Institucional

O que busco no namoro?

tumblr_layr3bDPcu1qcangoo1_500Sabemos que Deus não criou o homem para viver só. Na infância, os meninos e as meninas procuram seus pares para descobrirem o mundo à sua volta, para se identificarem em suas características físicas e psíquicas. A convivência em grupo ajuda-os a crescer de forma saudável.

Na adolescência, todo o ser da pessoa se desenvolve e busca uma relação mais profunda com o sexo oposto. Deus disse: “Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18). É na adolescência que se desperta toda a força de atração afetiva (sexual) entre homem e mulher.

Homem e mulher se atraem mutuamente, especialmente para a complementaridade querida por Deus, independente de haver união de corpos. A pessoa deseja viver uma complementaridade que lhe realize. E, claro, existe a atração física forte para que se garanta a continuidade da espécie humana sobre a terra.

É, pois, a partir da adolescência que se amadurece o desejo de dividir a vida com alguém com quem se tem afinidade, atração, desejo de compartilhar tudo, como o fazem os que se amam. O namoro, nessa perspectiva, pode ser visto como o caminho que prepara a pessoa. Nesse processo, ela vai se conhecendo, conhecendo a natureza do sexo oposto, descobrindo afinidades, diferenças, enfrentando desafios, em vista de, posteriormente, sentir-se preparada para uma vida a dois.

Por isso, o namoro não pode ter um caráter inflexível, determinista, pois prejudicaria a liberdade necessária para a preparação ao matrimônio. O apego excessivo, a dependência afetiva, as relações de dominação são entraves ao amadurecimento dos dois. Manter a afetividade nas próprias mãos é um aprendizado que exige a busca do autoconhecimento, a força que emana de uma vida cheia de sentido, e o esforço do autodomínio – realidades estas que são fortalecidas com a graça de Deus através da vida espiritual. Quando o desequilíbrio afetivo não é superado por este caminho, faz-se necessário a ajuda profissional da psicoterapia.

Manter a afetividade nas próprias mãos é uma necessidade para que se faça uma boa escolha, um bom discernimento. A afetividade sadia (em equilíbrio) diz respeito, portanto, à autonomia e à liberdade interior, que devem ser cultivadas entre os dois. Ou seja, não se deve centralizar todas as forças no relacionamento de namoro, mas manter as amizades, fortalecer a vida espiritual, com engajamento em vista do serviço aos outros, continuar a investir na própria vida (família, estudos, trabalhos, cuidados consigo, etc.).

Essa saudável distância afetiva ajudará a fazer a leitura do relacionamento com mais equilíbrio e de forma mais consciente, considerando alguns aspectos que são essenciais para a decisão pelo matrimônio: valores comuns, afinidades, espiritualidade, sentido de vida, maturidade, entre outros.

A liberdade interior está relacionada também a capacidade de estar só. Se não sou capaz de estar comigo mesmo, viverei para agradar os outros, estabelecerei dependência afetiva de alguém e, no fim, viverei a insatisfação e a frustração pessoal: “Se não conseguirmos reconhecer e aceitar a própria identidade, a procura do outro será fuga de nós mesmos. Quanto mais inseguros formos tanto mais sentiremos dificuldade de viver em comunhão: nossa tendência será a de defesa ao invés de ser doação; precisaremos do outro para sentir-nos seguros e gratificados. Desta forma não poderemos amar o outro por aquilo que ele é, mas tão somente por aquilo que dele podemos receber” (MANENTI, p.50).

Preservar a individualidade é uma exigência do crescimento. Quanto mais uma pessoa tiver identidade própria, mais será capaz de doar-se desinteressadamente. É a aceitação madura de si que permitirá relacionar-se quase sem ansiedade e hostilidade, evitando dois extremos: dependência e independência em relação aos outros. Nesse caso, há a flexibilidade, a tolerância e o respeito por si e pelo outro.

Muitas vezes, numa postura ainda imatura, a pessoa pode buscar o namoro:

Para não ficar só, ou porque se sente inadequada quando está em grupo;

Por carência afetiva. Daí, sai em busca de companhia, sem refletir mais detidamente sobre quem é o outro;

Por falta de aceitação profunda de si, buscando alguém que a confirme;

Por baixa autoestima, desejando ser amada e valorizada;

Porque acredita que quem está só pode não ser bem visto no meio social;

Porque sente necessidade de amparo, proteção e de quem alimente seu ego, às vezes, necessitado de afeto e reconhecimento;

Por projetar sua necessidade de valorização e segurança naquele(a) que escolhe por ter prestígio, por ser bonito(a), ter qualidades semelhantes ao “tipo ideal” que alimentou, etc.

