e rebaixa imensamente o seu valor e sentido. O pecado desordenou esta visão do corpo nu instrumentalizando-o, idolatrando-o, humilhando-o e degradando-o, mostrando-o como algo grosseiro e meramente como um objeto para obter prazer.

Contudo, lembremos que no início Deus criou o homem em profunda intimidade com Ele, e o homem andava nu na presença de Deus. Este é o vínculo original, a intimidade original entre Deus e o homem. Não existia pecado, malícia, medo nem vergonha.

Existe um vínculo entre a nudez de Jesus na cruz e a nudez original do homem na presença de Deus. No Gênesis, uma vez que o homem peca pela primeira vez, uma vez que percebe que está nu, esconde-se de Deus por medo (cf. Gen 3, 9-11). O pecado quebra a intimidade e harmonia originais que existia entre Deus e o homem, e que fazia com que a nudez do homem não fosse uma vergonha, mas uma expressão da beleza da criação de Deus.

Cristo na cruz destrói o pecado e, quebrando o pecado, rompe também com o medo e a vergonha que o pecado causou no homem. Jesus é a pureza encarnada e, no seu corpo nu, restabelece a pureza original da nudez do homem.

Diz a Sagrada Escritura no livro de Jó: “nu sai do ventre da minha mãe, nu voltarei para lá” (Jó 1,21). Com efeito, na história de Jó, muitos viram uma prefiguração da pessoa de Jesus, que é o justo que sofre. Em Jesus, podemos encontrar um novo significado a esta frase a partir dessa leitura do antigo e do novo Adão: Adão saiu nu do seio de Deus (como criatura), e Jesus nu voltará para lá (como filho).

Esta visão pura no amor do corpo nu é também própria dos esposos, que se entregam mutuamente sem véus, mas com a sua nudez depositam a sua vida e o seu corpo nas mãos do cônjuge para realizar a união esponsal. Jesus, que ama o homem com amor pleno (philia, eros e ágape), entrega-se à Igreja qual esposo: nu e depositando a sua vida e seu corpo nas mãos da sua esposa.

Poder dado do Alto

Pilatos insiste: “Não sabes que tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?” (Jo 19, 10). Jesus responde: “não teria poder algum sobre mim se não te fosse dado do alto; por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado” (Jo 19,11)..

Na resposta de Jesus, lembramos de uma frase dita por João Batista: “um homem nada pode receber a não ser que lhe tenha sido dado do alto” (Jo 3,27). O Batista foi o último profeta antes da chegada do Messias, em virtude disto, fala em nome de Deus. Na frase do Batista, tem um sujeito explícito: “um homem”. Na frase de Jesus, este sujeito permanece, porém, implícito. Jesus com esta frase coloca Pilatos na sua posição de homem, de criatura inferior a Deus. Cristo tira Pilatos da posição divina na qual tenta se colocar, pois “é o Senhor que dá a vida e dá a morte” (1 Sm 2,6).

Jesus não tem medo de Pilatos. Ele mesmo havia feito o convite: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28). Pilatos é limitado no seu poder, enquanto Jesus é Deus: “pensas que não poderia apelar para meu Pai a fim de que ele pusesse a minha disposição, agora mesmo, doze legiões de anjos?” (Mt 26, 53). O Senhor disse: “Ninguém toma a minha vida, eu a dou livremente”, anulando todo o poder de Pilatos sobre Jesus.

Pilatos apresenta Jesus para o povo

A oferta de vida de Cristo é a fonte da salvação. Cristo tem o verdadeiro poder sobre a vida e sobre a morte, o corpo e alma. Esta salvação também alcança e redime o procurador romano. Pilatos é alvo da libertação do pecado operada na morte de Cristo. De modo que não é Pilatos pelo seu poder que pode libertar Jesus, mas é Jesus na cruz quem libertará Pilatos da morte do pecado. Podemos imaginar saindo dos lábios de Jesus: Pilatos, estás caindo num grave erro. Não é você que tem poder para me libertar. Sou eu quem tem o poder para libertar você da morte do pecado, pois, “todo poder me foi dado no céu e na terra” (Mt 28,18).

Na segunda frase da resposta de Jesus “quem a ti me entregou tem maior pecado” refere-se explicitamente aos sumos sacerdotes e aos judeus que apoiavam a sua causa. O Senhor condenara anteriormente sua postura de incredulidade.

Para citar apenas um exemplo: “Eu vos falo o que vi de junto do meu Pai e vós fazeis o que ouvistes de vosso pai” Responderam-lhe: “nosso pai é Abraão”. Jesus lhes respondeu: “se fosseis filhos de Abraão, praticaríeis as obras de Abraão, porém, procurais matar-me. Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio.” (Jo 8,38-40.44).

Essas palavras fortes de Jesus referem-se diretamente a intenção de seus acusadores de matá-lo. Ainda que a cruz seja o desígnio divino para a salvação do homem, nem os seus acusadores nem Judas (o traidor) estão livres da culpa do assassinato do Filho de Deus. “Morrereis em vosso pecado” (Jo 8,21), diz o Senhor. Mesmo prestes a operar a sua abolição, o Senhor interpela a nunca se contentar com o pecado. Todo pecado provém do demônio, e todo aquele que peca, não é de Deus, mas do demônio (cf. 1 Jo3,8).

Abstinência de Jesus

João e Lucas narram: “Chegou ao lugar chamado “lugar da Caveira” – em hebraico chamado Gólgota - onde o crucificaram” (Jo 19,17); “Chegando ao lugar chamado Caveira, lá o crucificaram” (Lc 23,33).

Marcos e Mateus nos proporcionam um dado adicional interessante: “Chegando ao lugar chamado Gólgota, isto é lugar que chamavam de Caveira, deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas não quis beber” (Mt 27,34); “Levaram Jesus ao lugar chamado Gólgota, que, traduzido, quer dizer o lugar da Caveira. Deram-lhe vinho com mirra, que ele não tomou. Então o crucificaram” (Mc 15,24).
Existia o costume de dar vinho misturado com aromas ou com ervas aos condenados para anestesiá-los. Porém, nos dois relatos Jesus não aceita.

No contexto da Última Ceia, após ter dado seu corpo e seu sangue no pão e no vinho, Jesus afirmou: “em verdade vos digo, já não beberei do fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo no reino de Deus” (Mc 14,25). O fruto da videira é a uva, e dela faz-se o vinho.

Porém, há outro significado associado a esta figura da videira nas palavras do Evangelho de João: “Eu sou a videira e vós sois os ramos” (Jo 15,5) e o Senhor exorta a seus discípulos para permanecer nele. A palavra permanecer é mencionada 11 vezes só nesse trecho (cf. 15, 1-17) e Jesus a apresenta como necessidade para dar fruto: “o ramo não pode dar fruto por si mesmo se não permanece na videira, assim também vós se não permanecerdes em mim” (v.4). Ainda Jesus une o dar frutos por permanecer nele a glorificação do Pai: “meu Pai é glorificado quando produzis muito fruto” (v. 8) e, como vimos anteriormente, a glorificação do Pai se dá na Cruz. Neste sentido, o fruto da videira é a santidade dos seus discípulos, que brota a partir do amor incondicional a Jesus (permanecer) no seu seguimento.

Na hora da Cruz, os discípulos abandonam Jesus, ou seja, não permanecem nele, por conseguinte, não produzem frutos, nem glorificam ao Pai junto com Jesus unindo-se a Ele na cruz. O trecho em questão constitui um anúncio da traição dos discípulos. No Gólgota, Jesus: provou, mas não quis beber, pois se recusar a beber vinho era um sinal externo de que já não tinha o amor dos seus discípulos.

A abstinência de vinho, entre outros, era um sinal de um voto de consagração a Deus. No Antigo Testamento Deus disse a Moisés: “quando um homem ou mulher fizer um voto especial, o voto do nazireato, pelo qual se consagrará ao Senhor, abster-se-á de vinho e bebidas fermentadas, não beberá vinagre de vinho ou de bebidas fermentadas, nem tomará suco algum de uva” (Nm 6,2-3). Dentre as figuras bíblicas do Nazireato, a mais conhecida é Sansão, juiz de Israel cujo nascimento foi anunciado a sua mãe por meio da aparição de um anjo que lhe disse: “de hoje em diante não bebas vinho nem qualquer bebida fermentada, e não comas nenhuma coisa impura, porque o menino será nazireu de Deus desde o ventre da sua mãe até a morte!” (Jz 13, 7) “Ele começará a salvar Israel da mão dos filisteus” (v. 5).

Temos também um caso similar na anunciação do nascimento de João Batista: “ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho nem bebida embriagante, ficará pleno do Espírito Santo ainda no seio da sua mãe e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus” (Lc 1, 15-16). Desta vivência o próprio Jesus dá testemunho: “João Batista não come pão nem bebe vinho” (Lc 7, 33).

A diferença dos nazireus, Jesus não permaneceu em abstinência ao longo da sua vida. Porém, une-se a eles na chegada ao Calvário e na hora da crucifixão através da abstinência. Com este gesto, Jesus declara que o momento e lugar da consagração ao Pai é a Cruz.

