Formação

Oração

A liturgia desse domingo passado nos reinsere no drama do cego de nascença que a partir do encontro com Cristo volta a enxergar. Imagino que por isso, seja tão oportuno o mergulho nessa passagem sob um ângulo agora muito particular.

Dentro da vocação, e até mesmo antes dela, nos foi confiado o pastoreio de um povo. Seja no nível de formação pessoal, acompanhamento, vocacional, coordenador de grupo de oração, ministérios etc. Temos um povo em nossas mãos, colocado pelo próprio Deus nessa circunstância tão vulnerável. Como não lembrar-se de Jesus diante de Pilatos repetindo que nenhum poder teria se não lhe tivesse sido dado do alto?

Mas a verdade é que este povo nos é dado constantemente e que nós, se bem entendemos o Evangelho deste domingo de Quaresma, somos cegos!

Cegos! Isso é fato! Isso somos nós! Na verdade, míopes!! Mas bem míopes mesmo! Daqueles que não arriscam ir do quarto pra sala sem óculos, pois sabem do risco que perecem.

Antes de um determinismo vão, isso nos conduz a verdade. Precisamos entender, deglutir, VIVER essa experiência de cegueira, de dependência, sobretudo de desejo de LUZ, desejo de clareza e nitidez.

Como? Só quem de veras se reconhece míope, tem a ciência que precisa de óculos. De lentes que sobrepõe o nosso olhar falho, pecador, limitado, falso, vendido, oportunista. As lentes de Cristo nos permitem olhar o povo que nos é dado de modo a enxergá-lo! O que antes era vulto incerto ganha corpo nítido!

Isso é fundamental para que deixemos a superficialidade das nossas impressões, da nossa experiência anterior, dos casos já contados, do que já vimos, dos determinismos construídos. Mas, para além disso, não apenas precisamos da lente do Espírito, como carecemos de tê-la na medida do indivíduo.

Explicando: De nada adianta, ter lentes de 5 graus de miopia , se a necessidade eram só 2. Nem mesmo o contrário. A imagem será nos dois casos destoante da real. Cada individuo é, em suma, UM INDIVÍDUO. Parece-nos óbvio, mas a experiência revela o contrário. Quão facilmente, caímos nos estereótipos, clichês, modulações! Não! Isso é desmerecer a natureza criativa de Deus que criou um ser único, diferente de todos os outros.

Pontos de encontro da história, coincidências de acontecimentos, e mesmo providências, comportamentos, são pouco e insuficiente para arriscar uma definição do sujeito que o englobe como um todo. Qualquer encapsulassão que tente enclausurar o homem em prerrogativas de comportamentos acaba sendo redutivo demais, pequeno demais, longe demais da verdade complexa que é cada um.

Sofremos o risco de criarmos PSEUDO-Formandos, dentro e até fora de nós. E isso pode ser sim, mortal! É preciso desconstituir todos os conceitos e pressupostos que criamos em relação a pessoa que temos a nossa frente. Não se trata aqui de por em risco Dogma, Magistério ou a verdade revelada no Evangelho. Mas de ter lentes límpidas e corretas para cada ser humano que nos é confiado. É preciso ter mesmo essa coleção de óculos, lentes, claras, escuras, pra perto, pra longe. Caso contrário, amargaremos uma formação dilaceradora da verdade do dom que é a pessoa a nossa frente. A regra, é que não há regra! Não existe jeito exato, palavra certa, momento certo pré-estabelecido. Existe o que sempre existiu: O Espírito Santo na larga medida do Amor que é Caridade.

Fonte: Marcela Mendonça


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