Formação

Os magos ou os pastores

Tanto os magos como os pastores eram pessoas de má fama e excluídos da sociedade. Os magos eram conhecedores da astronomia e da astrologia daí o seu interesse por estrelas. Era um mito conhecido da época que ao nascer um grande líder nascia também uma estrela no firmamento.

Os relatos apresentados pelos evangelhos de Mateus que especifica os magos e Lucas que menciona os pastores se assemelham quanto ao inseri-los no nascimento de Jesus.

Os nomes destes não são citados na Bíblia[1] por isso tomemos como anônimos todos os personagens. Não é objeto deste artigo discutir o caráter histórico da passagem, mas perceber o papel deles na história da salvação conforme o Espírito que inspirou os evangelistas.

Tanto os magos como os pastores eram pessoas de má fama e excluídos da sociedade. Os magos eram conhecedores da astronomia e da astrologia[2] daí o seu interesse por estrelas. Era um mito conhecido da época que ao nascer um grande líder nascia também uma estrela no firmamento.

Os pastores eram nômades e cuidavam dos seus rebanhos de forma itinerante guiados pela disponibilidade de comida para os animais. Naquela época não existiam cercas que separassem as propriedades rurais, daí o inconveniente econômico e social que causavam ao invadirem as propriedades privadas para alimentar seus animais. Eles sequer podiam testemunhar em um tribunal e os judeus não podiam salvá-los em caso de perigo, diferentemente dos animais.

É nesse contexto que a manifestação de Deus a todos os povos ou a sua epifania como denominou a Igreja, apresenta a salvação de Deus para o seu povo e toda a humanidade.

Centrando-nos no evangelho de Mateus, convém perceber que apenas os magos[3] perceberam a estrela que direcionava para o menino Jesus enquanto que os sacerdotes e escribas que se intitulavam porta vozes de Deus e interpretes das Escrituras passaram despercebidos.

Enxergo essa estrela como um chamado vocacional. O Senhor convida para sua messe e torna sua alma esposa quem Ele quer e corresponde a esse chamado. Não há espaço para lógica humana. Ele chama o pobre, o simples, o analfabeto, o jovem, o anônimo, o perdido, o mal visto, o inconveniente, o bom e o mau.

Os sacerdotes e escribas representam o esvaziamento espiritual do serviço a Deus. São criadores de normas de conduta moral simplesmente que nem mesmo são capazes de cumprir. São os sepulcros caiados denunciados por Jesus. Não são agentes de pastoral, mas gerentes de pastoral. Já não são mais consagrados, não mais ofertam suas vidas, mas tornaram-se profissionais do sagrado.

O Senhor também nos ensina que Ele surpreende não só a quem chama, mas onde chama. No caso, não é na pomposa Jerusalém, mas na pequena Belém de onde saiu Davi e agora seu descendente que lhe restaurará o Reino.

Aqui reforço a dignidade e o papel fundamental dos centros de evangelização e capelas das periferias que mesmo sem o glamour, estética ou acesso privilegiado tem consigo a mesma graça e digo até o privilégio de repetir a cada dia a simplicidade de Belém ao acolher Jesus e seus visitantes.

Num segundo momento, é importante destacar o encontro que tiveram com Jesus e Maria (v. 11) é ímpar considerando que Mateus era judeu e escrevia esse evangelho para sua comunidade que era predominantemente formada por judeus. Tal associação ao Rei e sua mãe está em 1 Rs 2,19 o qual cada detalhe é importante porque o povo judeu sabia da importância da rainha junto ao rei e conseqüentemente pelo desempenho do seu reinado. No caso em questão, a importância da figura de Maria, mãe, rainha, mas também discípula de seu Filho.

Santo Tomás de Aquino na suma teológica[4] distingue o culto a Deus como latria (adoração) e a suas criaturas como dulia (veneração) por conta que a adoração não é devida a nenhuma criatura em si mesma, mas apenas a Deus. Entretanto por ser mãe de Deus à Maria se deve um culto mais eminente do que qualquer dulia sendo-lhe devido o culto de hiperdulia relacionado à santa humanidade de Cristo. Essa excelência tem total dependência da excelência do Verbo Encarnado.

Importa ainda salientar o contraste dos religiosos da época que ficaram perturbados e a toda a Jerusalém consigo ao saberem do acontecimento do Messias com a profunda alegria dos magos ao encontrarem o menino e sua mãe. Eles o adoraram e ofertaram seus maiores tesouros, isto é seus corações numa tentativa de corresponder ao apelo que Deus tinha lhes feito. São João Crisostomo os define como os primeiríssimos pais da Igreja[5].

É essa reação de um verdadeiro encontro com o Salvador. Uma alegria de ser amado, de entender que sua vida tem valor e que Deus tem um plano para nossas vidas que passa pela nossa santificação e salvação. É a partir deste encontro que a obra nova começa a surgir (cf. Is 43,19).

Chamo a atenção para um detalhe que parecer ter vida própria e alheia ao episódio bíblico: o presépio.

O presépio vivo foi criado por São Francisco justamente para mostrar às pessoas sobre a simplicidade e pobreza que Jesus nasceu com o intuito de resgatar a essência do Natal contrastada pela vaidade, consumismo e formalidades da troca de presentes.

Convido ainda a não adocicarmos a realidade do presépio que também é uma denúncia da rejeição do homem ao seu Salvador. Jesus mesmo antes de nascer não encontrou acolhida no coração do homem por isso restou-lhe nascer em um estábulo cercado por animais em condições precárias de higiene.

A manjedoura era o local do manjar, isto é, do alimento dos animais e chama a atenção ainda nascer na cidade de Belém que quer dizer “casa do pão” aquele que mais tarde se revelará como Pão da Vida e se entregará como alimento vivo na última ceia.

Na última frase da passagem de Mateus, os magos avisados em sonho voltaram por outro caminho (v. 12). O encontro com Jesus pressupõe uma metanóia em que já não posso ser quem eu era nem voltar a trilhar os mesmos caminhos. Ronaldo Pereira[6] dizia que a metanoia é obsessão de buscar a vontade de Deus por amor, por necessidade visceral. É reconhecer-se pequeno, dependente, grato…

 

Procure em oração, responder às seguintes provocações:

 

Você (ainda) sente algum chamado vocacional em sua vida? Em caso positivo, como fez (faz) para respondê-lo?

Como está o ânimo de sua experiência com Deus? Está renovada ou saturada? Você se considera um agente ou gerente de pastoral? Consagrado ou profissional do sagrado?

Quais mudanças (metanoias) que a experiência com Deus trouxe em sua vida? Enumere-os por categorias a exemplo de família, oração, serviço, trabalho, estudo, relacionamentos, afetividade e sexualidade.

 

[1] Os nomes Baltazar, Belchior e Gaspar surgiram no evangelho apócrifo da infância de Jesus por volta do século VI.

[2] Não havia distinção entre elas naquela época.

[3] Não há menção a quantidade. A tradição denominou três por conta dos presentes (ouro, incenso e mirra) e a indelicadeza que seria se alguém não tivesse presente para ofertar.

[4] Suma Teológica III, 25,5

[5] Comentário de Mt 7,4

[6] ibidem


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *