Formação

O Magnificat

Para penetrarmos na profundidade do Canto do Magnificat, precisamos partilhar os mesmos sentimentos de gratidão, pela eleição misericordiosa de Deus, que perpassavam a alma de Maria e refletiam o sentimento de todo o povo judeu.

O povo judeu sabia que, dente tantos povos que adoravam outros e diversos deuses, ele havia sido escolhido para ser posse exclusiva do Deus Vivo, seu “povo particular entre todos os povos” (Ex.19,5), através do qual Ele se manifestaria no Messias tantas vezes prometido e tão ansiosamente aguardado através dos séculos.

Educada no Templo aos moldes da pedagogia rabínica, Maria havia decorado as inúmeras profecias que prometiam a vinda do Ungido, assim como os salmos, cânticos e passagens do Antigo Testamento que falavam do poder vitorioso do Deus fiel às suas promessas.

As palavras do Anjo Gabriel na Anunciação ressoavam poderosamente no coração da Virgem, em primeiro lugar, pela ação singular da graça especialíssima que anunciava, mas também porque no coração de Maria estavam guardadas palavras e promessas nas quais confiava e esperava. A estas palavras uniram-se a evidência do milagre em Isabel e sua saudação inspirada, e todo o ser de Maria explodiu na profunda alegria da certeza de que, dentre o povo separado para Deus, dentre aqueles que eram sua propriedade particular, ela, em especial, havia sido escolhida para o maior dos privilégios que qualquer homem jamais poderá experimentar, sem que tivesse sequer sonhado com isso:

“Minha alma glorifica ao Senhor, meu espirito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,”

A alegria de Maria vem de Deus e para Ele remete todo o seu ser virginal. Deus é a razão e a referência última de sua alegria. Ela se alegra e exulta em Deus, por causa de Deus e para glória de Deus, por causa de Deus e para a glória de Deus. Maria sabe bem que foi escolhida gratuitamente, por pura misericórdia daquele cujos desígnios são absolutamente livres. É então a Ele que sua alma e espírito glorificam e Nele que exultam em entrega absoluta movida pelo reconhecimento de sua bondade incomparável e pela gratidão de quem se sabe gratuitamente eleita.

“Porque olhou para sua pobre serva”.

Serva. Aquela que vive para fazer a vontade do seu Senhor. Aquela que vê no cumprimento da Sua vontade soberana o único sentido de sua existência. Aquela que jamais sequer cogitaria em viver fora Dele e para outra pessoa a não ser para Ele.

Colocar-se como serva do Senhor é parte essencial de toda a espiritualidade de Nossa Senhora; é a sua maneira de relacionar-se com Deus, de Ter a sua vontade unida à Dele em toda circunstância; é a razão de sua participação na missão redentora de Jesus, o eterno e primeiro Servo. Ser servo é dizer “sim” não só a Jesus, mas com Jesus, dizer “sim” ao Pai. É aceitar percorrer com Jesus o caminho de salvação, paixão, morte e ressurreição por amor ao Pai e para que se cumpra a Sua vontade no coração dos homens. Ser servo é “colocar-se no meio”, com Jesus e em Jesus, sendo mediador entre Deus e a humanidade. Ser servo é deixar que o Espírito inflame de amor nosso coração em caridade, cada vez mais ardente, para com Deus e para com os homens a quem Ele ama.

O servo é aquele que encontrou o caminho mais curto e eficaz para o amor concreto. Seu serviço a Deus enche-o de fervorosa caridade para com Ele, a quem obedece em absolutamente tudo, seu serviço aos homens é um trasbordamento amoroso de sua caridade para com Deus e o cumprimento de Sua vontade em Seus filhos. O servo é aquele que segue Jesus e Maria na característica mais singela e, no entanto, mais radical e maura de seu relacionamento para com Deus.

O servo descobre a um tempo o caminho da caridade e da humildade, da perseverança e da fortaleza, da prudência e da obediência, pois seu único referencial é sempre a vontade de Deus, inflamada pelo grande e ardente amor que a Ele o une. A posição de servo, que Jesus assumiu desde toda a eternidade, é a mais segura e mais perfeita imitação dos sentimentos e obras do Redentor e da Co-redentora que, incomparavelmente unida a Ele, mostrou-nos o segredo de em tudo agradar a Deus.
Jesus é o Servo por excelência. Por ser Servo obedeceu até a morte de cruz e nos salvou de nossa desobediência original. Maria é a Serva, perfeita imitadora do Filho, perfeita participante de sua eterna missão intercessora.

” Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é santo”.

Meditando esta parte do Magnificat não se pode deixar de admirar o grau de consciência e perfeita aceitação que Maria tinha de sua missão e vocação. Ë certo que não conhecia o correr dos acontecimentos futuros, que deveria viver na obediência diária da fé. No entanto, é evidente que, embora sem saber que acontecimentos envolveriam sua missão, Nossa Senhora tinha perfeita disponibilidade e aceitação do que Deus queria de sua vida.

