Formação

O Pai que chama é o mesmo que envia e sustenta

Sentia-me desanimada e enfraquecida vocacionalmente; cansada nos afazeres em meu trabalho e na faculdade; sufocada pelas mentalidades mundanas. Necessitava respirar intensamente os ares da presença de Deus e da vivência da vocação.

Então Deus, em sua sabedoria e imensa misericórdia, utilizou-se da Reciclagem do ano passado para inquietar o meu coração. Ao voltar para casa, não entendia o que acontecia comigo, pois tudo o que fazia parte do meu cotidiano tornara-se insuficiente para preencher e pacificar o meu interior.

Os dias passavam e a inquietação aumentava, até que um dia, de forma bem rápida, disse a um irmão de vocação como vinha me sentindo desde a Reciclagem e ele foi um instrumento que Deus utilizou para fazer calar em meu coração a sua vontade. Ele disse: “Você está sendo chamada a ir em missão!” Não foi nada fácil ouvir isso. Em alguns segundos, muitas coisas e pessoas passaram em minha mente; e só aí pude perceber a seriedade do que havia descoberto.

Iniciou-se a fase dos inúmeros questionamentos, pois olhava para as situações em que me encontrava e não via como deixar minha família, não defender a monografia, não aceitar a proposta de promoção funcional que me foi feita e ainda deixar um relacionamento que também me ensinou a tomar decisões.

Fui invadida por um misto de sentimentos; pensei que não seria capaz de suportar a instabilidade em que me encontrava. Quando acordava dizia “sim” a Deus, mas quando deitava não tinha tanta certeza se estava disposta a dar esse tempo a Ele.

No primeiro dia de janeiro deste ano, tive certeza que a missão era a vontade de Deus para mim, pois sem que eu houvesse partilhado com a minha formadora, ela veio falar exclusiva e simplesmente nesse assunto. Acreditam? Nessa noite não dormi. Ainda sentia medo de tudo; principalmente da vida comunitária. Porém, o Espírito já preparava o meu coração para docilmente acolher o novo.

Hoje sou missionária na Diocese de Rio Branco, no Acre, e tenho certeza que estar aqui é um dos frutos do Ano Jubilar, uma resposta de Deus aos desejos íntimos do meu coração; anseios que desconheço, mas que Deus, no seu tempo, faz acontecer o milagre de cada dia.

Estou descobrindo a beleza da vida comunitária. Ela tem sido palco de muitas lutas, mas também me ensina a ser família. Estou convicta de que tenho duas “posses”, dois bens, dois tesouros: Deus e os irmãos.

Renovar a opção que fiz em 99, quando entrei na Comunidade de Aliança, e a decisão que tomei em fevereiro de 2001, quando pedi para ser enviada em missão, tem sido o primeiro ato de todas as manhãs, desde que cheguei aqui. Pois humanamente não sou capaz de corresponder, mas a graça de Deus está sobre mim e por isso, dia após dia, a novidade acontece.

Nos primeiros dias que fui para o Recanto da Criança, parei e perguntei a Deus se Ele não havia se confundido. Olhava cada criança, analisava racionalmente cada situação, cada história e ficava enlouquecida; o desespero tomava conta de mim, pois não sabia como agir, então voltava para Deus e perguntava: “Você tem certeza que é isso mesmo?” Por algumas semanas não percebia os sinais que Ele me dava, mas aos poucos fui colhendo os frutos de estar com cada criança e sair da minha saudade, limitação, orgulho, indiferença, e verdadeiramente me envolver na vida delas. Hoje amo cada uma delas, com sua sofrida história.

Olhar para elas e ver que começam a perceber a vida de outra maneira, tira de mim o cansaço do cuidado com elas e o cotidiano da casa.

Ah, como é maravilhoso sentir que começo a fazer parte delas e como se voltam para nós, Shalom, e sentem confiança, segurança, amor. Elas só querem amar e precisam ser amadas. Isso é fantástico!

Posso afirmar que a mudança de vida pela qual passo é obra unicamente daquele que me criou. Acredito que esse Pai é o único capaz de todos os dias renovar as minhas forças para me doar naquilo que é realidade para mim, simplesmente por não ter mais como me esconder do olhar penetrante de quem me conhece e se decidiu em me querer mais perto de si, dentro do seu coração.

Sim, dentro do seu coração é como me sinto, às vezes por ter certeza do amor que me envolve e outras por sentir a dor do coração do homem. Descobri que existe um mundo cheio de almas sofridas e nesses homens Deus habita. Então, já não posso ser indiferente.

E nesse tempo, em que muitas lutas se travam dentro, posso recorrer a Maria e encontrar nela um lugar para mim, pois tenho recebido muito mais do que deixei. Sou muito, muito, muito feliz e grata a Deus!

Texto da Assessoria Vocacional Shalom.
Lília Simone Guedes Bacelar


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *