Formação

Pela vida do feto

O presidente da CNBB, dom Geraldo Majella, diz que cientistas vendem ilusões de cura com uso de células-tronco por comércio

O tempo do cardeal Geraldo Majella Agnelo é dividido entre Brasília e Salvador. Desde maio de 2003, ele preside a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e é também arcebispo na capital baiana. Não há correria, contudo, que interfira em sua tranqüilidade e boa vontade em procurar traduzir à sociedade as posições da Igreja Católica. Em entrevista a ÉPOCA, dom Geraldo acusa cientistas de terem motivação comercial no uso de células-tronco para pesquisa e tratamento de doenças sem cura, tema em debate no Congresso Nacional. Ele diz que ao ser humano é reconhecida uma dignidade inviolável, que seria afrontada ao se destruir um embrião, manipulá-lo e tratá-lo como um objeto para aproveitar o poder de suas células. Essa prática, afirma, pode ser comparada à comercialização de órgãos humanos. Com firmeza, o cardeal opina sobre assuntos polêmicos, como adoção de bebês por homossexuais, receio quanto a transplantes de órgãos, risco de o governo Lula ser pouco criativo na economia e os pecados da própria Igreja.

Quando o governo anunciou a revisão da lei do aborto para a interrupção de gravidez de fetos sem cérebro, o senhor disse que a Igreja Católica se mantém contra e não se preocupa se vão considerá-la ultrapassada. Não deveria se preocupar?

Dom Geraldo Majella Agnelo – A Igreja preocupa-se com a satisfação da vida. Não acha conveniente dar soluções simplistas, que parecem ótimas no momento, mas que se mostram uma armadilha em seguida. O homem e a mulher necessitam de propostas de vida. Como a cultura hoje dominante parece mais preocupada em conseguir facilidades, vantagens, utilidades e, no fundo, lucro, ignora uma dimensão mais profunda. Se zelar pelo bem real das pessoas significa ser ultrapassado, viva os ultrapassados.

O Supremo Tribunal Federal julgará em breve o mérito da ação que autoriza o aborto de anencéfalos. Os ministros têm suas crenças. Que conselho lhes dá para julgar conforme o Estado laico e de bem com suas consciências?

Dom Geraldo – Os ministros podem ter as crenças que quiserem, eles não podem é abdicar de sua tarefa de defender o Direito e a Justiça, com especial dedicação aos mais vulneráveis e indefesos, caso dos fetos. Afirma-se que se quer evitar o sofrimento da mãe de carregar um feto que não vai viver. É justo tentar evitar sofrimentos, mas não a qualquer preço. Parece solução mais adequada oferecer a essas mães um suporte que as ajude a valorizar a vida a elas confiada, enquanto durar.

Especialistas em saúde pública lembram que transplantes de órgãos são feitos com o coração do doador batendo, apesar da morte cerebral. Dizem que o caso equivale ao de aborto de anencéfalos. Qual sua avaliação?

Dom Geraldo – Os cientistas estão ainda discutindo quando se pode considerar uma pessoa clinicamente morta. Não estamos diante de uma definição universalmente aceita. Até o momento, afirma-se que o feto anencéfalo manifesta sinais vitais no ventre materno e morre algum tempo depois.

Qual a posição da Igreja quanto aos transplantes de órgãos?

Dom Geraldo – É uma grande conquista da Medicina, que pode oferecer anos preciosos de sobrevida. No entanto, é uma realidade delicada. Sempre aparecem notícias de compra e venda de órgãos, além de casos em que crianças ou adultos são seqüestrados e mortos para retirá-los. Muitas pessoas manifestam o receio de que, após um acidente, possa ser acelerado o processo de morte devido a interesses nos órgãos. É necessário garantir a transparência e a certeza dos procedimentos para superar resistências.

Debate-se no Congresso Nacional o uso de células-tronco para pesquisa de tratamentos contra males sem cura. O que dizer aos que sofrem desses males e vêem aí uma esperança?

Dom Geraldo – A descoberta das células-tronco é uma conquista da Ciência, que abre a esperança de debelar doenças sem solução. As células-tronco podem ser encontradas nos embriões, mas também na placenta e no cordão umbilical e no corpo do adulto. Conhecemos cientistas sérios que trabalham com células-tronco. Eles afirmam que são mais eficazes as células retiradas do organismo sobre o qual operam, pois estão livres do problema da rejeição. Há também quem vende ilusões, quem faz a lista de portadores de doenças graves, como se, aprovada a lei, logo pudessem ser feitas terapias eficazes. Passam-se anos de experimentação em animais antes de ser liberado o uso de novas terapias em humanos. O fato é que estamos diante de um grande business que pode interferir no debate.

O senhor acha que está mais para um negócio?

Dom Geraldo – No horizonte da fé cristã, que compreende o ser humano como criatura, imagem e semelhança de Deus criador, há uma dignidade inviolável. Pensar que um embrião possa ser destruído, manipulado, tratado como um objeto para aproveitar o poder especial de suas células não é muito diferente de comercializar crianças com a finalidade de utilizar seus órgãos, transplantando-os em indivíduos doentes. A pesquisa com células-tronco pode perfeitamente progredir usando as de organismos adultos e as da placenta e do cordão umbilical. Não é verdade que a pesquisa científica é impedida quando não se lança mão das células retiradas de embriões humanos.

E quanto a embriões de fertilizações in vitro não-aproveitados e que vão para o lixo?

Dom Geraldo – É mais um dos horrores produzidos nesse ambiente de sofisticada tecnologia, que movimenta grandes recursos e proporciona lucros fabulosos.

Novelas vêm exibindo personagens que formam casais homossexuais. A de maior audiência dos últimos tempos, Senhora do Destino, mostra duas mulheres apaixonadas. Como vê esse debate?

Dom Geraldo – Não costumo assistir a esses programas, mas li, recentemente, um texto do Ziraldo em que ele questionava a insistência em mostrar uma relação de homossexuais, apresentados como mais inteligentes, mais educados, mais civilizados, mais realizados do que os heterossexuais, insistentemente mostrados como grosseiros, rudes, vulgares etc. E Ziraldo não é certamente porta-voz das sacristias.

O amor entre pessoas do mesmo sexo, com vida sexualmente ativa, não é um amor verdadeiro?

Dom Geraldo – Uma relação homossexual será a busca do outro ou será a busca do mesmo, num jogo de espelhos de tipo narcisista? A relação homossexual será caracterizada pelo dom recíproco e sincero de si, para o bem, para a felicidade do outro, ou será caracterizada pela posse do outro como meio para aliviar as próprias tensões? Quando um amor é verdadeiro? Basta habitar sob o mesmo teto e manter relações sexuais? Essas questões referem-se a todas as relações, homossexuais ou não, e a resposta não é de natureza política. Não será a reivindicação política a garantir a verdade do amor.

Como a Igreja define homossexualismo?

Dom Geraldo – O homossexualismo ä representa uma atração sexual mais ou menos exclusiva por pessoas do mesmo sexo. Uma tendência sexual que se constitui no momento do desenvolvimento afetivo da pessoa, mas que se fixa na base de um conflito psíquico não-resolvido.

Qual sua opinião sobre a adoção de crianças por homossexuais?

Dom Geraldo – É legítima a reivindicação dos homossexuais de viver na sociedade sendo respeitados em suas diferenças, sem discriminações ou perseguições que os oprimam. No caso de adoção por parte de casais de homossexuais, a criança aparece, em algumas discussões, mais como um pretexto para a afirmação de um direito político a ser conquistado que pela possibilidade de uma relação educativa benéfica a ela. Exatamente pelo clima emocional que envolve o debate, é possível que o interesse da criança seja o que menos importe. Além disso, toda criança tem o direito a ter um pai e uma mãe, mesmo que isso muitas vezes não seja possível.

Que diferença marcante há entre católicos e evangélicos?

Dom Geraldo – Creio que a diferença maior consista na continuidade da Igreja Católica com a sucessão apostólica, que, de maneira ininterrupta, liga, geração após outra, numa linha só, os bispos atuais aos do passado, até chegar a Pedro e a Jesus Cristo. E de cada bispo é possível reconstruir toda a seqüência através da qual a missão apostólica foi transmitida. Esse fato significa que não somos inventores de nada, mas administradores do patrimônio de fé que nos foi confiado. As comunidades evangélicas constituem criações cuja conexão com a origem do cristianismo é ideal, e não concreta.

O crescimento evangélico ainda assusta a Igreja Católica?

Dom Geraldo – Certamente constitui motivo de reflexão e de esforço para compreender melhor as circunstâncias da cultura na qual somos chamados a testemunhar a beleza e a paz que se encontram em Jesus Cristo ressuscitado.

Como diferenciar grupos carismáticos católicos de cultos evangélicos?

Dom Geraldo – Os grupos da Igreja Católica vivem um nexo com o bispo e com o papa e com toda a riqueza de testemunho dos santos que chega até nós. As reuniões poderão ter ocasionalmente elementos de semelhança com as de outras religiões, mas a substância é diferente.

A Igreja vem se sentindo discriminada. Como é exatamente a campanha contra a cristianofobia que o Vaticano deseja ver reconhecida pela ONU como mal equivalente ao ódio a judeus e muçulmanos?

Dom Geraldo – Mais que campanha, é um grito de alerta para que a intolerância não destrua o clima de diálogo e de democracia que foi conquistado com sacrifício nas últimas décadas. Sempre ressurge a tentação de demonizar um adversário. Há sinais, espalhados pelo mundo, de uma onda de intransigência a posições da Igreja, que experimenta um preconceito tremendo contra seus membros e contra ela mesma. A forma mais grave de preconceito é a que se alia à arrogância, típica de pessoas inseguras, incapazes de responder a argumentos com outros argumentos, mas procedem com a desqualificação de seus adversários.

A Igreja Católica tem suas posições e orientações aos fiéis. A Igreja peca?

Dom Geraldo – Uma fórmula antiguíssima fala da Igreja como sendo ‘santa e pecadora’. Com efeito, a Igreja é constituída de um fator humano, com seus limites, contradições, incoerências e incompreensões. E de um fator divino, isto é, Jesus Cristo ressuscitado. Então não é de admirar quando afloram pecados dos membros da Igreja. Mas eles não eliminam a grande presença do Redentor. Creio que o pecado mais grave da Igreja seja concentrar, às vezes, suas atenções em questões secundárias que a sociedade põe em pauta, deixando em segundo plano o anúncio de Jesus Cristo vivo e o testemunho de como nele se encontram beleza, paz, força da misericórdia e luz da sabedoria, capazes de renovar a vida.

E quanto ao governo Lula? Está imprimindo a marca social que deseja?

Dom Geraldo – O presidente Lula tem uma origem popular que o preserva dos equívocos das ideologias. Isso lhe permite pensar os problemas da sociedade brasileira com grande aderência. O perigo que ele corre é de ceder a grupos que o levam a ser pouco criativo na economia, a ter um passo lento nas questões sociais e a canalizar as energias do governo para temas de ordem cultural e ética, que respondem mais aos interesses da burguesia radical que aos interesses do povo.

Que mensagem gostaria de passar ao presidente para 2005?

Dom Geraldo – A de muita realização. Que a persistência que teve para eleger-se, cultivando o sonho de ser ele o instrumento da construção de um Brasil mais justo e fraterno, seja aplicada para traduzir tudo isso em prioridades e planos executivos, de modo que possam efetivamente ser gerados empregos, diminuídas as desigualdades, melhorada a qualidade da educação etc.

Fonte: Revista Época


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