O Silêncio de Jesus

“Crucifica-o!” (Jo 19,6; cf. Mt 27,22; Mc 15,13; Lc 23,21), pede o povo. O barulho do estrondoso grito que exige a morte do inocente toma conta da cena. Contrasta com estas violentas expressões e gritarias o silêncio de Jesus que permanece calado mesmo tendo diversas oportunidades para se manifestar.

Os sumos sacerdotes interrogam o acusado, mas Ele não responde. Mais tarde, Pilatos o interroga novamente, porém Ele só lhe responde com o silêncio: “De onde és tu? Mas Jesus não lhe deu resposta” (Jo 19,9). Mais uma vez, diante de Herodes, Jesus calou: “interrogou-o com muitas perguntas; ele, porém, nada lhe respondeu” (Lc 23,9). Até os últimos momentos: “Jesus não lhe respondeu sequer uma palavra” (Mt 27,14). “Nada respondes? Vê de quanto te acusam! Jesus, porém, nada respondeu” (Mc 15,5).

Jesus silencia perante Pilatos, silencia perante Herodes, silencia perante os judeus, silencia perante os seus discípulos que “abandonando-o, fugiram todos” (Mc 14,50). Silencia, inclusive, perante a sua mãe que silencia junto com Ele. “Ele não clamará, não levantará a voz” (Is 42, 2), diz o Cântico do Servo Sofredor. Nele, o profeta apresenta o silêncio como um sinal da submissão plena à vontade do Senhor, exaltando seu caráter sacrificial: “Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como cordeiro conduzido ao matadouro; como ovelha que permanece muda na presença dos tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53,7).

O silêncio é via para encontrar-se com Deus

Numa das mais belas descrições da Trindade é dito que Jesus é a palavra que sai da boca do Pai e que o Espírito Santo é o sopro que permite que a Palavra seja pronunciada. No silêncio de Jesus, vemos um paradoxo, pois, a Palavra silencia. Efetivamente, sem o sopro (que produz o som) a Palavra não passa de ser um pensamento e não pode ser comunicada. Este não é um anular-se por parte de Jesus, não é um negar a sua essência, nem um reter-se a fim de não ser comunicado. Jesus guarda silêncio como uma forma de Ele mesmo guardar-se no Pai. De uma forma singela e cheia de ternura, a Palavra busca permanecer dentro do Pai antes de se entregar por completo, buscando consolo e coragem no seio da Trindade.

Podemos lembrar que a Igreja desde os primórdios viu que o silêncio era a via para se encontrar com Deus. Os primeiros Padres do deserto buscavam afastar-se do barulho que os dispersava para se encontrar com Deus no silêncio. Para os Padres do deserto, a única forma de escutar é silenciando. Eles buscavam este silêncio profundo refugiando-se na solidão do deserto. A partir desta experiência é que surgiu a vida monástica, que é atual até os nossos dias.

Santo Agostinho afirmava ainda que: “Deus não se encontra no barulho”. Ele estava convicto de que o silêncio é imprescindível para o encontro com Deus. Esta necessidade é confirmada pela tradição mística católica: santos como Santa Teresa D’Avila, São João da Cruz, Santa Faustina Kowaslka e tantos outros se dedicaram à oração contemplativa. Embora o silêncio interior esteja acima do silêncio exterior, o exterior é necessário para alcançar o interior, pois, como será possível silenciar o interior se não é possível silenciar o exterior? Em Jesus, podemos ver uma profunda coerência entre seu silêncio exterior e interior.

Silêncio é resgate daqueles que estão no Xeol

Ao mesmo tempo, é um prelúdio do silêncio vivido no sábado santo em que Cristo opera a obra de salvação naqueles que permaneciam dormidos no Xeol. O silêncio de Jesus no pretório perante seus acusadores é um silêncio de resgate daqueles que foram intimados primeiro pelo grande acusador. Jesus une-se a eles, sabendo que em breve os tirará do silêncio que os mantém presos para cantar o grande: Aleluia!

O ofício das leituras no Sábado Santo nos oferece um belo texto extraído de uma homilia de autor desconhecido:

“Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio, uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. Ele vai antes de tudo a procura de Adão, nosso primeiro pai, ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: ‘O meu Senhor está no meio de nós’. E Cristo respondeu a Adão: ‘E com teu espírito’. E tomando-o pela mão, disse: ‘Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’ Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa. Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tornei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado. Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti. Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso, mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus. Está preparado o trono dos querubins, prontos e apostos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

O silêncio de Jesus expressa a totalidade da sua entrega

Como este silêncio contrasta em forma de penetrante mistério: o Verbo, o logos, a Palavra, cala-se. Aquele cuja presença fazia calar tempestades e demônios, agora permanece em silêncio. A tradição patrística sempre contemplou a “Cristologia da Palavra”, afirmando que o binômio “Verbum Domini” (Palavra de Deus) serve igualmente para indicar a Sagrada Escritura quanto à pessoa de Jesus Cristo. O próprio Filho é a Palavra, o logos de Deus Pai. A partir da encarnação, a Palavra não é somente audível, mas também tem rosto: Jesus de Nazaré.

Ora, a vida de Jesus não é senão um comunicar-se. Ele se comunica, porque Ele se dá a si mesmo. Como vimos, Jesus não só entrega “algo”, mas “se dá” a si mesmo. Ora, se Ele é a Palavra de Deus, pode-se dizer que Ele é a Palavra que se “diz” a si mesma. O seu silêncio expressa a totalidade da sua entrega. “Por fim, a missão de Jesus cumpre-se no Mistério Pascal: aqui vemo-nos colocados diante da “Palavra da cruz” (cf. 1 Cor 1, 18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se “disse” até calar, nada retendo do que nos devia comunicar.
Sugestivamente, os Padres da Igreja, ao contemplarem este mistério, colocam nos lábios da Mãe de Deus esta expressão: “Está sem palavra a Palavra do Pai, que fez toda a criatura que fala; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele a cuja palavra e aceno se move tudo o que tem vida”. Aqui verdadeiramente comunica-nos a si mesmo o amor “maior”, aquele que dá a vida pelos próprios amigos (cf. Jo 15, 13).

No seu silêncio está expressa totalidade da oferta não somente através dos gestos e atos, nem mesmo somente do seu corpo. Existe uma distinção entre a oferta que acontece no momento do silêncio de Jesus, expresso nos quatro Evangelhos, e a morte na Cruz, também presente nos quatro Evangelhos, embora sejam um momento só e um único sacrifício. O silêncio de Jesus expressa a doação de si a nível ontológico. Enquanto logos de Deus, Cristo apresenta-se mais uma vez como é apresentado no prólogo do Evangelho joanino, desta vez perante a sua esposa, pela qual se entrega. Ora, esta entrega total de si, na qual se distingue a oferta física da oferta pessoal total, é própria do amor esponsal.

O amor conjugal “realiza-se de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte. A doação física total seria falsa se não fosse sinal e fruto da doação pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente o futuro, só por isto já não se doaria totalmente” (SÃO JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio).

Flagelação de Jesus, prelúdio da crucifixão

É sabido que Jesus foi terrivelmente açoitado. Assim contemplamos nos mistérios dolorosos do Santo Terço e o meditamos na Via Sacra. Sabemos que a flagelação prévia a crucifixão fazia parte do castigo romano, e a Tradição da Igreja nos diz que com Jesus não foi diferente. No entanto, as Sagradas Escrituras mencionam vagamente este fato.

Em Lucas, Pilatos diz: “Este homem nada fez que mereça a morte, por isso, o soltarei depois de o castigar” (Lc 23,15-16). De modo que Pilatos apresenta a flagelação quase que como uma alternativa para satisfazer os acusadores de Jesus. Em João diz que “Pilatos tomou Jesus e o mandou flagelar” (Jo 19,1). Neste Evangelho, a flagelação teria lugar no meio do diálogo entre Pilatos, Jesus e os judeus. Enquanto que em Marcos e Mateus, próprio da sua narração mais arcaica e simples diz: “Depois de mandar açoitar Jesus, entregou-o para que fosse crucificado” (Mt 27,26; Mc 5,15).

A nível histórico, nos inclinamos por esta versão, pois a flagelação, que era o prelúdio oficial de toda crucifixão, era operada uma vez dada a sentença de morte, provavelmente imediatamente antes de conduzir o condenado ao lugar da cruz.

Nenhum dos Evangelhos dá ênfase detalhada a este evento, contudo, tinha sido profetizado por Isaías: “Ofereci o dorso aos que me feriam e as faces aos que me arrancavam os fios da barba” (Is 50,7).

Flagelação de Jesus

Diz o Evangelho de João: “Os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na na cabeça e jogaram sobre ele um manto púrpura. Aproximando-se dele, diziam: Salve, rei dos judeus!” E o esbofeteavam” (Jo 19,2-3). Os golpes e açoites haviam desfigurado o corpo de Jesus, cumprindo-se assim a Escritura de Isaias: “Não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar” (Is 53,2).

A coroação de espinhos deixa os cabelos de Jesus banhados no seu sangue vermelho. Ora, uma das figuras mais importantes do Antigo Testamento também tinha o cabelo vermelho: Davi (cf. 1 Sm 16,12). A coroação de espinhos, que em si mesma faz referência à realeza, é uma declaração de Jesus como o novo Davi.

