Formação

Pega Ladrão!

 

“Ontem, na festa, usei o sapato prateado que mamãe me trouxe da Itália. Foi meu centésimo par!”, gabava-se, insanamente, a M. diante de nós, suas colegas de sala, sentadas no chão em roda durante o recreio no antigo 2º ano Clássico. Meus pés logo trataram de esconder sob a saia as solas furadas do mocassim marrom enquanto todas nos admirávamos: “Cem pares de sapatos!” Insaciáveis, pedíamos mais detalhes.

Nossa imaginação voava enquanto M. contava os detalhes da festa. Era mesmo rica, muito rica. Filha única, morava na famosa Rua Alice, sinônimo incontestável de luxo, riqueza, ostentação.

Há 40 anos, era difícil alguém ter 100 pares de sapato. Hoje, o cartão de crédito, as outbacks, a internet e, sobretudo o consumismo e vício de ostentação tornam 100 sapatos uma cifra módica. Afinal, estamos na civilização do espetáculo, da ostentação e do consumo.

A conversa com a M., aos 17 anos, sempre me vem à mente cada vez que ouço falar de desperdício e culto à ostentação e ao supérfluo. Talvez porque, já no final do 2o ano Clássico, meu mocassim furado e forrado com jornal, me fizesse, no fundo, no fundo, desejar um dos 100 alardeados pares. Possivelmente, porque, além do meu mocassim, os “sapatos do colégio” dos meus irmãos também estivessem em petição de miséria. Ou, quem sabe, porque, na esquina da minha casa, nas escadas da Loja Mundulos, se amontoassem famílias para vencer o frio da noite durante o sono sobressaltado.

Com certeza, a gabolice de M. me invade a memória, hoje, porque hoje sei que reter para si o supérfluo é, muito simplesmente, roubar.

No Ceará, quando se quer falar da sagacidade das crianças, diz-se que “menino é bicho ruim”. Pura verdade. Logo a pobre M. foi apelidada de “Péia” em alusão à centopeia. Não é que fosse muito querida, aliás, estava sempre pedindo “cola” e se achava superior a todas. No fundo, porém, nossa percepção de jovens nos fazia entender que, se ela tinha um par de pés, para que precisava de 100 pares de sapatos? Hoje, nossa maldade talvez a apelidasse de “Ladra-péia”. Não só retinha para si o que não precisava, como ainda se vangloriava disso.

Parece duro dizer que quem retém para si o supérfluo está ferindo o 7º mandamento: “Não furtarás”. E também o 9º e o 10º: não cobiçarás o que é do teu próximo e nem as coisas alheias. O Catecismo da Igreja Católica explica bem direitinho. O que ultrapassa minha necessidade não é meu, mas de quem precisa dele.

A dureza da palavra “roubar” desaparece ao entendermos que, quando Deus nos dá mais do que precisamos, esse “plus” nos é dado para partilhar com os outros. Deus nos quer dar o privilégio de participar de sua Providência para com nosso irmão.

A Igreja diz isso por causa de um princípio que se chama de “destinação universal dos bens”, isto é: os bens da natureza e de produção são destinados a todos. Se os retenho sem necessitar deles, alguém ficará sem eles. Como no caso da “Péia”, que tinha 100 pares de sapato e convivia comigo, que tinha um esburacado e forrado de jornal.

Esse jeito de pensar da Igreja não vai contra a propriedade privada. De forma nenhuma. A pobre “Péia” tinha o direito de adquirir quantos pares de sapatos quisesse. O diferencial é que tinha, igualmente, o dever de amor de partilhar tudo o que não lhe fosse necessário.

Tem gente que, como a M., adora acumular coisas desnecessárias: “Vai ver que um dia preciso”, dizem. Muita coisa vai mudar para melhor quando houver gente que, por amor a Deus e ao irmão, adore partilhar o que lhe é desnecessário e que, portanto, não lhe pertence.

Maria Emmir Oquendo Nogueira


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