“Asd gerações todas me proclamarão bem-aventurada porque Deus realizou em mim maravilhas”. Fica aqui clara a consciência de sua missão e eleição – “Não haverá jamais alguém tão feliz como eu” e a marca de sua humildade – a missão só se concretizou em virtude do seu livre e contínuo “sim” a Deus.
A bem-aventurada entre todos os homens, durante todas as gerações, prorrompe em louvor terno fervoroso e amoroso ao Deus santo, poderoso, cuja misericórdia faz maravilhas sem nenhuma explicação que não seja própria misericórdia.

” Sua Misericórdia se estende, de geração em geração sobre os que o temem.”

Maria ora agora como membro do povo judeu, eleito e temente a Deus. Fala também profeticamente, como membro do novo povo de Deus, povo conquistado ao preço do sangue de Cristo e que a Ele aderiu pela graça da fé. Ao mesmo tempo, a Mãe de Deus proclama um princípio eterno: a abertura e a ação da graça por parte dos que buscam viver segundo a vontade de Deus.

“Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.”

Maria conhecia bem o poder da ação de Deus; sabia do que é capaz o Seu braço quando encontra um coração temente, humilde e disponível; testemunha em seu próprio ser que tudo lhe é submisso.
Maria olha para si mesma uma anawin pobre serva de ahveh e deslumbra-se diante da evidência de que Deus reservou aos mais humildes a mais alta exaltação, que uma criatura humana jamais poderia Ter: ser a mãe do Verbo encarnado. Profetiza, também, que esta pequenez deverá ser característica imprescindível a todo aquele que, de fato, for de Deus. Ela será a primeira entre os humildes que, pequeninos, acolherão a revelação da economia do Reino de Deus.

“Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.”

No Reino não há lugar para os corações soberbos e nem para os que buscam o poder e as honras. A boa Nova não ressoa nos corações ricos de si, apegados a riquezas e prazeres, empanturrados de supérfluos e de aparências, fartos e auto-suficientes.

O Reino é anunciado aos pobres, humildes e vazios de si mesmos, que têm fome e sede de justiça e de paz. Estes têm fome e sede de justiça e de paz. Estes têm fome de Deus. Colocam-se diante Dele como necessitados, famintos, pequenos. Conscientes de sua indigência tudo esperam daquele que é a salvação. Estes, como crianças pequeninas, acolhem a Boa Nova, aceitam-na e a vivem.

Não há como nos desviarmos da verdade evangélica que norteou a vida de absolutamente todos os santos: tudo o que centraliza o homem em si mesmo é riqueza que não se coaduna com a pobreza necessária para a acolhida e vivência da verdade. Toda posse do necessário, ainda que seja um alfinete, é um bloqueio para a ação de Deus na alma que se enriquece e se fecha à graça, porque ama mais a si mesma que Àquele de Quem tudo recebe.

Jesus veio para anunciar a boa nova ao pobres, aos humildes, aos que buscam mais o Senhor que a si próprio. Antes que Ele o dissesse claramente, Sua Mãe, cheia do Espírito, compreendeu que havia sido inaugurada uma nova mentalidade, com características desconcertantes: o Deus Vivo escolhia uma pobre menina moça para, nela, fazer-se um minúsculo ovo; o Deus Todo Poderoso confiava-se a esta mesma jovem e dela dependeria. Antes de qualquer outra pessoa, a Mãe de Jesus aprendera, pelo que Deus fizera, a linguagem da Nova Aliança, onde Deus se faz pequeno e servo e ensina este caminho para que, seguindo-o, os homens sejam felizes.

“Acolheu a Israel, seu sevo, lembrando de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.

A que extremos chega a humildade de Maria! Sabemos que foi ela que, consultada por Deus acolheu o Filho do Altíssimo com o seu “fiat. No entanto, ela não vê este momento como uma escolhida que faz de Deus ( ela não se considera digna de tanto!), mas a ocasião onde Deus acolhe Israel, servo, escravo, propriedade Sua, entregue a povos e deuses estranhos, empobrecidos e indigno de aproximar-se do Todo Poderoso. Na ótica de Maria, a Encarnação do Verbo é o momento em que Deus acolhe Israel; o momento da misericórdia absoluta em que Ele se curva sobre a humanidade para receber a posteridade de Abraão, inserindo nela, como Deus e Homem.

Na verdade, haveria maneira mais radical e amorosa de Deus acolher o homem do que se tornando homem sem perder a sua identidade divina para, pela morte e ressurreição do Verbo inseri-lo na vida de Deus e habitar em sua alma para sempre? Era, de fato, a inauguração de uma nova economia. Deus não se limitava mais a dizer “façam isso ou aquilo”. Ele agora dizia: “eu me faço um homem, eu tomo a iniciativa, eu mesmo vou fazer no lugar de vocês, eu acolho vocês sendo um de vocês, porque os amo”.

Lembrando de sua misericórdia, Deus não trata Israel conforme suas obras, mas segundo o Seu coração compassivo e fiel. Maria compreende, profeticamente, a implicação do seu “cumpra-se em mim” e embora vá continuar a tatear na fé, pela virtude compreende e assume seu papel e missão na Nova e Eterna Aliança. Para ela contribui, humilde e definitivamente, com sua carne e sangue, serviço irrestrito, como mulher e como a Nova Eva que, livre e incomparavelmente feliz, canta as maravilhas do seu Deus.


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *