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Os traços da Maturidade Humana

O homem contemporâneo, solicitado por estímulos que o bombardeiam dia e noite, sente dificuldades em efetuar uma síntese harmoniosa de todas as suas potencialidades que trás no corpo e na alma. Nem sempre a educação que recebe na família, escola ou mesmo na Igreja ajuda o homem, oferecendo-lhe subsídios fundamentais para conseguir esta síntese harmoniosa que leva ao perfeito amadurecimento.

Este estudo pretende auxiliar o jovem neste fascinante caminho junto com Jesus na busca desta harmonia interior, desta plenitude de vida: “Eu vim para que todas as ovelhas tenham vida, e a tenham em abundancia” (Jo 10,10).

A partir da Graça de Deus, veremos como o homem pode lançar- se nesta aventura do desenvolvimento de todo seu potencial humano: corporal, psíquico, afetivo, social e espiritual, até desabrochar uma personalidade saudável, feliz, ativa e criativa, cheia de graça, “até atingirmos o estado de homem perfeito, a estatura da maturidade de Cristo”. (Ef 4,13).

O processo de maturidade dura à vida toda, pois a pessoa humana nunca é completamente amadurecida. Para darmos passos concretos de crescimento neste longo caminho de busca da maturidade, que pode ser entendido como busca de santidade, ou da “vida em abundancia” ou ainda da plenitude de todas as nossas capacidades e talentos, refletiremos sobre os seis traços da maturidade humana. À luz do Espírito Santo de Deus, pretendemos contribuir neste processo lento e maravilhoso do nosso amadurecimento integral.

1° traço: prevalência da extroversão

2° traço: domínio sobre a afetividade

3° traço: prevalência do amor oblativo

4° traço: avaliação objetiva de crítica

5° traço: sentido da responsabilidade

6° traço: capacidade de adaptação

Prevalência da extroversão

Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz siga me. Porque aquele que quiser salvar sua vida, perdê-la-á, mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa recebê-la-á. (Mt 16,24 25)

O adulto vive num mundo onde prevalece o real e objetivo, ao contrario da criança que vivencia um mundo mais subjetivo e de fantasia. Entre um e outro encontra se o adolescente, ser em busca do amadurecimento, que se interessa por algo de fato objetivo, mas que não deixa de ter os traços narcisistas da criança. Este algo objetivo é “ele mesmo”. Este é o 1° traço de comportamento humano moderno.

O termo “extroversão” não é aqui entendido como facilidade de relacionamento, de comunicação, mas indica uma atitude vital, essencialmente dinâmica. À medida que o ser humano se conscientiza da existência de um mundo objetivo “diferente de si”, aceitando o e interessando se sinceramente por ele de maneira comprometida, podemos dizer que o processo de amadurecimento da sua personalidade está ativado. Ao contrário, à medida que se introverte e se reduz ao próprio mundo subjetivo, se infantiliza.

Desta forma, o processo de amadurecimento não é nada mais do que uma “virada” no âmbito de nossos interesses pessoais, mudança progressiva de nosso centro de interesse vital, isto é, a “saída de nós mesmos” em direção ao mundo externo no qual estamos essencialmente inseridos . Pode  se concluir que todo egocentrismo é, sob o ponto de vista psicológico, antes de tudo, uma atitude ou comportamento infantil. Quando este comportamento toma se habitual, mesmo numa fase sucessiva à infância, é sinal característico de falta de maturidade, independentemente da idade cronológica, da cultura, da atividade e do próprio êxito profissional. O “adulto egocêntrico” é vivencialmente uma criança.

Consequentemente, todo isolamento dentro de si próprio, dentro do próprio lar, ou de qualquer outro tipo de sociedade “fechada” impede o amadurecimento. A vida do homem torna se verdadeiramente humana, quando dimensionada em função do que existe fora dele.

É preciso a coragem de expandir se. Isto significa sair de nossas “zonas de conforto”, corrermos riscos indo além dos limites estabelecidos pelo medo em nossa vida. Expandir se exige um ato corajoso da mente e da vontade. Neste caminho de aventura e desafios descobrimos novos talentos que não sabíamos possuir, vencemos os medos, que sempre nos batem a porta, expomos nos aos outros, ao mundo, caminhamos para o amadurecimento. Como primeiro passo nesta direção: “Não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje!”

Observação:

Refletir sobre minha postura e comportamento diante da vida: busco viver um mundo real, objetivo, ou me refugio, habitualmente no meu próprio mundo, elaborado pela minha imaginação e fantasia, como recurso de fugaz evasão do conflito e da luta?

Educadores e formadores devem atentar se que o protecionismo e o paternalismo exagerados produzem deformações:

• Personalidades egocêntricas e egoístas, empobrecidas em seu fechamento.

• Personalidades angustiadas, fixadas em sua solidão, inseguras, destinadas ao choque inevitável com a realidade da vida.

Domínio sobre a Afetividade

“Todas as coisas deste mundo não são mais do que terra amontoa as debaixo dos seus pés, e estarás mais perto do céu”(Josemaria Escrivá   Caminho)

O segundo passo do comportamento humano maduro é o domínio sobre a afetividade. Façamos algumas considerações sobre em que consiste a afetividade humana, antes de a relacionarmos com a maturidade.

A afetividade é a capacidade de experimentar (vivenciar) internamente a realidade exterior, sentindo o impacto por ela produzido no EU. É uma experiência interna de conteúdos emocionais acompanhadas freqüentemente de manifestações somáticas, ainda que estes conteúdos estejam reprimidos no inconsciente.

“A visão clássica do ser humano tendia a ressaltar o valor do espírito em detrimento da realidade corpórea. Assim, no ser humano, o que realmente contava era a inteligência racional e a vontade livre. Sob essa perspectiva, o mundo escuro e indisciplinado dos afetos, emoções e sentimentos só poderia merecer um tratamento bastante depreciativo no processo de humanização.

“Claro que não podia ser negada a existência das afeições, pois eram experimentadas de maneira freqüentemente incômoda e perturbadora do equilíbrio racional. O problema era resolvido, amiúde, situando os abetos unicamente no domínio do mundo corpóreo sensível, justificando se assim, sua desvalorização. E quando se reconhecia na afetividade uma dimensão espiritual, não se sabia com certeza que a faculdade deviria ser atribuída: ao âmbito da razão ou ao domínio da vontade? As tentativas de referir a afetividade ao racional ou ao voluntário resultaram num apêndice difícil de ser integrado.

“A importância da afetividade no ser humano ficou evidenciada no mundo moderno, sobretudo a partir da psicanálise. São as perturbações na afetividade que se encontram na base das neuroses. É impossível o amadurecimento da personalidade quando é descuidada a dimensão afetiva, fundamental no ser humano “(A Nova Evangelização e Maturidade Afetiva Pe. Afonso Garcia Rubio).

Em razão disto, qualquer distúrbio na vida afetiva poderá impedir o amadurecimento correto da personalidade, desencadeando processos doentios.

A criança, por carecer ainda dos meios intelectuais necessários para dominar suas emoções, é continuamente dominada pela afetividade no seu querer e no seu agir. A criança, mesmo que não compreenda com clareza, sente e vivência as situações com uma força extraordinária. O adolescente se carateriza por uma instabilidade afetiva sintomática. Seu psiquismo apresenta se como um complexo mundo de emoções, sentimentos, racionalizações, que condicionam um agir ao mesmo tempo riquíssimo e contuso, na sua incoerência. Já o adulto, o ser humano maduro, tem um intelecto que lhe permite transferir ou deixar de lado, orientar, dirigir e aproveitar de maneira prática, dinâmica e construtiva sua afetividade. Pode aproveitar a riqueza da afetividade (e da sua expressão concreta, a sensibilidade) sem ser submerso por ela. É a inteligência, em definitivo, que assinala e determina, de maneira decisiva, o modo de agir. Há, porém, um aproveitamento da afetividade e da sensibilidade com um enriquecimento da personalidade, que dá calor humano e aproximação com os outros e com o mundo. Por isso a sensibilidade não pode ser destruída ou recalcada sem perigo de desajustamento psíquico.

O adulto que consegue, habitualmente, tal controle funcional e efetivo da sua afetividade apresenta se como um ser humano que:

• Atua orientado por propósitos bem pensados; finalidades e objetivas concretas e claras, assumidas conscientemente: não hesita em pedir ajuda e orientação para chegar a um maior esclarecimento que lhe permita uma decisão mais garantida, mas, ao mesmo tempo, se determina de maneira autônoma, prevendo os meios para chegar ao fim e superar obstáculos também previstos.

• Persevera durante muito tempo, enquanto for necessária a ação para atingir a finalidade proposta, porque os obstáculos foram previstos e os meios para superá los também.

• Supera sua afetividade espontânea; supera repugnâncias e atrações; sabe analisar os fatos e as pessoas de maneira mais profunda; nos conflitos com outras pessoas, sabe aguentar e superar situações.

• Regido pela inteligência, hierarquiza valores atentivos colocando em primeiro lugar aqueles que o projetam fora de si em direção ao “outro” e, em último lugar, aqueles que se referem diretamente a ele próprio.

Observação:

Refletir sobre como a afetividade está agindo em mim, qual a influência da razão e da afetividade nas minhas decisões. Como tenho equilibrado a afetividade e sensibilidade na minha vida de forma integral? Tenho sido escravo de paixões?

 Prevalência do Amor Oblativo

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13)

Este é o terceiro traço de maturidade humana: prevalência do amor ablativo.

Oblatividade do latim oblatus, que significa oferenda. Portanto, entendemos aqui oblatividade como oferenda de si ao outro. Isso implica numa conduta generosa e altruísta, na qual a pessoa se esquece de si mesma e ama, fazendo com que o amor seja significativamente desinteressado e gratuito. É pela oblatividade que se mede o amor, e através dela se revela sua autenticidade. Porque aquele que não se esquece de si, que não se oferece, não ama. A única prova confiável de amor maduro será o crescimento e a libertação da pessoa amada.

Simultaneamente, o amor-doação se constitui na negação radical de todo egoísmo. Só o ser que atingiu um certo grau de maturidade humana está capacitado para esta doação de si mesmo, que define a expressão do amor. Se amor é doação, a pessoa frustada no amor não será precisamente aquela que “não recebe”, e sim aquela que “não se dá “.

O adulto “se dá aos outros”. É esta a única forma não neurótica para enfrentar a solidão, problema essencial a todo ser humano. Ao invés, a criança sente uma necessidade irresistível e imprescindível de receber amor. É egocêntrica essencialmente. O adolescente, por sua vez, no seu caminho de amadurecimento, é capaz de se entregar com grande generosidade, porém, quase sempre, “procurando se a si mesmo”.

Existem diversas etapas na vida do ser humano que lhe vão preparando para atingir a possibilidade de viver o amor maduro. Todas deverão ser vividas em plenitude. Se isso não acontece, mais cedo ou mais tarde, se notarão as conseqüências em formas e atitudes de vida desajustadas. Para chegar ao amor maduro e enriquecedor, devemos percorrer um longo caminho…

O caminho do amor:

A)  lnfância: amor receptivo

B)  Adolescência: treino para o amor

C)  Juventude: experiência do amor

D)  Idade adulta: maturidade, a vida do amor

A) Infância: amor receptivo

É uma etapa importantíssima. A criança não pode dar se porque ainda não se possui. Só pode receber. Se esta etapa não for bem vivida poderá produzir marcas de difícil recuperação, sendo o principal sintoma a carência afetiva.

Contudo, a criança que vivência na sua infância no contato e convivência com os adultos o amor de presença, equilibrado e enriquecedor, estará dando seus primeiros passos, firmes e seguros, na caminhada para o amor maduro.

B) Adolescência: treino para o amor

A adolescência se constitui num processo perturbador de descobrimento do próprio corpo, dos próprios sentimentos e emoções e na descoberta do outro sexo, com todos os apelos conseqüentes: atração, excitação, necessidade irreprimível de relacionamentos interpessoais, como resposta afetiva e sexual. Tudo isso com freqüência é experimentado de maneira traumaticamente confusa se não houver, nessa conjuntura, um acompanhamento cordial que facilite a libertação e a integração pessoal válida e criadora dos instintos, interesses e sentimentos.

As relações humanas se estabelecem a partir dos princípios de disponibilidade e continuidade, confiança e previsibilidade, e tais condições se verificam na relação criança genitor e no matrimônio, porque aí reside a possibilidade de apoio, do cuidado e do crescimento. Pelo contrário, as relações passageiras e casuais são cheias de incertezas e ansiedades, sob a sombra do medo de perder aquela estabilidade que é base necessária para o desenvolvimento das relações humanas. A relação sexual é um dom mediante o qual duas pessoas selam, em privado e público, a recíproca doação de todo o seu ser. Enquanto ambas não estiverem prontas para isso, a relação sexual não pode ser mais que uma parcial expressão de si mesmos e, geralmente, não passa de meio para sanar algum outro conflito na vida. Um diálogo que compreende, que ajuda a compreender o problema, que acompanha com atenção a pessoa, que estimula a crescer sem comprometer a plenitude da própria sexualidade do outro ou da outra, está em condições de ajudar o adolescente a resolver seus problemas e superar eventuais carências afetivas anteriores e superar opções aparentemente evidentes ( “todo mundo faz”, “é normal”) em nossa sociedade toda impregnada de permissividade e hedonismo.

É a partir destas colocações que consideramos a adolescência, simultaneamente com a puberdade, como um momento de singular e fundamental importância para o estabelecimento correto das bases para um posterior dialogo amoroso, adulto e maduro. Por esse motivo chamamos esta etapa de “treino para 0 amor”.

O treinamento para o amor se dá por meio de uma amizade heterossexual sadia e enriquecera. O interesse pelos “outros” deve ser uma preparação para uma doação maior, preparação que se dá mediante pequenas doações, na entrega de si mesmo, no enriquecimento e crescimento pessoal, na abertura para as diferenças características do outro sexo e para as diferenças sexuais. Todo este caminho de descoberta é válido e libertador quando orientado por valores eminentemente construtivos: conhecimento, compreensão e aproximação marcados pela procura das realidades mais profundas, no que diz respeito aos aspectos afetivos, emocionais, psicológicos…

C) Juventude: experiência do amor

A etapa de experiência do amor situa se na juventude, uma fase do desenvolvimento humano que já permite decisões e opções mais maduras. Esta experiência é mais facilmente alcançada, representando um seguro alicerce para edificação do amor maduro, quando for fruto de uma adolescência ia vivida em to da sua exuberância e riqueza de descobertas , minimizadas as repressões e medos. O amor não mostra seu rosto secreto de imediato e fora do contexto em que pode crescer e amadurecer, somente num ambiente de fidelidade, devoção, abertura, respeito e perdão reciproco. A experiência do namoro não significa ainda amor, porque a experiência do amor começa quando se vive o encontro pessoal que ajuda os dois parceiros a viverem na paz, na harmonia com todos os componentes da personalidade; quando faz nascer à alegria de compartilhar, de confiar um no outro, de entrar juntos num caminho de crescimento. O noivado é uma etapa importante dessa caminhada por ser o tempo do conhecimento mais verdadeiro, das diversas tonalidades, da ternura sem que esta ainda se traduza, para se tornar uma verdadeira e plena promessa de amor, uma repentina conclusão erótico-sexual. Um ajuda o outro a dar espaço a um “algo mais”, percebido como a garantia de continuidade e fidelidade, como uma promessa de que mais cedo ou mais tarde as aspirações terão o selo da plenitude e da realização.

O jovem, a partir da experiência do diálogo sexual, pode elaborar e estabelecer seu projeto de vida com bases firmes e confiáveis e estar capacitado para uma opção de vida de promissora estabilidade e permanência. Este é o ideal almejado. A possibilidade de organizar o diálogo sexual de forma eminentemente construtiva dependerá, em última análise, da filosofia e eficácia do processo educativo. Só uma educação libertadora pelo amor e para o amor conseguirá imunizar o jovem perante as influências extremamente negativas de muitos condicionamentos sexuais.

D) Idade adulta: vida do amor

“Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne. Grande é este mistério. Quero referir me a Cristo e a sua Igreja (Ef 5, 31 32). São Paulo alude aqui a dialética desapego-separação do filho em relação aos pais, à dinâmica do crescimento na identidade pessoal e da formação de novos laços afetivos os quais podem desembocar no matrimônio, numa união que simboliza e reflete a total doação de Cristo a seu como que é a Igreja.

Essa caminhada, cujas características mais significativas acabamos de analisar, tende a desembarcar na “vida do amor”: vida determinada pela entrega de todo o ser ao outro e a outros, num processo dinâmico e habitual de integração interpessoal. Um matrimônio para chegar a realizar-se plenamente, exige a inteireza da relação, e esta exige continuidade, confiança, previsibilidade. A continuidade ajuda a resolver os conflitos, os problemas de agressão e alienação que se verificam em qualquer casal que tende à harmonia e à comunhão do amor através do perdão, da reparação, do aumento da compreensão recíproca para evitar novos conflitos. A confiança ajuda a superar a preocupação de perder o parceiro, a ameaça de ser por ele abandonado, perder seu afeto e ter que recomeçar da estaca zero uma nova relação íntima. A previsibilidade dá forças para a caminhada que precisa ter margens seguras de elaboração de projetos, para que seja fonte de ulteriores desenvolvimentos, a partir de alguma coisa conhecida, vivida e realizada em comum.

Observação:

Refletir: como costumam ser marcados os meus relacionamentos afetivos (ciúmes, sentimentos de posse, submissão exagerada, insegurança afetiva, …)? Deveria existir um “termômetro” que medisse a capacidade de amor oblativo nas pessoas, e este aprovaria ou reprovaria os jovens para o passo do casamento. O matrimônio exige o amor oblativo. Observar a sua situação de vida a luz do que foi apresentado e refletir no grau de doação pessoal nos relacionamentos de namoro ou noivado ou casamento.

Avaliação Objetiva ou crítica

“Não julgueis, e não seres julgados. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos Por que olhas a palha que está no olho do seu irmão e não vês a trave que está no teu? ” (Mt 7, 1 3)

A pessoa adulta, madura, elabora um mecanismo “quase automático” de auto avaliação e de crítica sobre os fatos e sobre os outros, porque suspeita que ele   como os outros   pode errar. Esta atitude fundamenta se na sincera e cordial aceitação das limitações e fraquezas, origem de todos os erros.

Contrariamente, é próprio da criança aceitar simplesmente, ingenuamente, sem crítica. O adolescente critica e muito (sobretudo o adulto), porém não suspeita, nem lhe interessa saber se está errado. Poderíamos afirmar que o adolescente critica “por esporte”… Mesmo assim, vai formando seu senso crítico-objetivo, se tiver um acompanhamento adequado.

A finalidade da crítica é a análise atenta e, quanto possível, objetiva, do modo de agir das pessoas e do acontecer na sociedade. Isto supõe um processo de identificação de causas, de avaliação de situações e comportamentos e da procura de novas soluções: tudo se dirige à formulação de uma verdade.

O primeiro sinal, início do processo de amadurecimento pessoal, é o começo da auto-reflexão, da auto análise e da autocrítica. Esta atitude é gerada pela consciência de nossa possibilidade de errar e da sincera aceitação da critica que os outros fazem de nós.

Esta atitude, quando habitual, é uma condição realmente eficiente e confiável para:

• o diálogo construtivo, no respeito consciente da opinião alheia.

• crítica objetiva e construtiva do ser e agir das outras pessoas.

• análise e avaliação objetiva dos fatos e acontecimentos.

Porém, para que a crítica seja objetiva e construtiva, deverá respeitar duas condições imprescindíveis.

Em primeiro lugar, um reconhecimento sincero dos aspectos positivos da pessoa ou do fato em avaliação. Sempre existem aspectos positivos. Não descobri los é sinal de imaturidade. Quem não os descobre ou não os quer reconhecer não está preparado para uma crítica madura.

Uma segunda condição: não julgar as intenções (evitando o mecanismo de projeção das próprias). O terreno da intencionalidade é o mais oculto e intimo do ser humano. Estamos sempre correndo o risco de errar no nosso julgamento a respeito dos outros. Inclusive porque nem nós mesmos, em certas ocasiões concretas, estamos conscientes do “porquê” motivador do nosso agir… (Quem de nós ainda não disse: porque fiz isso…?) Consequentemente, se nós mesmos desconhecemos nossas motivações mais ocultas, seria justo nos conceder o direito de interpretar e julgar o outro?

Podemos afirmar que a característica de uma crítica ou autocrítica madura é o dinamismo e o entusiasmo para melhorar e crescer: o otimismo construtivo e criador. Assim, tal tipo de crítica é sempre um estimulo para as pessoas maduras.

Se eu “afundo”, se me “magôo” em excesso, se fico “ferido” quando me criticam, certamente será:

• ou porque psicologicamente não sou maduro.

• ou porque a crítica não foi objetiva e construtiva.

Isto sempre acontece quando interpretamos as intenções dos outros ou os outros interpretam as nossas.

Observações:

Refletir como tem sido as críticas que tenho feito das outras pessoas e situações de vida: são realmente objetivas, ou são uma projeção da minha própria maneira de ser, pensar e/ou sentir ? Vivo na dependência do que pensam e acham de mim ? Aceito serenamente a minha realidade pessoal ? O meu positivo, minhas limitações e erros, minhas qualidades e virtudes ?

 Sentido da Responsabilidade

“Se soubermos perseverar, com Ele reinaremos” (II Tim 2, 12)

A pessoa madura, psicologicamente adulta, está consciente das motivações legítimas do seu agir. Consequentemente será capaz de justificar perante os outros, a sua busca de coerência entre as finalidades propostas e as ações concretas para atingi las, isto é, ela não age sem refletir sobre as finalidades e os efeitos da ação. A criança, por outro lado, age de maneira irrefletida e irresponsável, quase por instinto.

Por sua vez, o adolescente realmente age movido e determinado por finalidades conscientes, sem se preocupar com a legitimidade das causas que motivam seu agir.

O “sentido de responsabilidade” é fruto da vivência. Somente vivendo responsavelmente é possível, algum dia, ter verdadeiro sentido de responsabilidade. Trata se de um processo gradual e progressivo de educação autoconsciente.

O ser humano, desde a infância, deveria assumir gradativamente a responsabilidade por suas opções. Não é pregando, falando nem aconselhando que conseguiremos formar um homem realmente responsável.

As razões devem ser mantidas e defendidas (coerência entre a motivação e a ação) para que, perante a crítica alheia, nosso agir seja responsável e nossa ação se constitua em resposta coerente a nossa filosofia de vida.

O sentido de responsabilidade define e identifica um processo dinâmico que procura fazer com que nossa atividade vital seja a mais consciente possível. Consequentemente o adulto responsável:

• é eficaz no seu agir, consegue normalmente alcançar as finalidades.

• é rápido, evitando a moleza e a acomodação.

• é constante, perseverante, não desanima ante os obstáculos previstos ou imprevistos que se apresentam no seu caminho em direção ao objetivo previamente definido.

• esforça se por agir o mais perfeito possível, rejeitando os “jeitinhos”.

• responsabiliza se também, quando preciso, pelos que vão colaborar com ele na tarefa decidida.

O homem que foge das responsabilidades, que não se arrisca conscientemente, quando preciso, que não assume, que não se compromete, tem traços de imaturidade como de uma criança. Vale ressaltar que é fundamental caracterizar a legitimidade da causa e a motivação do agir maduro da pessoa adulta e responsável. Para que uma causa seja considerada legítima, seus objetivos e finalidades deverão:

• estar fundamentados na verdade.

• o fruto da ação deverá ser um bem para outras pessoas ou para sociedade em geral.

• a ação, mesmo produzindo um bem, não poderá prejudicar ninguém. Exemplo: eu não poderia crescer, subir profissionalmente, pisando ou destruindo o outro.

Nem sempre é fácil nos conscientizar da legitimidade das causas e objetivos do nosso agir. Existem meios que podem nos ajudar: oração diária com auto reflexão ou exame de consciência, reflexão e partilha em grupo ou comunidade, aconselhamento e orientação de pessoas maduras.

Observação:

Refletir: como tem sido as motivações do meu agir ? Tenho assumido responsabilidades sobre as opções que tenho feito ? Uma vez decidido a agir, sou habitualmente: eficaz, rápido, perseverante e busco a perfeição ?

Capacidade de Adaptação

“As raposas tem covas, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. ” (Lc 9, 58)

O adulto maduro tem a capacidade de adaptar se, criticamente, às diversas circunstancias da vida. A criança não apresenta grande capacidade de adaptação, é um ser que é indefeso. No caso da criança, as circunstâncias, o ambiente devem adaptar-se a ela. O adolescente é muito instável: apresenta um extraordinária capacidade de se adaptar às diversas circunstancias da vida e a diferentes pessoas, porém muda, intempestivamente, sem um motivo objetivo e suficiente.

A adaptação da pessoa madura e psicologicamente adulta constitui se num hábito expontâneo de flexibilidade e sensibilização, em face às exigências, apelos e expectativas das pessoas e situações com as quais convive.

Esta capacidade (ao menos quando exige uma capacidade ou condicionamento do tipo físico) vai se perdendo com os anos, porém não necessariamente a capacidade de compreensão, que se constitui no fundamento essencial da adaptação ao meio ambiente.

A capacidade de adaptação ao mundo em que vivemos, quando crítica e madura, parte do culto à verdade, esteja onde estiver e seja proposta por que for. A pessoa madura está disposta a aceitar os valores tradicionais e, ao mesmo tempo, renovar se com as nova idéias, na medida em que forem uma resposta mais adequada, atualizada e vital para o homem e a sociedade moderna.

Relacionada diretamente com o problema da adaptação, situa se a questão da escolha do tipo de trabalho, carreira e profissão que permita a realização pessoal. O trabalho nos permite satisfazer convenientemente as necessidades fundamentais e as necessidades psicossociais, que tornam mais satisfatória e gratificante à atividade humana.

Fruto dessa realização pessoal será uma adaptação mais perfeita e um ajustamento pessoal mais compensador. Muitos dos desajustamentos de personalidade são devidos à falta de ajustamento ocupacional e vocacional. Algumas considerações sobre capacidade de adaptação:

• A adaptação prévia e fundamental é a aceitação cordial e funcional da própria realidade individual. Não podemos adaptar nos ao meio ambiente sem aprender a conviver, consciente e serenamente com nós mesmos.

• É bem mais fácil “a técnica” de ganhar amigos e conviver pacificamente com os outros, do que aprender a conviver com o conflito. Uma adaptação madura e adulta exigirá saber administrar os conflitos, e não apenas evitá los ou eliminá los.

• Para amadurecer é preciso focalizar o triunfo. Se me sinto frustrado quando não sou louvado ou elogiado, estou caindo no infantilismo, porque não confio na minha auto crítica. Se não sei elogiar, nem louvar, somente criticar, estou mostrando imaturidade (inveja, ciúme…). Certamente não podemos fazer consistir o êxito em que tudo seja triunfo, que tudo saia bem, que todos nos felicitem. Se o êxito é para nós um estímulo, o fracasso não pode se tornar uma ocasião para “introvertermo nos”.

• Sempre existe no homem a possibilidade de mudar e de crescer. É isso que nos faz sentir vivos. O homem que não se conscientiza desta dinâmica existencial, e, por comodismo, medo ou teimosia, rejeita toda possibilidade de mudar, submerge rapidamente num processo de empobrecimento e apodrecimento do ser integral.

• O homem trabalha para viver, para satisfazer sua necessidades fundamentais. Mas também é verdade que existem aspectos psicossociais importantíssimos que motivam o trabalho, que determinam uma opção, que estimulam o esforço pessoal, que definem e sintetizam no indivíduo trabalho e vida, profissão e vocação, esforço e alegria, facilitando a adaptação pessoal ao mundo do trabalho.

• O maior sinal de maturidade humana é a consciência de que chegará a hora em que devemos ser substituídos, (esta postura exige de nós uma atitude honesta, humilde e sincera) evidência dolorosa aceita com alegria sincera desejando que aquele venha depois de nós continue nossa história com maior eficiência e eficácia que nós mesmos, desejando cordialmente o seu triunfo …

Observação:

Refletir em como tenho me comportado diante do sucesso e do fracasso. Considerando que somos seres livres e inacabados, como tenho reagido diante das possibilidades de mudança e crescimento? Qual o sentido da minha atividade, ocupação, carreira, motivação vocacional? Tenho procurado enxergar o meu “tempo” em cada atividade que faço, procurando passar ao meu substituto “a tocha acesa” ?

Conclusão:

O objetivo, a finalidade do que chamamos de “educação libertadora” é conseguir que o ser humano, iniciando um processo gradativo e constante de crescimento pessoal, libere e atualize todas as suas possibilidades pessoais, atingindo um grau de maturidade satisfatória. Consideramos que toda pessoa traz inscrita em si a necessidade de “ser mais”, de crescer até atingir “a vida plena”. Pode ser que tal objetivo, em longo prazo, não se alcance muito facilmente, porque é normal esbarrar em fracassos parciais, em insucessos, períodos de flutuação e de incertezas, de fixação e de regressão, mas os períodos críticos podem permitir novos progressos, novas orientações, ulterior evolução em relação a situações novas. Apesar de fracassos passageiros e insucessos, é possível recuperar o rumo. Na caminhada para a maturidade do ser, nunca se recomeça totalmente do zero, pois aquilo que de positivo se adquire é de fato adquirido para todo sempre. Trata se, porém de redimensionar isto ou aquilo, de despojar se de coisas inúteis, desfazer se de certezas inúteis para seguir o fascínio da verdade e da luz. O caminho da maturidade não é uma subida penosa, cheia de solavancos e duros esforços, guiada pela vontade de se construir graças somente aos próprios esforços. É, antes, uma descida até ao mais fundo de si e um salto no mundo da simplicidade, da calma, da paz e do abandono a Deus. Para situar se neste clima, é preciso que o homem se habitue à reflexão, a analise não obsessiva, mas atenta daquilo que vive, tomar o próprio pulso, olhar bem dentro de si mesmo, conceder se pausas de vez em quando, amar o silêncio, amar a oração como momento de encontro com Deus. O silêncio não é fuga, mas o recolhimento de si mesmo dentro do aconchego das mãos divinas.

Vale reforçar que todas as pessoas possuem dentro de si tudo aquilo que lhes serve para ser, ao seu modo, felizes, harmoniosas e maduras. Ninguém pode transformar o outro de fora para dentro através de manipulação. A verdadeira mudança não pode ocorrer senão a partir de dentro da própria pessoa. O que contribui no acompanhamento é o clima de amor, confiança que se consiga estabelecer. Sem este bom relacionamento, o diálogo e a relação de ajuda não se abrem à comunicação, à profundidade, à experiência, de maneira livre e construtiva.

A maturidade humana, enfim, é: conquista pessoal favorecida pelo próprio esforço, pelo ambiente, pela educação e pelos dinamismo da ação da Graça de Deus em nosso ser. Pode se realizar aos poucos num caminho evolutivo que chega a unidade e a harmonia do ser em seus diversos elementos: físico, psico-afetivo, espiritual. Vale fazermos um elogio ao esforço! Tornar se uma pessoa sólida, harmoniosa, madura e santa (observando os traços de maturidade expostos no decorrer do trabalho) não é façanha desprezível! Com efeito, Jesus adverte: “Se o grão de trigo não morrer, fica só, mas se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24). Mas sempre devemos considerar as mãos poderosas do Nosso Deus continuamente a nos modelar, (“Como o barro nas mãos do oleiro, assim são vocês em minha mão, casa de Israel”, conforme Jr 18,6 ) todos os dias de nossas vidas. Santo Agostinho define com muita sabedoria e simplicidade o caminho do crescimento humano: “orar como se tudo dependesse de Deus e agir como se tudo dependesse de nós”.

O recado final deste trabalho, deste caminho maravilhoso do amadurecimento é a paciência: a vida em si é um processo e somos todos “seres em processo”. Nenhum de nós já chegou à plena maturidade, nenhum de nós já chegou a plena perfeição, como convida o Nosso Senhor: “sede perfeitos, assim como vosso Pai do céu é perfeito.” (Mt 5,48). Somos todos frações a caminho de nos tomar números inteiros. Certa vez vimos escrito no broche de uma mulher: “Por favor, seja paciente. Deus ainda não me terminou”. Deus ainda não terminou nenhum de nós. Estamos todos a caminho do nosso pleno crescimento e potencial pessoal. E, certamente, todos precisamos de muita paciência durante este processo de amadurecimento   da nossa própria paciência e da dos outros.

Bibliografia:

A Maturidade Humana  José Maria Montecliva, S.J.   Edições Loyola

Caminho para Maturidade e a Harmonia   Luciano Cian   Editora Vozes . Caminho   Josemaria Escrivá   Editora Quadrante

Catecismo da Igreja Católica   Editoras Vozes e Loyola

Sagradas Escrituras


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