Formação

O Cordeiro e a Santa Missa

Por Silvio L. Medeiros

A imagem do cordeiro como chave para se aprofundar nos mistérios da santa missa.

Diziao saudoso papa João Paulo II que a missa é “o céu na terra”. Expressãoforte e teológicamente correta; mas infelizmente muito pouco constatadano coração dos fiéis que não raramente, fazem da santa missa umaocasião de dispersão e repetições mecânicas e vazias de sentido. Muitomais do que mera questão de fé, é necessário dar razões a talconstatação papal para vivênciar a santa missa com toda a intensidadeque nos propõem a santa Igreja Católica. Aqueles que se atreverem a seaprofundar pelos mistérios escondidos no véu da liturgia verão queindependente de uma possível hora de desconforto, de cantos malensaiados, de homilias distantes e de choros de bebês, quando se vai amissa, é ao próprio céu que de fato se visita.

Sea missa é o céu, e se queremos beber direto da fonte, nada melhor doque recorremos ao uso da Sagrada Escritura. Sabemos que de todos oslivros da Bíblia, um deles é o que mais se destaca pelos aspectos eatenção que dá as realidades celestes, que é o livro do Apocalipseescrito por São João.
 
OApocalipse é um livro que impressiona do início ao fim. Ao narrar suavisão da ação celeste na terra em tempos incertos, São João não poupanos detalhes e nos dá a certeza de que o que está a contar não pode tersaído meramente de sua cabeça, pois nem uma imaginação fértil de umacriança seria capaz de conceber imagens e figuras tão significativasquanto as que veremos a seguir. Dragões de várias cabeças, cavaleirosvoadores, bestas e feras, guerras sangrentas são algumas delas. Maslendo atenciosamente e deixando de lado séculos de cultura cristãacumulados desde o início do cristianismo até os nossos dias, umaimagem salta mais a vista do que qualquer outro: um cordeiro sobre umtrono. Se a primeira vista tal título não soa estranho é porque aindanão nos aprofundamos no tema. Vale lembrar que São João cita estafigura do cordeiro que governa o mundo, 28 vezes em seu texto. Querdizer: realmente significa algo.

Bastaparar para pensar que estamos a falar de Deus, de Jesus Cristo, dasegunda pessoa da Santíssima Trindade. Para Ele não faltam nomes etítulos de nobreza: Altíssimo, Senhor dos Exércitos, o Próprio Amor,Rei do Universo, Criador do Mundo, Santidade infinita, Amor Supremo,Soberano, etc. Dentro deste contexto, um título de Cordeiro não soa acoisa mais normal do mundo. E de fato, é porque não é normal mesmo. Dara um Deus todo poderoso o nome de uma criatura tão frágil e dependentecomo um cordeirinho é por demais intrigante.

Eé desvendando este mistério que encontramos grandes reflexões sobreJesus Cristo e sua obra redentora. O início dessa busca se dá naprópria gênesis da humanidade aonde podemos olhar reflexivamente sobreessa figura do cordeiro. A imagem do cordeiro é a chave paradecifrarmos São João no Apocalipse e a própria realidade da missa:entendendo o que significa o cordeiro na história da salvaçãoentendemos o que significa Jesus Cristo na obra salvífica da Eucaristia.

Sabemosbem que desde as mais remotas idades do gênero humano Deus vemtreinando o homem para que se acostume a concretizar com atos, e não sócom palavras, o seu amor para com Ele. E sabemos que desde os tempos deCaim e Abel, é um costume do ser humano oferecer a Deus como símbolo degratidão aquilo que tem de melhor. Para um homem agrário e campestre,cordeiros estão seguramente na fila dos sacrifícios mais altos edifíceis que o ser humano poderia render ao seu Deus.

EmboraDeus sendo todo espírito, pode muito bem aceitar de bom grado umaoferta material de suas criaturas, afinal de contas, Ele mesmo criou amatéria, deve gostar dela portanto. É claro que para Deus nenhumaoferta é suficientemente digna para que quitemos nossas dívidas comEle, mas o que mais importa é o simples desejo de que o amemos acima dequalquer criatura e o nosso total desprendimento das realidadesterrenas. Essa é a idéia por de trás das ofertas humanas a Deus.

Ofato é que pouco a pouco Deus vai pincelando na história da salvaçãoesboços e respingos coloridos do que viria ser a grande imagem de seufilho Jesus Cristo, no Cordeiro de Deus. Quem não se lembra dadramática história do sacrifício de Isaac por Abraão, quando Deus seutiliza da figura do cordeiro, como aquele que dá a vida emsubstituição do filho amado (Gn. 22,8)? Com Moisés ainda, Deusoficializou na história da salvação a importância dramática que afigura do cordeiro teria a partir de então, já na prefiguração de seufilho que como um cordeiro entregue nas mãos dos homens se sacrificariaa sí próprio pela redenção de todos.

Vemosportanto durante o episódio da visita do Anjo exterminador no antigoEgito, Deus pedindo a Moisés que se celebrasse a primeira páscoa doshebreus, o dia em que o Altíssimo feriria de morte todos osprimogenitos daquela terra para libertar o seu povo da escravidão doFaraó de coração endurecido. Para se celebrar tal páscoa um aliançaentre o homem e seu Deus fora consumada no sacrifício de inúmeroscordeiros, que doando o seu sangue para os hebreus poupou este povo dasterríveis perdas que se dariam naquela noite (Ex. 12, 1-23). A regraera que se oferecesse cordeiros ao Senhor, que se marcasse todas asportas com aquele sangue inocente e que se alimentassem posteriormentecom aquela mesma carne sacrificada. Dito e feito; o Senhor convenceu ofaraó pela dor e este autorizou o povo hebreu partir para longe de seusdomínios, em busca da terra prometida.

Poisbem, a partir de então anualmente os israelitas, odernados por Deus epara ratificarem sua aliança, celebravam a mesma páscoa em honra dosgrandes feitos a sua gente pelo Senhor. Todos os anos tomavam umcordeiro por família, macho, sem defeito, sem ossos quebrados, e oimolavam aos céus em sinal de seu amor e de sua fidelidade. Paraagradecer, para expiar, para redimir, para suplicar, e também em outrasespeciais ocasiões durante o ano, estava sempre a figura do sacerdotecomo autoridade especial legitimada pelo próprio Deus a Moiséis, paraconduzir outros sacrifícios.

Desdeesse momento é possível traçar enormes paralelos entre o cordeiro, porassim dizer, do homem, e entre Jesus Cristo, o cordeiro de Deus. JesusCristo é aquele que dá o seu sangue todo para impedir a morte do seupovo eleito. É aquele que poupa a humanidade de morrer pelos desméritosde seus pecados, que alimenta a família humana e que protége a todos. Éaquele que liberta seu povo da escravidão da morte e do pecado e quelhes entrega uma promessa de uma terra eterna e sem fim. É aquele querenova uma aliança entre a terra e o céu de forma absoluta e perfeita,por sua total entrega e abandonado, inocente, puro, perfeito, dando suavida pela redenção de todos. É aquele que entrega sua vida pela trocade muitos sem pedir nada em troca, como no episódio de Isaac. É aqueleque na cruz tem os ossos poupados por morrer rapidamente para que “secumpram as Escrituras” (Jo 19,36), tamanho o horror que sofrera, e queum dia antes se dá de comer aos seus na última ceia.

Éinteressante notar que na antiguidade, anualmente no dia da Páscoa,alguns registros mostrem que mais de 255.000 cordeiros eramsacrificados no templo num único dia (Páscoa de 70 d.C.), e que porbaixo, cerca de 400.000 missas são realizadas todos os dias no mundo.Que os cordeiros que eram sacrificados no templo eram preparados comramo de hissopo e vinagre (Ex. 12, 22; Jo. 19,29), o mesmo preparadooferecido a Jesus durante sua via Crucis. Que Jesus fora condenado nahora sexta, a mesma hora que os sacerdotes iniciavam o preparo daimolação dos cordeiros e que cheio do Espírito Santo e da sabedoriaacumulada das escrituras, João Batista já exclamava com autoridadedivina a correlação entre Cristo e o cordeiro, como novo e definitivosacrifício de redenção do homem. Que as orações dos sacerdotes judeusforam mantidas na missa durante o momento do ofertório (Bendito sejaisSenhor Deus do Universo, pelo vinho que recebemos da vossa bondade,fruto da videira e trabalho humano e que agora irá se tornar… Benditosejais Senhor Deus do Universo, pelo pão que recebemos da vossabondade, fruto da terra e trabalho humano e que agora irá se tornar …)e que muitos dos primeiros cristãos eram martirizados acusados decanibalismo, tamanha convicção e estranheza de que na missa se comia opróprio corpo de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Aluz dessas realidades, a santa Missa ganha uma nova cor e um novosentido e é simplesmente impossível ficar indiferente face a tantasmísticas realidades escondidas no véu da liturgia. Vejamos por exemploum trecho da liturgia eucarística IV: “nós vos oferecemos o seu Corpo eSangue, sacrifício do vosso agrado e salvação do mundo inteiro”.Vejamos também outro trecho extraido da liturgia eucarística I ganhandonova clareza: “Recebei, ó Pai, esta oferenda, como recebestes a ofertade Abel, o sacrifício de Abraão e os dons de Melquisedeque. Nós vossuplicamos que ela seja levada à vossa presença, para que, aoparticiparmos deste altar, recebendo o Corpo e o Sangue de vosso Filho,sejamos repletos de todas as graças e bênçãos do céu”. Um olhar atentoa missa enxergará inúmeras outras referências a plenitude sacrificialdado por Jesus Cristo como cordeiro santo, como por exemplo a oração do“Agnus Dei” recitada no “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado domundo, tende piedade de nós…”, ou nas palavras do sacerdote queapresenta Cristo eucarístico a assembléia reunida na citação de SãoJoão Batista: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado domundo”.