Logo após, continua o processo perante Pilatos: “Jesus, então, saiu trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. E Pilatos lhes disse: “Eis o homem!” (Jo 19,5). Nesta afirmação, vemos uma referência a Adão, o homem. Jesus é apresentado ao povo, e especialmente às autoridades religiosas da época, como o novo Adão. Tinha se dado início à obra da nova criação.

Quem foi Pôncio Pilatos e qual o seu status?

Jesus é levado à presença de Pilatos. Pilatos era o procurador romano, ou seja, o representante do imperador romano na região da Judéia. O nome ‘Judéia’ é uma junção entre Judá (nome de um dos filhos de Jacó e, consequentemente, uma das tribos de Israel) e Iduméia (Edom) e compreendia a área de Samaria e Iduméia, deixando fora o território da Galileia (terra de Jesus), Peréia, Decápolis e Gaulanitide.

A necessidade da designação de um prefeito ou procurador romano começa desde o reinado de Herodes Magno (o Grande) que morava em Jerusalém e governava a região na época do nascimento de Jesus. Após a sua morte no ano 4 a.C., divide o seu território entre três dos seus filhos para governarem juntos: Herodes Arquelau, Herodes Antipas (ambos filhos de Maltace) e Felipe (filho de Cleópatra de Jerusalém).

O seu quarto filho, também chamado Herodes Felipe, filho de Mariana, não recebeu nenhum título de terras, por isso, comumente se faz a diferença entre os Herodes Felipe dando o apelido a um deles (aquele que foi considerado na divisão do reino) de ‘o tetrarca’. Herodes Felipe, aquele que permaneceu fora do testamento do pai, morou na capital do império, Roma, e viveu uma vida devassa, vivendo a custo da riqueza da família.

Ele se casou com uma mulher chamada Herodíades. Herodes Magno, o pai, nomeou seu filho Herodes Arquelau para governar a metade do território, enquanto a outra metade, dividiu-a entre os outros dois irmãos (Felipe e Herodes Antipas). Antipas, numa viagem a Roma conheceu a esposa do seu meio irmão Herodes Felipe e se apaixonou por ela. Herodíades, por sua parte, não hesitou em deixar ao seu marido e voltar com Antipas para a Judéia. Nos Evangelhos, esse relacionamento é condenado por João Batista e lhe custa a morte (cf. Mt 14,1-12; Mc 6,14-29; Lc 9,7-9). Herodes Antipas é idumeu ou edomita, território que foi judaizado, isto é, mesmo sendo gentios, estavam obrigados a cumprir os costumes religiosos judeus.

Grande parte do patrimônio histórico da época se resgatou pela arqueologia e pela literatura. Um dos escritores mais significantes da época foi Flávio Josefo, e os escritos dele contribuem enormemente ao trabalho dos historiadores. O governo dos filhos de Herodes foi marcado pelo fracasso e incompetência. A vida desordenada e voltada aos prazeres e aos vícios, rapidamente trouxe a insatisfação do povo, que não tardou em se manifestar.

Há registros de diversas revoltas na região que custaram queima de palácios, invasão do templo e destruição de imagens importantes para a cultura judaica. Rebeliões deste tipo chegaram a durar mais de dois anos. No livro dos Atos dos Apóstolos, são mencionados dois nomes de líderes político-religiosos anteriores ao tempo de Jesus que teriam causado este tipo de distúrbios: Teudas e Judas, o Galileu (cf. At 5,36-37).

Jesus diante de Pôncio Pilatos

A Judéia era uma área já conquistada pelos romanos, contudo as revoltas significavam para o império constantes e crescentes despesas em matéria militar e baixas de soldados. Diante disto, no ano 6 d.C., o César tomou a medida de designar um representante, isto é, um procurador ou prefeito na área do conflito. A missão do procurador era acabar com estas revoltas e evitar qualquer tipo de rebelião. Chegou a tal ponto a indignação do César em relação os governantes do território, que tirou do cargo a Herodes Arquelau e expulsou-o das terras. O procurador tinha o controle da economia para fazer com que as pessoas pagassem o imposto ao César. Era também o único capaz de sentenciar a morte. Normalmente, respeitava os costumes religiosos do povo, mas se fosse necessário poderia intervir com as forças militares. Pelo fato de ser representante do César na área, o procurador deveria enviar periodicamente relatórios diretamente ao imperador.

A Judéia havia se transformado numa área altamente conflitiva, também pelos diversos grupos religiosos que convergiam na Cidade Santa. Muitos destes grupos não queriam se submeter à autoridade do império romano. A figura de César era divinizada pelo Império, pelo que se render à opressão de César era para eles considerado quase uma idolatria ou apostasia (negar a Deus ou negar a fé em Deus). Isso se traduzia em não querer pagar o imposto ao César, em revoltas violentas e até em homicídio de soldados romanos.

Ser enviado como procurador a esta região não era de forma nenhuma um motivo de honra, ao contrário, era mal visto por todo o império de Roma. Esta nomeação era uma humilhação e podia se tratar facilmente de uma punição a nível político. Por isto, os procuradores não costumavam morar em Jerusalém, mas em Cesaréia, uma cidade portuária, e iam para Jerusalém nas ocasiões de maior conglomeração de pessoas, como por exemplo, a festa da Páscoa. Para estas ocasiões, tinham um palácio reservado chamado de Pretório. Pôncio Pilatos já era o quinto procurador que havia sido designado para a área (sucessor de Valério Cratos).

Herodes era o rei da Galileia, região a qual pertencia Nazaré, a terra de Jesus. Por conseguinte, em estrito rigor, pela sua jurisdição, era Herodes quem devia julgar Jesus. O tumulto dirigiu-se ao palácio que Herodes tinha na cidade Santa. Contudo, o rei não morava em Jerusalém (estava fora do seu território), mas na ocasião se encontrava na cidade por motivo da festa da Páscoa.

Evangelhos Sinóticos e Evangelho de João

Mergulhamos na Paixão do Senhor tomando como base os quatro Evangelhos, alguns trechos dos cânticos do Servo Sofredor e alguns trechos da leitura patrística. No que diz respeito a análise comparativa dos Evangelhos, emergem dificuldades não menores na hora de comparar o Evangelho de João com os sinóticos, isto pelas suas consideráveis divergências de estilo, discurso, narrativa e ênfase. Apesar disso, no trecho da Paixão esta diferença não aparece de forma tão acentuada. Todos os Evangelhos têm como ponto ápice da sua narrativa a Paixão do Senhor.

Alguns dados que se encontram nos sinóticos e não se encontram em João: menção do Getsemani (o Monte das Oliveiras); a fuga dos discípulos depois da prisão de Jesus; a conversa com Judas (o beijo de Judas); a sessão oficial do Sinédrio; a figura de Simão de Cirene; a mulher de Pilatos; a libertação de Barrabás; as mulheres que choram no caminho de Jesus para o Calvário; os insultos aos pés da Cruz; a intervenção dos ladrões crucificados com Jesus; as horas de trevas; as palavras de Jesus na cruz ao Pai e ao ladrão; a confissão do centurião ao pé da cruz; os eventos sobrenaturais extraordinários como tremor da terra, rompimento do véu do templo, cura do servo ferido pela espada, ressurreição dos mortos, etc.

Fragmentos e dados do Evangelho de João que não estão presentes nos sinóticos: a menção da torrente de Cedron (18,1); a participação da coorte na prisão (18,3); a menção do tribuno e dos guardas dos judeus (18,12); os nomes de Pedro e Malco (18,10); a sessão perante Anás (18,13.19-24); a porteira do palácio do sumo sacerdote (18,16-17); as longas conversas com Pilatos (18,33-38;19,9-11); o litóstrotos ou Gábata (19,13); a apresentação de Jesus como rei (19,14); a hora sexta (19,14); detalhes sobre o letreiro da cruz (19,19-22); a divisão das vestes de Jesus e o sorteio da túnica (19,23-24); as palavras de Jesus na cruz à sua mãe e ao discípulo (19,25-27), “tenho sede”(19,28) e “está tudo consumado” (19,30); o lado aberto pela lança (19,33-34).

Meditemos esse caminho pelas Sagradas Escrituras lembrando sempre que “o desígnio de nosso Deus e Salvador em relação ao homem consiste em levantá-lo de sua queda e fazê-lo voltar, do estado de inimizade ocasionado por sua desobediência, à intimidade divina. A vinda de Cristo na carne, os exemplos da sua vida apresentados pelo Evangelho, a paixão, a cruz, o sepultamento e a ressurreição não tiveram outro fim senão salvar o homem, para que, imitando a Cristo, ele recuperasse a primitiva adoção filial” (SÃO BASÍLIO MAGNO, bispo. Do livro sobre o Espírito Santo).

Capturado pelos Soldados

“Após detenção e julgamento, foi preso” (Is 53,8) diz a profecia de Isaías. Os Evangelhos sinóticos contam duas partes do processo: perante os Sumos Sacerdotes e perante Pilatos. Os soldados dos Sumos Sacerdotes (não confundir com os soldados romanos) foram buscar Jesus a noite no lugar que Judas tinha indicado (o Monte das Oliveiras).

O fato de que isto aconteceu “a noite” tem diversos significados: a ação de Satanás, o príncipe da noite, em Judas levando-o a traição; a noite da alma a qual o próprio Jesus é submetido e experimenta da solidão; a noite da esperança, que anuncia o novo amanhecer da salvação do homem.

Logo após, Jesus é levado ao Sinédrio, na presença dos Sumos Sacerdotes que o interrogam. Lembremos que o Sumo Sacerdote naquele ano era Caifás. Lucas narra esse fato “Quando se fez dia” (Lc 22,66) enquanto os outros Evangelhos mantêm o fato pela noite.

Capturado pelos Soldados

O Evangelho de João é o que menos se refere aos diálogos com os Sumos Sacerdotes. Ele só menciona que Jesus foi levado primeiro na presença de Anás, que era o sogro de Caifás (cf. Jo 18,13), centra-se nas traições de Pedro e não comenta nada mais a respeito do processo. Nos sinóticos, a cena é diferente. Jesus é interrogado, esbofeteado e insultado pela assembleia.

A afirmação que o leva a condenação é a resposta diante da seguinte pergunta: “És tu o Messias?” (cf. Mc 14,61; cf. Lc 22,70; cf. Mt 23,66). Jesus responde com a afirmação: “Tu o dizes, Eu Sou” (cf. Mc 14,62; cf. Mt 26,64; cf. Lc 22,70). Esta afirmação para os judeus é escandalosa e altamente blasfema, pois faz referência direta às palavras de Deus a Moisés no Sinai quando se revela como o ‘Eu Sou’ (cf. Ex 3,14).

E ainda profetiza: “Vereis o Filho do Homem sentado à direita de Deus.” (cf. Mc 14,62; cf. Mt 26,64; cf. Lc 22, 69). Na época, estar sentado à direita do Rei significava ter os mesmos poderes do Rei. Por isso, dizer que Jesus estaria sentado à direita de Deus significava que Deus lhe concedia os mesmos poderes divinos. Foi essa mesma visão que provocou a execução de Estevão (cf. At 7, 55-60) no início da missão da Igreja.

A Morte na Cruz

A crucifixão não era uma execução judaica, mas romana. Isto explica o fato de que as autoridades religiosas de Jerusalém procurassem Pilatos, procurador romano da região, para aplicar este método a Jesus.

Crucifixão: vem do latim crucifixio, ou seja, ‘fixar numa cruz’ (crux=cruz; figere=fixar) e consiste em fixar uma pessoa num madeiro em forma de cruz prendendo-a com pregos nos punhos e nos pés. Fazia parte da execução a flagelação prévia.

A morte na Cruz, além de humilhante e dolorosa, era lenta. Pregava-se na cruz um pequeno pedaço de madeira na altura dos pés e na parte inferior da coluna. Este pedaço de madeira não era o suficiente para a pessoa poder apoiar-se nem se sentar: ele fazia uma leve pressão na coluna que fazia com que aumentasse a dor com o passo do tempo e favorecesse a asfixia.

Pelo peso do corpo, as pernas cansavam-se e, como uma resposta natural, o crucificado passava a fazer força abdominal para sustentar o corpo, sendo que isso terminava por esmagar os órgãos internos dessa área. Pela posição dos braços, a respiração era difícil e cansativa. A morte da cruz era produzida por asfixia ou por hemorragia interna pelos órgãos esmagados que produziam paro cardíaco.

Para apressar o processo de morte, quebravam-se as pernas da vítima, tirando assim o apoio das pernas e chegando mais rapidamente à morte. Vemos isto no Evangelho, com os ladrões que foram crucificados junto com Jesus: “vieram, então, os soldados e quebraram as pernas do primeiro e depois do outro, que fora crucificado com ele” (Jo 19,32).

Morte na Cruz

A morte na cruz era aplicada como castigo aos piores delitos, como traição ou revolta contra o Império Romano. No caso de Jesus, vemos um alto nível de brutalidade, como por exemplo, a coroa de espinhos, a quantidade aumentada de açoites e os escárnios que não correspondiam ao normal das crucifixões.

Jesus era uma figura pública que se instalou no meio do conflito político da ocupação do Império Romano, as revoltas sociais contra o mesmo e os conflitos religiosos entre os diversos grupos. O processo de crucifixão de Jesus teve fatores dessas três áreas.

Normalmente, os pregos eram colocados no pulso, fazendo uma espécie de gancho com os ossos do braço e impedindo que a mão se rasgasse com o peso do corpo. Não sabemos se isto foi aplicado em Jesus ou os pregos foram colocados nas mãos.

“Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro” (Gl 3,13). Esta tremenda afirmação provém do livro do Deuteronômio (cf. 21,23) e era considerada, na época de Jesus, palavra de maldição divina para aqueles judeus que, em nome de Deus, em nome da Lei de Moisés, eram condenados ao suplício romano da crucifixão.

Saulo antes estava convencido da verdade contida nesta afirmação a respeito de Jesus Crucificado. Só podia ser maldito, rejeitado por Deus, este homem de Nazaré que tinha desviado o povo, comendo com os pecadores e desobedecendo as regras de pureza, além de pretender ser o Messias. Para o Saulo, a morte na cruz era um sinal claro de que Jesus não tinha agido segundo a vontade de Deus” (François Van Thuan, Testemunhas da esperança, p. 87).

Caminho Rumo ao Calvário

A Cruz é o ponto mais alto da vida de Jesus, pois, nela, Cristo vive de forma mais excelente a sua própria identidade: o Amor que se oferta por inteiro. Podemos dizer que Cristo se encarna para morrer na Cruz e que toda a sua vida aponta para este momento sublime. Porém, mesmo encontrando respostas, a Cruz permanece um mistério para os homens.

Distinguimos o motivo, compreendemos a forma, damos sentido, reconhecemos os frutos, conhecemos a tradição ritual judaica e o valor expiatório dos sacrifícios. Contudo, a lógica humana se vê eternamente desafiada pelo Amor que não reconhece limites, pois, por amor, o Amor cria o homem; por amor, o Amor se faz homem; por amor, o Amor se deixa crucificar pelos homens.

A Cruz é o caminho do discípulo (cf. Lc 9,23), a Cruz é salvação, porém, a Cruz continua sendo escândalo, e a nossa carne, ferida pelo pecado, grita para que corramos longe dela. Por isso, a Igreja, na sua incomensurável sabedoria, nos convida no tempo quaresmal a nos preparar, para que não ouçamos as vozes da carne que clamam em nós e nos unamos a Cristo neste caminho rumo ao Calvário.

O Servo Sofredor

A profecia de Isaías descreve os sofrimentos pelos quais Cristo passaria em sua Paixão. No texto, o Messias é identificado através de alguns elementos: a eleição, a linhagem davídica e a filiação e missão divina.

Eleição:Desde o seio materno o Senhor me chamou, desde o ventre da minha mãe pronunciou o meu nome” (Is 49,1), trecho muito similar ao de Jeremias (cf. Jr 1,5);

Linhagem davídica: Ele cresceu diante dele como um renovo, como raiz em terra árida” (Is 53, 2), palavras chave: renovo e raiz;

Filiação e missão divina:Eis o meu servo que eu sustento, o meu eleito, em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu Espírito, ele trará o direito às nações” (Is 42,1); “Eu te constitui como aliança do povo, como luz das nações, a fim de abrires os olhos dos cegos, a fim de soltares do cárcere os presos, e da prisão os que habitam nas trevas” (Is 42,6-7); passagens similares aos episódios evangélicos do Batismo: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Mc 1,11; cf.Mt 3,17) e a leitura na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4,16-21).

Servo Sofredor

Cristo, luz das nações

No Cântico do Servo Sofredor está presente a dinâmica da glorificação mútua entre o Pai e o Filho, naturalmente sob outra denominação (Iahweh e o Servo ou Eleito). “Aquele que me modelou desde o ventre materno para ser seu servo, para reconduzir Jacó a ele, para que a ele se reúna Israel; assim serei glorificado aos olhos do Senhor, meu Deus será a minha força!” (Is 49,5); “Disse-me: “Tu és meu servo, Israel, em quem me glorificarei” (Is 49,3); “Não cederei a outros a minha glória” (Is 42,8).

A profecia menciona que o próprio servo do Senhor haveria de anunciar a sua morte após os primeiros sinais: “As primeiras coisas já se realizaram, agora vos anuncio outras, novas” (Is 42,9). Jesus, após realizar alguns sinais, anuncia a sua morte: “Jesus começou a mostrar aos seus discípulos ser necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morte e ressurgisse ao terceiro dia” (Mt 16,21); “Estando eles reunidos na Galileia, Jesus lhes disse: “O Filho do Homem será entregue às mãos dos homens e eles o matarão, mas no terceiro dia ressuscitará” (Mt 17,22-23); “Eis que estamos subindo a Jerusalém e o Filho do Homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e escribas. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado. Mas no terceiro dia ressuscitará” (Mt 20, 18-19).

A profecia continua: “Te estabeleci como luz das nações, a fim de que a minha salvação chegue até as extremidades da terra” (Is 49,6). O Cristo, luz das nações, resplandece quando colocado no candelabro da Cruz. Jesus já era proclamado assim desde sua infância pelo velho Simeão: “agora, Soberano Senhor, podes deixar o teu servo ir em paz, conforme prometestes, porque meus olhos contemplaram tua salvação, que preparastes ante a face do teu povo, luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel” (Lc 2,29-32).

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Textos: Juan Ulloa | Edição: Jonas Viana | Design: Eveline Coelho e Jones Dias | Layout de Página: Jonas Viana.