Essa necessidade de comunhão inerente a cada ser humano não pode ser confundida com projeções que possamos alimentar até de forma inconsciente e possivelmente egocêntrica.

“A comunhão não exonera da solidão: cada qual deve caminhar sozinho e assumir a responsabilidade do próprio crescimento, mesmo com a ajuda do outro. Esquecendo-se disto, realizam-se casamentos simbióticos nos quais se pretende fazer tudo em comum, pensar sempre da mesma maneira, ser dois irmãos siameses cujo vínculo, com o passar dos anos, torna-se sufocante e intolerável” (MANENTI, p. 52).

A comunhão autêntica é fruto da abertura à unidade na diversidade. Da construção de um “nós”, a partir de cada “eu” livre e autônomo, responsável pela própria vida, em crescimento – aquele crescimento genuíno que vai prescindindo das recompensas e da satisfação das próprias expectativas em relação ao outro, aceitando-o com sua identidade própria. Cada um é responsável pelo próprio crescimento. E essa motivação já deve ser buscada a partir do namoro.

Relacionamento a dois requer complementaridade e, ao mesmo tempo, autonomia, o que não significa independência egocêntrica ou individualismo.

O processo do autoconhecimento é uma necessidade para que o relacionamento a dois cresça saudável. Os primeiros anos da vida vão definir nossas futuras relações: “Se houve bloqueios e deformações na vivência das fases normais da infância, nossas relações se ressentirão disso. A relação terá dificuldade de ser promotora de identidade e lugar de transcendência, uma vez que está ainda condicionada pelo passado conflitante das pessoas. E, assim, surgem relações de transferências: as deformações são inconscientemente transferidas para a relação presente, dando-lhes um caráter de repetição ao invés de novidade” (MANENTI, p.60).

Poderíamos aqui exemplificar algumas atitudes que expressam um pouco essas deformações: a mulher que deseja e pressiona o homem para que corresponda exatamente ao “modelo” que ela sonhou, que satisfaça suas necessidades de todas as ordens; o homem que, narcisicamente, utiliza-se da mulher como objeto (pela sua beleza, pelo seu prestígio) e, depois de saciar-se, já não demonstra mais interesse por ela; a mulher que procura no homem as características do pai e o pressiona para correspondê-las; o homem que deseja ser cuidado meticulosamente pela “mãe” e considera um dever da esposa satisfazê-lo plenamente; a pessoa que necessita de elogios constantes, que não aceita fracasso, que rejeita os limites do outro e o subestima sempre; a necessidade de identificação mútua em muitos aspectos, para se sentir seguro, desenvolvendo dependência afetiva recíproca. Sem falar das expectativas dominadoras que muitas vezes são geradas sobre os filhos, que podem se tornar objeto da realização narcísica dos pais: “Quero dar aos meus filhos tudo aquilo que eu não tive”; “quero fazer do meu filho um grande médico, pois eu…”; “minha filha terá uma ‘faraônica’ festa de 15 anos, porque…”; “meu filho tem que ter nota dez na escola…”.

Será necessário que tais realidades sejam identificadas e enfrentadas para que haja amadurecimento. Na Comunidade Shalom, existe o caminho Ordo Amoris, com cursos que ajudam no autoconhecimento e amadurecimento humano, oferecidos por meio de leituras, palestras, oração e acompanhamentos. É recomendável que todas as pessoas, independente do seu estado de vida, busquem trilhar essa caminhada para bem perceber e viver os desígnios de Deus a seu respeito.

No caso daqueles que buscam a realização do seu estado de vida no matrimônio, devem mais ainda trilhar esse caminho em vista da responsabilidade pela nova família que almejam construir. Os formadores pessoais e comunitários, acompanhadores e diretores espirituais devem motivar e acompanhar os formandos neste caminho.

Laura Martins

Livro “Namoro Cristão – Rumo à Maturidade no Amor”

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