Formação

Os velhos e eu

Algumas culturas têm a visão da vida como um dom e, conseqüentemente, valorizam cada etapa. Entretanto, as culturas de consumo encaram a vida como um produto e as fases do desenvolvimento valem na medida do que podem retribuir através do trabalho ou da compra. Assim, a infância e mais ainda a velhice são descartadas, uma vez que “não “produzem”.

Muitos não pensam na velhice e especialmente para nós, jovens, esse é um tema que não nos chama muito a atenção, achamos que somos imortais e que seremos jovens para sempre.

Outros têm medo da velhice. É absurdo pensar que uma jovem de vinte e poucos anos já faça consultas regulares a um geriatra – e isso é verdade! – por medo de perder a beleza e o frescor da juventude… mas o que realmente assusta é o desprezo em que se cai na maioria das vezes depois que se ultrapassa a idade produtiva.

Recentemente tenho sido confrontada com a realidade da terceira idade através de palestras e entrevistas a que tenho ouvido e assistido; em pouco menos de um mês: Ariano Suassuna, Ruth Rocha, Carlos Drumond de Andrade (este em reprise, é claro!)… Ontem, assistindo a um programa de entrevista na TV, ouvia com embevecimento a um senhor septuagenário e em meu interior agradecia a Deus por tamanha sabedoria e pedia-lhe a graça de que aqueles que convivem comigo cheguem a essa idade com tamanha vivacidade e inteligência. Com quanta coisa fabulosa aquele senhor presenteou aos espectadores da TV Cultura em pouco menos de 60 minutos de fala!

As pessoas idosas, em geral, mesmo se não são tão estudadas têm grande sabedoria. O dito popular anuncia que “a vida é uma escola”. Portanto, quanto mais se vive, mais se sabe. Mas, absurdamente, não temos tempo para ouvir esses “doutores em vida”. Quantos de nós preferimos perder horas e horas em colóquios – reais ou televisivos – com pessoas jovens e “bonitas” do que com aquelas que já não têm uma aparência física tão atraente, mas que são capazes de nos dizer maravilhas, se lhes emprestamos o ouvido.

Eu mesma me impressionei quando, logo que cheguei ao Movimento dos Focolares, via crianças, jovens e velhos em conversas agradabilíssimas e totalmente desprovidas de preconceito. Até então era comum ver as “rodinhas”: velhos conversavam entre si, jovens entre si e assim por diante – em geral, os mais jovens não se dão o “luxo” de gastar seu tempo com os mais vividos!
Cabe falar também do termo “velho”. Se para alguns o termo significa conforto, sabor apurado, aconchego…, para a grande maioria significa estragado, ultrapassado, “não serve mais”. Pode parecer exagero, mas sem nos dar conta, transferimos nossa escala de valores com relação às coisas para as pessoas. É esse o grande problema da cultura do consumo!

Alguns dizem que a velhice é indesejada porque nos aproxima da morte. Há, pelo menos, dois pontos a refletir: primeiro, quem disse que só os velhos morrem ou que só morremos de velhice? Já dizia Machado de Assis que “para morrer, basta estar vivo”. Depois, qual a nossa concepção de morte? Retomando o ilustre entrevistado a quem me referia anteriormente, ele diz que só existe vida; a morte, nada mais é do que o nascimento para a vida definitiva, a verdadeira vida, o retorno ao lar. E, nessa perspectiva, Igino Giordanni, escritor italiano, dizia que a velhice é um progresso em direção a Deus.

É curioso que descartemos os velhos tão facilmente. Se formos fazer uma enquete acerca das expectativas de durabilidade da própria vida, com certeza, todas as pessoas dirão que desejam viver muito. Entretanto, ninguém pensa no futuro, apenas no momento imediato, e não consegue se colocar no lugar do outro: “O que eu gostaria que fizessem a mim se eu tivesse essa idade? Ou melhor: O que eu gostarei que me façam quanto eu tiver essa idade?”.

Por falta desse sentimento de futuro, as pessoas de mais idade são relegadas ao abandono, ao desemprego, à falta de condições de sobreviver… Algumas pessoas chamam a terceira idade de “melhor idade”. Particularmente, acho uma inverdade. Não que as pessoas de mais idade não tenham condição em si de ter o melhor momento de suas vidas: mais amadurecidas, mais sábias, mais independentes, mais uma série de coisas. Entretanto, no Brasil não há respeito ao idoso. Na fila do banco ainda há quem reclame quando um “fura a fila”, e isso é um direito adquirido!

E como sofre o idoso que precisa andar de ônibus! Começa que muitas vezes o motorista não pára o veículo. Às vezes, quando pára, arranca com tal velocidade que a pessoa de mais idade por pouco não perde o equilíbrio. Depois, as pessoas que estão sentadas não se preocupam com as pernas frágeis e cansadas e não lhe oferecem a cadeira.

Quem, realmente, com o salário de aposentado no Brasil tem condições de aproveitar o tempo que agora lhe é “farto” para viajar, conhecer cidades e pessoas; fazer cursos de línguas, dança ou outros; passear, divertir-se…? Quantas vezes já vimos reportagens sobre pessoas que mal conseguem pagar os remédios com a aposentadoria!

Devo falar ainda daqueles que, com a velhice, perdem a saúde e por vezes a lucidez, voltando a “ser criança”. Como faz doer ver pessoas que, depois de uma longa vida em que deram tudo de si a fim de criar da melhor maneira possível os filhos – biológicos ou espirituais – são abandonados quando deveriam receber todo o cuidado e afeto que já desprenderam livremente outrora! Posso parecer repetitiva, mas vou falar outra vez no mal do consumismo, que nos faz ver tudo como descartável. A “culpa”, certamente, é dessa mentalidade que nos leva a valorizar a pessoa não pelo que ela é, mas pelo que tem, faz ou aparenta. O Papa João Paulo II afirma categoricamente que “toda vida é um dom”. Sim, a vida é um dom em qualquer circunstância. E quantos testemunhos há – inclusive do Pe. Henri Nowen – de pessoas que dizem ter aprendido a viver e a amar verdadeiramente quando colocaram-se a serviço desses que mais “dão trabalho”.
Considero este assunto por demais sério! Peço a Deus a graça de que cada pessoa aprenda a respeitar a vida, em todas as circunstâncias. Peço toda pessoa seja valorizada e tenha assegurado o direito de viver com dignidade. Que cada um chegue à velhice sem ser abandonado pela família nem pelo Estado nem pelo desconhecido que encontra na rua. Que a velhice seja um tempo para colher o que se semeou e não um tempo para regar ainda com lágrimas! Deus abençoe a todos os velhos! Deus abençoe a todos os jovens para que creiam que um dia também envelhecerão!

Maria Auristela B. Alves
Formação/2002


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