Foto: Marcelo Palo
Shalom

O celibato é feito de amor

O celibato nunca foi apresentado como uma opção para mim. Nascido em uma família do sertão nordestino, cresci sem muito entendimento acerca dos estados de vida e o matrimônio desde cedo era o caminho mais natural. Tive algumas experiências de namoro na adolescência e juventude, pelas quais pude comprovar a beleza e a força do amor humano, fonte de muita cura e de amadurecimento humano. Mas eu sempre tive a impressão de não corresponder na mesma medida, como se dentro de mim estivesse dividido, me dando com reservas. Eu era capaz de amar, me apaixonar, me atrair, me envolver, mas me faltava uma doação sem cálculos, sem medidas, própria do amor… era capaz de dar coisas, afetos, comprometimento, mas não dar quem eu era de verdade.

Em minha caminhada tive experiências muito fortes com Deus. Provando do Seu amor, eu fui crescendo e descobrindo a importância de discernir a Sua vontade, como um verdadeiro tesouro, que somente confiando nEle eu poderia ser feliz e que Ele tinha o poder de me fazer feliz, independente de qualquer coisa ou pessoa. Foi assim que compreendi que discernir a vontade de Deus não era apenas planejar e apresentar os meus projetos a Ele, mas estar livre e aberto para aquilo que ele pedisse de mim. Mas esse processo não encontrava espaço dentro de mim em relação ao estado de vida, já que eu me defendia do celibato, não tinha sido educado para isso, me armava e fugia. Sempre me atraia a esse chamado, mas não era capaz de reconhecer o seu valor e resistia sempre.

Um certo dia, uma irmã muito querida e próxima, me ligou. Ela estava em Missão e apesar da distância sempre esteve muito presente. Eu havia terminado mais um namoro, estava frustrado e tinha frustrado os planos de mais uma. Essa amiga me fez uma pergunta: “E o celibato? Por que não?” Eu fui rezar com isso e vi o quanto eu não era aberto à vontade de Deus como achava. Deus se utilizou dela para me questionar, me vencer e foi o início de uma história de muita descoberta, muita luta e de muita paciência de Deus, para me conduzir ao lugar que Ele reservou desde toda a eternidade para mim.

A primeira descoberta fundamental sobre o celibato para mim foi a de que era uma forma de vida que era amor. Isso porque eu só conseguia enxergar renúncia e isolamento. Mas ao estudar sobre esse estado de vida, descobri que ele só tinha sentido se fosse para ser vivido como ato de amor e com o objetivo de querer bem às pessoas e isso não poderia ser poesia, nem exterioridade, tinha que ser relacional. O celibato é feito de amor e só tem sentido se for uma escolha pelo amor. Um amor gratuito, disponível, aberto, capaz de incluir a todos, especialmente aqueles que são mais necessitados de um autêntico testemunho de amor desinteressado e livre. Minha descoberta do celibato foi pura iniciativa de Deus. Sozinho eu jamais teria me aberto a essa possibilidade, mas Ele foi pacientemente me conduzindo, de noite em noite, me cercando, rompendo a minha surdez, vencendo as lutas que eu travava contra ele. Foi na oração, na vida e no serviço àqueles a quem eu me ofertava que fui descobrindo em mim um coração de celibatário, capaz de gerar filhos para Deus e de oferecer a minha própria vida como caminho para Deus. Foi fundamental nesse processo a formação pessoal e comunitária e o apoio dos irmãos de Comunidade e da Obra. Temos uma graça de viver um carisma que nos impulsiona a perseguir a vontade de Deus a todo custo, custe até mesmo uma vida inteira.

 

 

Eu não sabia ser celibatário quando fiz meu primeiro voto no Celibato pelo Reino dos Céus. Não tinha mapa, nem fórmula, ainda mais como Comunidade de Aliança, chamado pelo qual somos enviados a testemunhar o Ressuscitado em meio às nossas atividades seculares. Anunciar isso aos quatro ventos não parecia aceitável nem para o mundo, nem para a família e as vezes nem para mim mesmo. Mas as graças que eu ia colhendo eram muito concretas: os jovens testemunhavam a experiência de cuidado e paternidade com eles, a minha família ia tocando em um homem inteiro e feliz, as pessoas ao meu redor no trabalho iam demonstrando um respeito a algo que percebiam, que não sabiam dar nome, mas era algo protegido, um sentido de sagrado. É claro que me assustava, porque a consciência da minha própria miséria e fraqueza sempre estiveram diante de mim. Como podiam os outros perceber tudo isso em mim? Ano após ano, passo a passo, em cada cair e levantar eu fui aprendendo a ser e vivendo para deixar Cristo viver em mim.

Hoje estou dando um passo definitivo ciente que continuo aprendendo, de cruz em cruz, a cada nova Ressurreição. Trago em mim uma certeza tão profunda e viva de ser amado por Deus, que me sinto constrangido. Essa convicção eu só havia tido lá no começo da caminhada e foi como um fogo de amor que ardia dentro e me arrastou até aqui. Estou convencido de que nada mais nos separará. Ele sempre vence! Eu vivo um novo Pentecostes, um Pentecostes de amor, um novo envio missionário, uma graça, um tudo novo. O voto perpétuo no celibato pelo Reino dos Céus é a última porta que vou abrir para cruzar a ponte que me conduz à eternidade. É esta a minha identidade: Cenildo, Filho de Deus, Shalom, Celibatário. Eu sou invadido por uma noção de eternidade que não cabe dentro do meu coração, nem de uma vida apenas. Sinto dentro de mim, ao mesmo tempo, saciedade totalizante e profunda necessidade de amar muito mais. Vejo nisso que o Eterno me concedeu uma centelha do Seu amor inquieto e incansável, que quer sempre mais do homem, até que Ele seja tudo. A minha maior alegria é dizer: eu sou todo teu Senhor, para sempre!

 

Cenildo Costa

Consagrado da Comunidade de Aliança na Comunidade Católica Shalom


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