Formação

O mistério da iniquidade está em ação

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     Até aqui, S. Paulo denunciou o pecado da sociedade pagã doseu tempo, isto é, a impiedade que se manifestava na idolatria e traziaconsigo, como conseqüência, a desordem moral. Se quisermos agora seguir o seuexemplo e aceitar de fato a sua lição, não podemos deter-nos aqui e fazerigualmente uma simples denúncia da idolatria da sociedade greco-romana do tempodo Apóstolo; devemos fazer como ele, isto é, lançar os olhos à nossa sociedade— como ele fazia com a sua — e descobrir a feição que a impiedade assumiu nela.O Apóstolo arrancou a máscara do rosto dos pagãos; revelou como por trás detodo o orgulho por si mesmos, da elevação dos discursos sobre o bem e o mal eos ideais éticos, na realidade disfarçavam a auto-glorificação e aauto-afirmação do homem, isto é, impiedade e falsidade. Cumpre agora deixarmosagir a palavra de Deus e veremos como arrancará a máscara do rosto do mundomoderno e do nosso próprio rosto!

 

     Transportemo-nos, pois, para o mundo de hoje; atualizemos ehistoricizemos a Palavra de Deus, tentando ver se, e em que medida, ela tambémnos diz respeito, entendendo por ora “nós” no sentido mais genérico de “nós,homens de hoje”. S. Paulo concretizou a raiz do pecado na recusa de glorificare agradecer a Deus, na irreligiosidade, que ele denomina, com termo bíblico,impiedade. Em outras palavras, na rejeição de Deus como “criador” e de si mesmocomo criatura. Ora, nós sabemos que, na era moderna, esta rejeição assumiu umaforma consciente e descoberta que com certeza não tinha no tempo do Apóstolo eque, talvez, nunca teve em outra época da história. Por isso devemos reconhecerlogo que “o mistério da iniqüidade está em ação” (cf. 2Ts 2,7); ele é umarealidade atual, não uma simples evocação histórica ou especulação metafísica.

 

     Se insisto no pecado contra Deus — a impiedade —, não o façopor não existir em nosso mundo também o pecado contra o homem, ou por não sereste igualmente grave, mas porque ele, hoje, é reconhecido e denunciado portoda a parte, ao passo que o pecado contra Deus, que é a sua raiz, não mais sereconhece, ou é subestimado. O pecado contra o homem serve até de pretexto paranegar o pecado contra Deus. “Todo o pecado — foi escrito ironicamente numadiatribe contra o cristianismo — é uma falta de respeito, um delito de lesa-majestadedivina, e nada mais!… Se, por outro lado, se provoca um dano com o pecado, secom ele deita raízes uma grave e crescente calamidade que, como um contágio,aferra e estrangula os homens um depois do outro — tudo isto deixa indiferenteem sua sede celestial esse oriental ávido de honrarias: pecado é a ofensacometida contra ele, não contra a humanidade!” (F. Nietzche).

 

     Quem escreveu tais palavras (e levianamente continua aapropriar-se delas) evidentemente não se lembra que é precisamente este Deusoriental, “ávido de honrarias”, quem diz, em Isaías, que não sabe o que fazercom o incenso, as orações, festas e sacrifícios, caso não se socorra o oprimidoe não se faça justiça ao pobre, e quem não aceita outro jejum senão o queconsiste em “desatar as cadeias, socorrer os oprimidos, repartir o pão com ofaminto e vestir quem está nu” (cf. Is 1,10ss) e não se lembra de que, dos dezmandamentos dados por ele à humanidade, só três se referem às obrigações paracom Deus, ao passo que todos os demais respeitam os deveres para com os homens.

