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Resiliência não é sinônimo de autossuficiência

Os mecanismos de resiliência nos ajudam a ver como a capacidade de superação do ser humano é inesgotável. Existe sempre uma via de saída, uma solução, não importa qual seja.

Resiliência, o que é?

Chamamos de resiliência um conjunto de fatores que definem a capacidade de se conseguir viver e de se desenvolver positivamente, de maneira socialmente aceitável, mesmo diante do stress ou de situações adversas que implicam fortes riscos de derrota e regressão. Não somente afrontar tais situações difíceis, mas uma vez que essas passam tornar-nos ainda mais fortes, amadurecidos, descobrindo dons e qualidades até então desconhecidas. Não é isso que o mistério de dor provoca em nós?

 Froma Walsh (2008), em seu livro Resiliência Familiar, cita uma frase que nos ajuda a entender bem o que é a resiliência: “Na profundidade do inverno, aprendi que dentro de mim tem um verão invencível”. Os mecanismos de resiliência nos ajudam a ver como a capacidade de superação do ser humano é inesgotável. Existe sempre uma via de saída, uma solução, não importa qual seja. Não só Walsh, mas outros psicólogos e teóricos, como por exemplo, o francês, Boris Cyrulnik, começaram a escrever sobre a resiliência, porque se deparavam com historias de pessoas que sofreram graves traumas na vida, e conseguiram dar a volta por cima (lutos, sobrevivência a guerras, abandono infantil, etc.). O que essas pessoas tinham de especial? Por que, diante de algumas situações semelhantes, alguns conseguem, e outros não? Podemos pensar em Victor Frankl. Sobrevivente de guerra que ali, em um ambiente hostil, lançou as bases da sua logoterapia; A resiliência não só tem tudo haver com logoterapia, mas é logoterapia. Podemos pensar em tantos santos que, tocados por uma força interior (Deus, fé, virtudes, amor esponsal), respondem, de maneira impressionante, aos desafios, sofrimentos, tentações da vida. Podemos pensar nas pessoas simples, do nosso dia a dia, do nosso convívio, que conseguem, com alegria e rapidez, dar sentido aos tantos dramas que a vida nos apresenta (stress, doenças graves, perdas) e ficamos maravilhados com os seus testemunhos de vida. Mas, o que de diferente essas pessoas têm, então? Como faço para decifrar tal hermenêutica?

Muitos psicólogos, estudando tais pessoas, casos, decifraram que existem inúmeros fatores em nós que provocam resiliência. Precisamos aprender a reconhecê-los, aprender, sobretudo, a multiplica-los, e a estarmos convictos de que o ser humano foi criado com uma fonte inesgotável de dons e possibilidades. Não se nasce resiliente, mas nos tornamos resilientes à medida que aprendemos a focar mais no que temos de bom, que funciona bem, e assim gastamos menos forças, não nos frustrando pelo que não temos; À medida em que os sofrimentos e dores da vida surgem e consigo descobrir que existe sempre uma via de saída, uma solução, e acredito nisso; À medida em que decido não ser mais a vitima de situações e pessoas, mas decido enfrentar, descobrindo algo que eu posso aprender com aquela situação, que eu posso crescer interiormente, e assim me tornar melhor e mais livre.

Resiliência não é sinônimo de invulnerabilidade

Antes de passarmos ao aspecto de como promover a resiliência, é importante deixar claro que resiliência não é sinônimo de invulnerabilidade e, muito menos, de autossuficiência. A pessoa resiliente pode permanecer ferida no corpo e na alma, mas não se paralisa, vai além de tais feridas enfrentando com coragem, responsabilidade e competência a própria existência. Portanto, a resiliência é dinâmica, fruto da interação entre o individuo e o ambiente e, devido à sua riqueza, versatilidade e fluidez, é mais correto falarmos dela como um processo vivido pelo ser humano que com um conceito “engessado”.

A História, mesmo com sua dor dilacerante, não pode deixar de ser vivida, mas se afrontada com coragem, não precisará ser vivida novamente.” 

Como promover a resiliência pessoal e comunitária

Assim como os fatores de risco contribuem para um estado de vulnerabilidade, da mesma forma existem fatores de proteção que forjam o processo de resiliência em nós. Segundo Malaguti (2005), são eles:

1) Fatores de proteção em nível individual: temperamento proativo, afável e gentil; bom nível de inteligência e capacidade de problem solving (estratégias de soluções para problemas); criatividade; estima de si e elevado senso de auto eficácia; consciência e valorização das relações interpessoais e competência social; empatia; locus of control (controle interno); senso de humor; carismaticidade para com as pessoas; espírito jovem; flexibilidade; propensão ao otimismo e etc.

2) Fatores de proteção familiar: pais calorosos e sustento parental; relação positiva entre pais e filhos; relação positiva entre irmãos; harmonia familiar e etc. A capacidade de resiliência parece estar muito ligada à unidade e vivencia familiar. É no núcleo familiar que se encontra, primordialmente, o sustento expansivo, emotivo e afetivo e que, quando não pode ser dado pelos pais, pode ser fornecido pelos avós, irmãos, tios.

3) Fatores extrafamiliar: um outro polo relacional importante para o desenvolvimento da resiliência é representado pelo sustento extrafamiliar. No momento em que os pais passam por condições difíceis ou são ausentes ou até mesmo inadequados, outras figuras, como vizinhos, professores, sacerdotes, educadores, amigos, colegas assumem um papel importante, cuja relação promove fatores de resiliência. Sublinhamos aqui, a importância da escola, habitat por excelência de um bom período de nossas vidas, no qual vivemos e fazemos tantas experiencias, extraindo, portanto, tantos dons e qualidades nossas, contribuindo, dessa forma, para o crescimento da autoestima e senso de eficácia pessoal.

Os fatores de proteção que descrevemos são, digamos, a mola-propulsora do processo de resiliência. É a partir deles e da interação entre eles que tal processo tem inicio. É interessante percebermos o quanto o aspecto relacional é decisivo. É exatamente através do contato com o(s) outro(s) que os fatores de proteção são ativados. Uma vez ativados diante de uma situação stressante ou potencialmente traumática, o processo de resiliência começa. Tal processo termina quando superamos tal situação, permanecendo não exatamente como éramos antes, mas tornando-nos mais fortalecidos e amadurecidos.  

Não poderíamos permanecer de olhos fechados e não percebermos o quanto também dentro de nossas comunidades religiosas nos deparamos com muitos fatores que provocam resiliência. A espiritualidade e a vida comunitária de cada Carisma são elementos de tal forma rico que deles podemos extrair uma enormidade de dons, sentido, fatores que contribuem ao desenvolvimento de resiliência em nós. Mais uma vez, recorramos a Froma Walsh (2008, 89s) que claramente nos mostra o quanto podemos extrair de resiliência através da espiritualidade: o crer no transcendente promete um sentido, uma finalidade e uma união que vai além de nós mesmos, de nossas famílias e de nossos problemas (…), oferece clareza à nossa vida e consolação nos momentos difíceis, tornam os imprevistos menos ameaçadores, porque se está abandonado a Algo maior que nós mesmos e, por isso, favorece a capacidade de aceitação de situações que não podem ser mudadas.

Continua, ainda, Walsh: a espiritualidade implica um investimento ativo na nossa interioridade e suas crenças, portando-nos a um senso de fecundidade, plenitude e conexão com os outros (…), exorta-nos a uma expansão da nossa consciência juntamente com a passagem de uma responsabilidade pessoal a uma responsabilidade universal. Basta procurarmos em nossa mente exemplos de pessoas que são cheias de interioridade (sem enfeitar muito os termos, um homem ou mulher de oração): são pessoas altamente altruístas, de um “eu” forte capaz de enfrentar qualquer provação ou tribulação (= resiliência) e ainda promotoras de resiliência nos outros.

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A força do ir além

Nós, como Carisma Shalom, não temos como não pensar na graça do Amor Esponsal. É um tema literalmente inesgotável! “Ao coração abrasado, se pode pedir tudo! Inflamados pelo amor divino, tudo podemos dar!” (Moysés Azevedo, 2018). Para nós, shalomitas, é também daqui que vem a força de superação, do ir além. Será que nós já pensamos o bastante sobre o que significa este “estar inflamado”? Será que temos “um milésimo de ideia” da força que isso significa? Tenho certeza de que este “estar inflamado” vibra em nós quando lemos nossos Escritos, quando ouvimos o Moysés, quando rezamos com a Emmir, porém, isso não pode durar só alguns minutos, momentos. Precisamos prolongar tal estado por mais tempo para que se produza mais resiliência, superação e crescimento concreto diante dos embates do nosso caminho.

Para os que não sabem, até a ciência comprova através de vários estudos e experimentos que a fé, oração e meditação promovem a saúde, reduzindo o stress e reforçando o sistema imunológico e cardiovascular (Dossey ed altri, 1993 cit in Walsh, 2008, 93). Enfim, seja a espiritualidade que vai ao profundo de nós, seja o aspecto comunitário, o qual se torna uma espécie de habitat de criatividade, troca de experiencias, humorismo, descoberta de si, e aprendizagem com o outro, são excelentes promotores de resiliência.

Romulo Araujo

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO M. (2018). Revista Escuta. Fortaleza-CE: Edições Shalom.

BECCIU M., COLASANTI A.R. (2016). Prevenzione e salute mentale. Manuale di psicologia preventiva. Milano: Franco Angeli.

MALAGUTI E. (2005). Educarsi alla resilienza. Come affrontare crisi e difficoltà e migliorarsi. Trento: Erickson.

WALSH F. (2008). La resilienza familiare. Milano: Raffaello Cortina Editore.


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