SãoJustino, mártir, escreveu no ano 155 d.C. um importante relato que nosdemonstra como a liturgia sacrificial da missa se manteve praticamenteintacta desde os tempos apostólicos, até os nossos dias, e como longede ser um amontoado de regras e formalidades, a celebração eucarísticaé divina no conteúdo e na forma, e como desde o início do cristianismoera preciso comer o corpo do cordeiro de Deus para se ratificar a novaaliança como nos tempos de Moisés:

1.Nodia dito do sol (domingo) reúnem-se em um mesmo lugar todos oscristãos, os que residem nas cidades e os que residem no campo.
2. O leitor lê trechos tirados das memórias dos Apóstolos (Novo Testamento) e dos livros dos Profetas (Antigo Testamento).
3.Terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para explicaraos presentes o que foi lido e exortá-los a pôr em prática tão belosensinamentos (homilia).  
4. Em seguida, levantamo-nos todos e dirigimos a Deus orações e súplicas (súplica insistente ou ecteni, após o Evangelho).
5. Suspendendo as orações, abraçamo-nos uns aos outros (Ósculo da paz).
6.Depois levam àquele que preside a reunião dos irmãos em Cristo, pão eum cálice contendo vinho, misturado com água (Procissão do ofertório).
7.O Presidente toma o pão e o cálice, louva e glorifica o Pai do universoem nome de seu Filho e Espírito Santo; dirige-lhe abundantes ações degraças por ter-se dignado dar-nos estes dons (Anáfora).
8. Terminada esta ação de graças (Eucaristia) todos os presentes exclamam: Amém.
9.Depois os ministros que chamamos diáconos distribuem a todos ospresentes o pão da Eucaristia e o vinho misturado com água (Comunhão).Estes mesmos diáconos levam aos ausentes sua parte do pão e do vinhoeucarísticos.
10. Por fim, os ricos socorrem os indigentes (Coletas).

Épor isso que importa conhecer e reconhecer cada um dos significados daSanta Missa para vivenciarmos tudo quanto Cristo, que ensinou a divinaliturgia aos apóstolos, desejou para a humanidade. Na Santa Missa,Cristo toma o lugar do cordeiro santo, aquele que se oferece ahumanidade pela expiação dos pecados do mundo, e toma lugar dosacerdote oferecendo-se a sí mesmo em sacrifício perfeito para redençãode todos. Cada parte da missa concorre para o encontro com o Cordeiroque irá no altar ser imolado. Não é a toa que o Concílio Vaticano IIchama a sagrada liturgia de o "cume para qual tende a ação da Igreja e,ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força".

Noano 215 d.C. Hipólito deixou-nos, como Justino, um roteiro da liturgiaque rezamos ainda nos dias de hoje: “O Senhor esteja convosco. Ele estáno meio de nós. Corações ao alto. O nosso coração está em Deus. Demosgraças ao Senhor. É nosso dever e nossa salvação”. Vejam que grande eque significativo pode chegar a ser a santa missa. Mediante essessinais sensíveis presentes na sagrada liturgia chegamos a contemplarcom toda a riqueza e plenitude os mistérios do amor de Deus pela nossahumanidade. Compreender tudo o que essa mesma liturgia nos oferece échegar com maior rapidez e eficácia espiritual a esse cume, a essasalturas sagradas para onde nosso coração e nossa alma buscam semcessar: a própria essência de Deus.

Reunirem nome do Deus Trino (Saudação), confessar as culpas (Ato Penitencial,Mt. 15,22), agradecer o perdão (Glória, Lc. 2,14), ouvir sua palavra(Leituras, Salmo de Resposta e Evagelho, Rm. 10,17), reafirmar a fé(Profissão da fé), pedir ao Senhor (Oração dos Fiéis), oferecer nossosdons (Ofertório), louvar a Deus pelo seu Filho presente (OraçãoEucarística), receber o Pão da Vida nossa salvação (Comunhão) e serabençoado partindo na missão de viver a fé na vida cotidiana (Benção eDespedida) é o que significa participar da Santa Missa verdadeiramente.

Acimade tudo é preciso resgatar, e não subestimar, toda a obra salvíficafeita por Deus no período anterior a encarnação, que magnificamentecomplementa com novos sentidos e orientações toda a vida de piedadecristã. Que nossa próxima visita a uma igreja católica nos revista daimagem do próprio Isaac, que ao subir para o altar aonde seria imolado,encontra alí um cordeiro que dá a vida em seu lugar. Que em nossapróxima participação da santa missa, sejamos revestidos dos olhos deMoisés, que enxergou no sangue daqueles cordeiros, a salvação e aproteção do seu povo: de suas vidas. Que sobretudo, na nossa próximaEucaristia, façamos essa grandiosa descoberta na pessoa de João Batistade também poder exclamar: “Eis o cordeiro de Deus, aquele que tira opecado do mundo”. E sem dúvida alguma, seremos felizes, pois seremos os“convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro” (Ap. 19, 9).

Fonte: Veritatis Splendor – por Silvio L. Medeiros


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