 

     Mas o motivo pelo qual insisto no pecado de impiedade éainda mais profundo do que isso, e é que em toda esta parolagem sobre o pecadocontra o homem — na qual se prescinde da Palavra de Deus — perde-se o conceitomesmo de pecado. Pecado não é mais “aquilo que é mau aos olhos de Deus” (cf. Sl51,6), mas o que é mau aos olhos do homem. O homem determina o que é pecado,resolve por si mesmo o que é com e o que é mau; traça autonomamente a sua moralprogredindo na história, “como um rio que, avançando, cava sozinho, o próprioleito”.

 

     E isto significa recair na impiedade. Sem se dar conta,acaba-se dando uma definição do pecado perfeitamente “egoísta”. De fato, quandose contrapõe o pecado contra o homem ao pecado contra Deus, como nas palavrasacima citadas, não se entende por homem o homem “em si”, mas o homem “em mim”,isto é, o nome que se identifica com a minha classe, a minha ideologia, os meusmotivos, ou que posso aduzir como argumento contra meus adversários, para demonstrar-lhesa sua culpa. Quase nunca é o homem contra o qual eu peco, mas sempre o homemcontra o qual os outros pecam. Destarte, essa “nova moral” que se estruturaprescindindo de Deus acaba, o mais das vezes, sendo igual à dos pagãos, “umvício esplêndido”, uma veste sedutora com que o egoísmo humano tenta encobrir aprópria nudez. Com ela pode-se justificar até a supressão da vida inocente,como de fato acontece na prática do aborto, hoje generalizada e legalizada.

 

     O pecado é o que é, e “se eleva a uma potência infinita”, sóonde Deus está de permeio, quando quem peca existe e age na presença de Deus,quando, em outras palavras, Deus lhe serve de medida. Também o pecado contra ohomem eleva-se a uma potência infinita, mas precisamente porque Deus está depermeio e também ele contrapõe-se a Deus. Voltemos, pois, sem nos deixar embairno engano, à tarefa que a Palavra de Deus nos atribui, que é denunciar aimpiedade do mundo, e isto com um objetivo bem determinado: o de tomarconsciência de que, à nossa volta, está ocorrendo uma guerra entre dois“reinos”, diante da qual não podemos permanecer neutros, e o de nos livrarmos,por isso, da superficialidade e de um certo otimismo ingênuo e pouco bíblicoreferente ao “mundo”. Ouçamos algumas vozes mais conspícuas que exprimiram arejeição de Deus em nossa cultura atual, tendo presente, contudo, que nósjulgamos as palavras e não as intenções e responsabilidades morais das pessoas,só de Deus conhecidas, e que poderiam ser muito diferentes do que se nosafiguram.

 

     Karl Marx motivou assim a sua rejeição da idéia de um“criador”: “Um ser só se revela independente enquanto é senhor de si, e só ésenhor de si enquanto deve a existência a si mesmo. Um homem que vive pela‘graça’ de outro é considerado ser dependente… Mas eu viveria completamentepela graça de um outro se ele tivesse criado a minha vida, se fosse à fonte daminha vida e esta não fosse minha própria criação” (K. Marx, Manuscritos de1844). A consciência de um homem é “a mais excelsa divindade”; “a raiz do homemé o próprio homem” (Crítica da filosofia do Direito de Hegel). Outra voz muitoconhecida neste campo é a de J. P. Sartre: “Eu mesmo — faz ele dizer a umpersonagem seu — me acuso hoje e só eu também posso absolver-me, eu, o homem.Se Deus existe, o homem nada é… Deus não existe! Felicidade, lágrimas dealegria! Aleluia! Não mais céu. Não mais inferno! Nada mais do que a terra” (J.P. Sartre, O diabo e o bom deus).

 

     Mas, na realidade, “não mais inferno”? Os homens de hojeespecialmente os “intelectuais”, devem saber de onde provém este pensamento,segundo o qual o homem deve arvorar-se em fundamento último de si mesmo, seuverdadeiro descobridor… É dever de quem anuncia a Palavra de Deus revelar-lhopara que cessem de enganar-se e enganar os simples e comecem também eles a“tremer”. O Novo Testamento fala muitas vezes de um “renascimento” do homem,descrito de vários modos, como renascimento “do alto”, “do Espírito”, “daPalavra de Deus”… S. João o descreve como um renascimento “não da vontade dacarne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (cf. Jo 1,13).

 

     Ora, também Satanás, quando Deus lhe permite “abeirar-se” decertas almas para tentá-las, propõe-lhes um renascimento. Isto corresponde a umhábito seu que é de arremedar as obras de Deus. Também o Maligno, pois, propõeao homem renascer, mas renascer precisamente “da vontade do homem”, isto é, desi mesmo, não de Deus. Tal renascimento consiste na decisão lúcida de dar umnovo começo à própria existência, desembaraçando-se de toda a dependência econsiderando-se senhor absoluto de si mesmo. Deus, por vezes, nos seusdesígnios misteriosos, permite ao inimigo sugerir semelhante pensamento até asalmas que lhe são caras, para purificar-lhes a fé, e então sucede uma coisamisteriosa e tremenda que algumas destas almas descreveram para nossoencantamento.

 

     O espírito do homem vive, por alguns momentos e como emprovação (isto é, sem verdadeiro consentimento e responsabilidade moral), aembriaguez da liberdade satânica; sente em si um orgulho e um poderdesmesurados, parece-lhe encontrar em outro universo do qual é soberana. Tem asensação de poder tudo. Compreende o que significa a expressão usada nosevangelhos para descrever a tentação de Jesus no deserto: “Ele o conduziu aoalto” (Lc 4,5); de fato, a alma sente-se como librada acima do mundo, numadimensão que é puramente interior, mas vivida de tal sorte que parece real efísica. Experimenta uma espécie de êxtase, mas de sinal negativo, isto é, nãovoltado para a luz, mas para as trevas e o abismo.

 

     Ao cessar o poder da sugestão satânica, a pessoa, atônita,pergunta-se: “Mas o que aconteceu? Que era isso?”, e, à luz de Deus, descobre oengano; percebe que o Maligno, mais uma vez, mentiu e descobriu-se para danopróprio. O renascimento da “vontade do homem” é, na realidade, um renascimento“da veleidade do homem”; é, portanto, uma veleidade de renascimento, não umrenascimento real. De fato a criatura, inclusive Satanás, pode aspirar a talcoisa, mas não a pode efetuar, pois ninguém pode agir como se não houvesserecebido o próprio ser de Deus, muito embora o desejasse.

 

     Assim, esta veleidade só faz crescer o desespero de Satanáse dos que, por desventura, o seguem nesta trilha. Ao invés de eliminar oinferno, essas afirmações, portanto, o demonstram. Mas o segredo do inferno queSatanás só descobre aos que mais não podem voltar atrás e cair na conta estátodo incluído nestas palavras: “Eu existo e persisto em virtude do engano”. Elese firma no engano. Faz parecer bom o que é mau, ou faz estimar como malpequeno, inevitável, que todos cometem, aquilo que, ao invés, é grande mal;diz, como fez com Eva: “Não morrereis, pelo contrário…”, enquanto bem sabiaque a conseqüência seria precisamente a morte.

 

     Outro modo de abolir por prepotência a diferença entre oCriador e a criatura, entre Deus e o “eu”, consiste em… Confundir um com ooutro, e esta é a forma que hoje a impiedade por vezes adota, no âmbito dapsicologia profunda. O que Paulo exprobrava aos “sábios” do seu tempo não eraestudar a natureza e admirar-lhe a beleza, mas ficar nisso; assim também o quea Palavra de Deus exprobra hoje a certa psicologia profunda não é terdescoberto uma nova zona do real que é o inconsciente humano e procurar deitarluz sobre ela, mas ter feito desta descoberta a enésima ocasião para livrar-sede Deus. Desta sorte a Palavra de Deus presta um serviço à própria psicologia,purificando-a, do que a ameaça, como de resto a psicologia pode servir, por suavez — e efetivamente tem servido em muitos casos —, para purificar a nossainteligência da Palavra de Deus.

 

     A impiedade que se aninha em algumas tendências maisrecentes desta ciência é a supressão da distinção entre o bem e o mal. Com umprocedimento que lembra de perto a velha gnose herética, dilatam-seperigosamente as fronteiras: a fronteira do divino para baixo e a fronteira dodemoníaco para cima, até confinarem uma com a outra, e sobreporem-se vendo nomal nada mais do que “a outra face da realidade” e no demônio, nada mais do que“a sombra de Deus”. Nesta linha, há quem se adiante a ponto de acusar ocristianismo de ter introduzido no mundo “a nefasta contraposição entre o bem eo mal”.

 

     Lemos em Isaías uma sentença que parece ter sido pronunciadahoje mesmo, para a situação atual: Ai daqueles que chamam bem ao mal e mal aobem, que trocam as trevas em luz e a luz em trevas (Is 5,20). Para ospsicólogos desta orientação, o importante não é “salvar a alma” (isto é, postocompletamente em ridículo), nem sequer “analisar a alma”, mas “manipular aalma”, isto é, permitir à alma humana — ou seja, ao homem natural — exprimir-seem todas as direções sem coibir nenhuma. A salvação consiste na auto-revelação,em manifestar-se o homem e sua psique por aquilo que é; a salvação consiste naauto-realização.

 

     Atribui-se ao sonho mais verdade e importância que à Palavrade Deus, à doutrina da Igreja, ao bom-senso e à experiência multissecular. Asalvação — pensa-se — está dentro, imanente ao homem; não vem da história, masdo arquétipo que se manifesta no mito e no símbolo; vem, em certo sentido, doinconsciente. Este último que a princípio era considerado sede do mal, onde seradicam as neuroses e as ilusões (entre as quais a “ilusão” de Deus), com umadesconcertante evolução numa “ciência”, agora é visto potencialmente como sede(se assim se pode dizer) do bem, como uma mina de tesouros escondidos ao homem.Quando rejeita, de saída, qualquer verdade revelada e qualquer referência àPalavra de Deus, o pensamento secular acerca do homem nada mais faz que oscilarentre uma afirmação e o seu oposto, sem nenhuma consistência, e deteriorar aspróprias conquistas, misturando-lhes o erro.

 

     “Tendo-se apartado da Verdade — dizia Sto. Irineu dosantigos gnósticos —, agitam-se em todos os erros deixando-se bambolear poreles; conforme as ocasiões pensam sempre diferente acerca dos mesmosargumentos, sem jamais ter um pensamento estável, porque preferem ser sofistasdas palavras a ser discípulos da verdade. Não estão fundados na rocha única,mas na areia” (Sto. Irineu, Adv. Haer.). Um dia, depois de ter lido almas obrasde psicologia profunda repletas das idéias aqui apontadas, impressionado eassustado, eu andava a perguntar-me que “juízo” faria Deus de tudo aquilo e aresposta veio-me inequívoca dentro em pouco, da leitura destas palavras deJesus no evangelho de João: O juízo é este: a luz veio ao mundo, mas os homenspreferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más (Jo 3,19). O EspíritoSanto tem o poder de “convencer de pecado” também o mundo da psicologiaprofunda, orgulhoso e descuidado de Deus, ainda todo embriagado com a próprianovidade e o próprio sucesso.

 

     E, todavia não atingimos o fundo. As formas de impiedade queserpeiam no âmago da filosofia e da psicologia são mais perigosas porquepropaladas por todos os meios, erigidas, em certos lugares, em sistemaspolíticos, impingidas acriticamente aos jovens nas escolas e universidades,porque afetam as idéias e os princípios que são o ponto nevrálgico de qualquercultura, porque, afinal, se acobertam com o prestígio de que hoje goza apalavra “ciência”; mas não são em si mesmas, as mais graves. Há nelas muitapresunção e não raro muita ignorância da verdadeira e autêntica experiência defé.

 

     À nossa volta, algo há bem mais tenebroso que preocupamenos, só por se manter oculto. Junto à negação intelectual de Deus do ateuconvencido (honesta ou desonestamente) de que Deus não existe, há a negaçãovoluntária de quem rejeita a Deus, embora saiba que existe, e o desafiaabertamente dizendo: Eu não me submeto! “Non serviam!” Esta forma extrema depecado, que é o ódio a Deus e a blasfêmia, traduz-se pelo insulto aberto eameaçador contra Deus, em proclamar com alto e bom som, com sinais e gestosnefandos, a superioridade do mal sobre Deus, das trevas sobre a luz, do ódiosobre o amor, de Satanás sobre Deus.

 

     Ela é manobrada diretamente por Satanás; de fato, quem maisdo que ele seria capaz de conceber o pensamento que “o bem é um desvio do male, como todo o desvio, secundário e destinado há desaparecer um dia”, ou que “omal não passa, na realidade, de um bem mal entendido”? As manifestações maisevidentes desta forma de impiedade são: a profanação da Eucaristia (o ódio desmedidoe totalmente desumano contra a hóstia consagrada é uma terrível contraprovanegativa da “presença real” de Cristo na Eucaristia para quem dela precisasse);a paródia, em estilo obsceno e sarcástico, das narrativas e ditos de Deus naBíblia; a encenação da figura de Cristo em filmes e espetáculosintencionalmente dessacralizantes e ofensivos. O objetivo último é a perda dasalmas e a luta contra a Igreja.

 

     Para despachar uma alma ao seu infernal senhor, essaspessoas são capazes de uma constância e de uma multiplicação de meioscomparáveis aos que só os mais santos dentre os missionários sabem pôr em açãopara lucrar uma alma para Cristo. Eu não sei a que aludiria concretamente S.Paulo quando escreve aos Efésios: De tudo o que é feito por esses em segredo, évergonhoso até falar (Ef 5,12); sei, contudo, que estas palavras se aplicam àletra, à situação que estou descrevendo.

 

     Por outro lado, tal situação não é tão remota como muitoscristãos poderiam imaginar; pelo contrário, é uma voragem aberta a dois passosda indiferença e da “neutralidade” em que eles vivem. Parte-se do abandono detoda a prática religiosa e acaba-se, um triste dia, entre os inimigos abertos edeclarados de Deus, e isso ou pela adesão a organizações cujo objetivo(inicialmente mantido oculto à maioria) é guerrear a Deus e subverter osvalores morais, ou por causa das aberrações sexuais e de um certo consumo depornografia, ou em conseqüência de contatos imprudentes com magos, espíritas,seitas esotéricas e outra gente deste jaez.

 

     De fato, a magia é outro modo e o mais grosseiro, desucumbir à velha tentação de ser “como Deus”. “A força oculta que norteia amagia — assim se lê num manual deles — é a sede de poder, O objetivo do magodefine-se primordialmente, com assaz propriedade, pela serpente do jardim doÉden… A eterna ambição do adepto das Artes Negras consiste em adquirir podersobre todo o universo e fazer de si mesmo um deus”. Não importa se, na maioriados casos, se trata de pura charlatanice; basta a intenção ímpia com que seexerce esta arte, ou se recorre a ela, para fazer cair sob o poder de Satã.Ele, na realidade, opera mediante a mentira e o logro, mas os efeitos da suaação nada têm de imaginários.

 

     Na Bíblia, Deus diz: Não se encontre em teu meio… quemexerça a adivinhação, ou o sortilégio, ou o augúrio, ou a magia; ou feitiços,nem quem consulte os espíritos, nem quem interrogue os mortos, porque qualquerum que faça essas coisas é objeto de abominação para o Senhor (Dt 18,10-12), eno profeta Isaías encontramos esta severa advertência: o Senhor ferirá o paísporque este “regurgita de magos orientais e de adivinhos” (cf. Is 2,6). Oshomens só têm dois caminhos lícitos para conseguir poder sobre si mesmos, sobreas doenças, sobre os acontecimentos, sobre os negócios, e estes dois caminhossão a natureza e a graça.

 

     A natureza indica a inteligência, a ciência, a medicina, atécnica e todos os recursos que o homem recebeu de Deus na criação, paradominar a terra na obediência a ele; a graça indica a fé e a oração com que,por vezes, se obtêm até curas e milagres, sempre, porém, provindos de Deus, jáque “o poder pertence a Deus” (Sl 62,12). Quando se envereda por um terceirocaminho, o da procura de poderes ocultos, conseguidos por meios ocultos, comoque às escondidas de Deus, dispensando a sua autorização, ou certamenteabusando do seu nome e dos seus sinais, então logo entra e cena, de um modo oude outro, o senhor e pioneiro deste terceiro caminho, aquele que disse um diaque todo o poder da terra é seu e que o dá a quem lhe apraz, contanto que oadore (cf. Lc 4,6).

 

     Nestes casos a ruína é certa; o mosquito caiu na teia da“grande aranha” e dela não sairá facilmente vivo. Está acontecendo na nossasociedade tecnológica e secularizada exatamente o que Paulo observava: Enquantopretendiam ser sábios, tornaram-se estúpidos (Rm 1,22): abandonaram a fé paraabraçar toda a espécie de superstições, até as mais pueris.

 

     Deste tipo extremado de impiedade, que é desprezo de Deus,não estão ao abrigo sequer os que moram na casa de Deus, isto é, os sacerdotes,religiosos, frades e freiras. Começa-se a tomar “liberdades”, passa-se aosacrilégio e acaba-se num estado de rebelião surda e luta contra Deus. S.Bernardo a define “liberdade de pecar” e “hábito do pecado” e assim a descrevenum monge: “Já que por um terrível juízo de Deus a impunidade vai ao encalçodas primeiras culpas, sucede que o prazer, uma vez provado, repete-se e,repetido, enche de ilusões. Desperta-se a concupiscência, a razão adormece…Doravante só usa aquilo que lhe agrada, em vez daquilo que é lícito, como senão fizesse diferença alguma; doravante nada mais contém o seu ânimo, as suasmãos ou seus pés de pensar, cometer, procurar o proibido, mas tudo o que lheacode à mente, à boca, entre mãos, ele o trama, o executa; mau, vaníloquo,desonesto” (S. Bernardo, De grad. hum. et super.).

 

     Diz um salmo: Por que te gabas do mal, ó prepotente na suainfâmia? (Sl 52,1). Chegado a este ponto, o obstinado se gaba do mal, e até domal acha modos de auferir glória, fazendo-o passar por sinceridade e rejeiçãoda hipocrisia, sem se dar conta de que algo há ainda mais grave que ahipocrisia e a jactância do pecado (cf. Is 3,9); de fato, o hipócrita,disfarçando o seu pecado, mostra que ainda reconhece a superioridade do bemsobre o mal, presta homenagem à virtude, ao passo que quem se jacta do pecadomostra que também ultrapassou esta última barreira.

 

     Se presta atenção, percebe-se que seus discursos contêmsempre um sutil laivo de acusação contra Deus, por causa dos seus mandamentos“impossíveis” e opostos à felicidade do homem. Qualquer preceito da moral évolatilizado com sutis distinções, de sorte a justificar toda a liberdade.Chega-se a fazer apologia aberta do pecado e o mesmo pecado é imputado a Deuspor não conceder a sua graça! Tudo isso porém, de forma ambígua, dizendo edesdizendo, de modo a sempre deixar a possibilidade de fazer pé atras, e não secomprometer a ponto de ver-se obrigado a assumir as próprias responsabilidadese renunciar a um estado no qual, entrementes, se lograram todas as comodidades.


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