Formação

Rosto novo da humanidade

Quando a luz é treva
E desfalece o homem,
Guardião da cidade,
Eis que tu revelas,
Mulher conhecida somente de Deus,
Um rosto novo da humanidade.

Tua presença destruiu
As tiranias do mundo
Em nome de um só amor:
Paixão que te faz forte,
Livre para teu Senhor,
Na plena união com o Espírito.

Tua presença é um canto,
É a esperança nova
De um povo sem norte:
Sabedoria que ilumina,
Mulher que pacifica
E reanima a fé sem nada romper.

Encontrei este hino no Magnificat, um livreto para a liturgia diária da Igreja da França . Faz parte das Laudes adaptada para o pouco tempo dos leigos que ele propõe para cada dia. Estava, justamente, pedindo a Deus que me iluminasse para escrever sobre Maria de uma forma nova, acessível a todos, e, especialmente, eficaz. Assim, o hino veio mesmo a calhar. Fala da humanidade e de cada homem. Fala de Maria e de sua missão não somente para com Deus, mas também para com a humanidade.

É comum e até repetitivo, certamente por falta do hábito de contemplar a ação de Deus em sua Mãe, ler e ouvir falar da missão de Maria com relação a Deus: sua concepção sem pecado, sua concepção pelo Espírito Santo, sua maternidade divina, sua virgindade antes, durante e após parto, seu fiat, seu serviço a Deus como mãe do Filho, sua obediência, sua fidelidade até o fim e tantas coisas mais que se diz, pensa e reza sobre o inesgotável mistério da Mãe de Deus, Mãe do Verbo Encarnado.

Mas, e sobre sua missão quanto à humanidade e quanto a nós, quanto à nossa humanidade concreta, com nome e sobrenome? Diz o Magistério que a formação da humanidade é a base para toda formação espiritual. Como Maria influi e forma nossa humanidade? O que é ela para nós? Como ela pode nos ajudar a ser os homens e mulheres que a Trindade sonhou?

Normalmente se fala das virtudes de Maria – e são tantíssimas! Ao falar-se delas, porém, de suas perfeições e de seu elevado número, tende-se a deixar Maria tão longe de nós, tão distante de nossa limitação que a tendência é desanimarmos, sentindo-nos incapazes, distante da única que pode possuir tantas, tão altas e tão perfeitas virtudes.

Para obter as virtudes de Maria, ainda que no pequeno número e no nível de imperfeição que nossa limitação impõe, antes de imitar Maria, urge contemplar Maria, ou melhor, contemplar as maravilhas de Deus em Maria, como ela mesma faz e orienta em seu Magnificat.

Por isso este hino atrai: fala da ação misteriosa da presença de Maria no meio da humanidade; da vital diferença que faz sua presença no meio dos homens, com relação a eles e com relação a Deus. Na Trindade, o Pai contempla a humanidade de seu Filho e, nele, a humanidade de Maria elevada à perfeição da obediência de amor. O Filho contempla a humanidade de Maria como mãe e como discípula perfeita. O Espírito a contempla como a criatura mais dócil e aberta à sua ação, como a pessoa humana que mais perfeitamente participa do amor de doação e acolhida da Trindade. A Igreja a contempla em uma série de títulos, entre os quais aquela que é o fruto por excelência do amor de Deus, chamado misericórdia aqui na terra, para que a misericórdia seja chamada amor no céu .

Através de Maria, que, mesmo elevada ao céu, não abandona sua missão de acolher a Misericórdia em si mesma e ministrá-la sobre a humanidade, o amor de Deus não cessa de revelar-se na história da Igreja e da humanidade . Concretamente, isso significa que podemos recorrer a ela para bem acolhermos os frutos da salvação. Mais que um modelo, então, Maria torna-se uma mãe, uma mulher a quem recorrer, uma despenseira da graça da salvação, especialmente quando nos encontramos mergulhados no mal moral (o pecado) e físico. Sua ação na economia da graça perdura sem interrupção, como afirma a Lumen Gentium, 62. Se Deus confiou à mulher o homem, como afirma João Paulo II em A missão e vocação da mulher, podemos imaginar o nível de graça derramada sobre Maria para que bem exerça sua missão de mulher e mãe de todo e cada homem pelos séculos sem fim, não somente enquanto esteve aqui na terra, mas por toda a eternidade, uma vez que os dons de Deus são irrevogáveis e ela está ressuscitada.

Diz o nosso hino:
Quando a luz é treva
E desfalece o homem,
Guardião da cidade,
Eis que tu revelas,
Mulher conhecida somente de Deus,
Um rosto novo da humanidade.

Posso contemplar a Trindade que por sua vez contempla constantemente a humanidade desfalecida de hoje, tão guardiã de si mesma, tão cheia de si, tão indiferente a Deus e vê-la encher-se de alegria ao contemplar Maria, o rosto novo da humanidade redimida, completamente entregue a Deus, inteiramente rendida a Ele, paraíso em que Ele se sente inteiramente à vontade, como diz São Luis Grignon de Montfort.

Posso contemplar a humanidade, a mim e a você, que, desfalecida e desiludida com sua auto-suficiência, ou, pior ainda, presa de suas ilusões, tem em Maria seu novo rosto. Rosto que substitui o orgulho pela humildade, a auto-suficiência por abandono confiante, a fé em si mesmo pela fé incondicional em Deus. Conhecida somente de Deus, ela desenha no coração do homem o amor e a obediência que o farão conhecido Dele . Para tanto, muito mais que esforçar-se por imitá-la, o que está acima de nossas forças, cabe contemplar este Rosto Novo e, por ele, colher a graça que constantemente o renova. Mais que força de vontade, trata-se de oração, de contemplação, de acolhida, de silêncio.

Tua presença destruiu
As tiranias do mundo
Em nome de um só amor:
Paixão que te faz forte,
Livre para teu Senhor,
Na plena união com o Espírito

Cremos, realmente, que a presença de Maria na humanidade destruiu as tiranias do mundo? Cremos, realmente, que sua concepção imaculada, ao possibilitar a encarnação do Verbo, inaugurou em sua pureza e pequenez, a época em que seria destruída tirania do Inimigo? Conseguimos ver este minúsculo pezinho, no seio de Ana, a pisar a serpente em nome do Amor que se faz Misericórdia?

Em Maria, o amor de Deus é paixão. Nela, pela primeira vez, o mundo conhece a chama apaixonada do amor esponsal, que não mede conseqüências no amar, aparente fraqueza que a faz forte e livre; que a cria e torna exclusiva de Deus, forte pelo Espírito inflamador das almas e livre para unir-se a Ele como Esposa.

É preciso contemplar em Maria esta obra inflamadora do Espírito, obra que, como o fogo, liberta sua humanidade de toda escravidão; como o fogo, fortalece e torna firme o que foi purificado; como fogo une e torna uma só coisa. Maria não foi inflamada de amor esponsal somente no Magnificat, mas em cada segundo da vida terrena e eterna. É a mais perfeita chama de amor a Deus da parte dos homens e, depois de seu Filho, a mais perfeita flama de amor de Deus para com os homens.

Tua presença é um canto,
É a esperança nova
De um povo sem norte:
Sabedoria que ilumina,
Mulher que pacifica
E reanima a fé sem nada romper.

Maria está presente. Quer pensemos nela, quer a esqueçamos. Nosso esquecimento ou lembrança não afetam a missão a ela confiada pela Trindade. Ela continua presente, como mãe, como um canto contínuo que serve de fundo à nossa vida, um canto contínuo da humanidade a Deus, ainda que esta esteja distraída, desiludida, esquecida dEle. Em nome desta humanidade esquecida de Deus, ela é sempre presença de louvor e entrega obediente; seu Magnificat jamais cessou, jamais cessará.

Maria, sempre presente, é esperança renovada, é sabedoria que ilumina, é Mulher que pacifica nossa humanidade cuja desesperança vem da opção pelas trevas. É mulher que pacifica porque reanima a fé, a rendição livre e feliz à vontade de Deus, que,como diz Bento XVI, nada nos tira, absolutamente nada. Nosso papa certamente contempla a ação desta Mãe que, ao fazer e fazer-nos fazer a vontade de Deus, une-nos a ela e reanima nossa fé como a luz que atravessa a vidraça sem nada tirar, sem nada romper.

Em seu ser mais profundo, inscrito em sua humanidade inteira, esta Rainha da Paz não traria impressa a memória sempre viva e atuante da luz que a atravessou como a uma vidraça e, sem rompê-la, fecundou-a com o Verbo? Certamente. Maria traz em todo o seu ser a presença viva da graça da salvação, a mediação da Paz de forma incomparável. Mas sobre isso a gente fala em outra hora.


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