Unsplash
Formação

Precisamos de uma tempestade para reconhecer a divindade de Jesus?

Não apenas nas tempestades da vida, mas também na brisa leve, Deus se manifesta (cf. 1 Rs 19,12).

Jesus acalma a tempestade e os discípulos ficam “espantados” (cf. Mt 8,27), isto é, “cheios de temor de Deus”. A expressão grega que o evangelista Mateus utiliza é ethaumasan (ἐθαύμασαν), que é a conjugação do verbo thaumazó (θαυμάζω). Este verbo aparece quarenta e quatro vezes no Novo Testamento e pode ser traduzido como “surpreendido”, “impressionado”, “impactado”.

No contexto bíblico, é usado geralmente para descrever a reação a uma manifestação divina, pelo que se deduz que a “surpresa” ou “espanto” vem do reconhecimento das “maravilhas de Deus”. De fato, “maravilha” em grego é thauma (θαυμάζω) e é deste vocábulo que surge o verbo thaumazó (θαυμάζω). Na passagem da tempestade acalmada, os discípulos ficam “maravilhados”, “surpresos” ou “espantados” porque reconhecem a divindade de Jesus quando este demonstra a sua autoridade sobre a natureza.

Ora, em outras das inúmeras viagens relatadas pelas Escrituras em que o Colégio Apostólico fez junto com o seu Mestre de barco (cf. Mc 1,2-20; Jo 6,1), o mar ficou calmo, não teve ventos fortes nem tempestades. Em nenhum destes casos, constata-se um reconhecimento da divindade de Jesus. Os discípulos não ficaram “maravilhados” porque passaram para a outra margem do mar sãos e salvos, sem maiores dificuldades.

A pergunta é: o Senhor agiu também naquelas ocasiões? Foram também aquelas viagens tranquilas e sem problemas uma manifestação do cuidado de Deus? Definitivamente, sim. Deus sempre está conosco (cf. Mt 28,20; Js 1,9), Ele nos conduz para as águas tranquilas (cf. Sl 23 (22),2), cuida de nós e nunca nos deixa (cf. Dt 31,8). Não apenas nas tempestades da vida, mas também na brisa leve, Deus se manifesta (cf. 1 Rs 19,12).

Quando estamos “bem”, não rezamos (e se o fazemos, não o fazemos com tanto afinco); esquecemos da confissão e da missa; não lembramos que Jesus eucarístico espera por nós na capela.

Contudo, aparentemente, nós apenas reconhecemos a ação de Deus quando estamos na tempestade e Ele intervém. Caso contrário, mal consideramos a Deus nos nossos dias. Quando estamos em problemas, quando estamos em meio a um discernimento, quando estamos com a saúde debilitada ou alguém próximo a nós, é então que pedimos, suplicamos, nos ajoelhamos e investimos tempo na oração e nas diversas práticas de piedade.

Porém, quando estamos “bem”, não rezamos (e se o fazemos, não o fazemos com tanto afinco); esquecemos da confissão e da missa; não lembramos que Jesus eucarístico espera por nós na capela para ser adorado. Este comportamento deixa em evidência a nossa indiferença Àquele que tanto nos ama e que ainda procuramos “os milagres de Deus” e não “o Deus dos milagres”.

Parece que nós precisamos de uma tempestade para reconhecermos a divindade de Jesus presente na nossa vida. Parece que nós precisamos de uma tempestade para gritarmos: “Senhor, salva-nos! Estamos perecendo!”, sem perceber que a indiferença para com Deus é pior morte do que qualquer tribulação e tempestade que possa nos ameaçar.

Se você está atravessando o mar e surge uma grande tempestade, não tenha medo! Confie em Deus! Ele tem poder sobre tudo! Ele está contigo!

Se você está atravessando o mar com aparente calma, louve! Dê graças! E não se esqueça dAquele que está batendo à porta (cf. Ap 3,20), sempre querendo entrar mais na sua vida.


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *