Formação

Santíssima Trindade segundo São João da Cruz

santc3adssima-trindade-21São João da Cruz é poeta, capta a função da beleza das palavras. É poeta místico, centrado na união da alma com o seu Amado. Deus no homem e o homem em Deus. Simples união em que a alma “fica transformada em Deus por amor” (2 livro da Subida do Monte Carmelo 5,3).

Deus não se pode ser compreendido racionalmente. Por isso os místicos são aqueles que falam do mistério da Trindade com mais propriedade, pois fazem profunda experiência de Deus. Escreve Unamuno que, “os místicos raras vezes dão idéias sobre seu Senhor, porque não é simplesmente pensam sobre Deus, as porque vivem n’ Ele. Vivem em Deus, o que é mais pensá-lo, senti-lo ou querê-lo. A oração deles não é algo que se destaca e se separa dos outros atos da vida, nem precisam recolher-se para faze-la porque a vida deles é oração. Oram vivendo” .

O distintivo da mística está no amor a Deus, com tudo o que a palavra amor implica. Por isso, a Igreja, como construtora da civilização do amor, deve ser formada por ” místicos” , ou seja, é uma ” comunidade que está composta por homens reunidos em Cristo e são dirigidos pelo Espírito Santo em sua peregrinação rumo à casa do Pai” (Gaudium et Spes 1).

O Concílio Vaticano II, fundamenta a Igreja na família trinitária do Pai, Filho e Espírito Santo. A Igreja não é mera instituição humana. É comunidade de amor de Deus com os homens e dos homens com Deus.

São João da Cruz, canta na estrofe da chama viva de Amor: ” oh! Catutério suave! oh! Regalada chaga! Mão branda! oh! Toque delicado…”

A queimadura suave de amor produz “a chaga de amor suave e assim, será regalada suavemente” . O próprio Doutor Místico declarará: “Nestes versos dão a entender à alma, como a três pessoas da Santíssima Trindade, são os que fazem esta divina obra de união. O cautério (fogo) é o Espírito Santo, a mão é o que o Pai, é o toque delicado com que me tocaste e me chagaste na força de teu mistério” (2 livro da Chama viva de amor, 16).

No livro “Cântico Espiritual”, São João da Cruz afirma que ” o Verbo Filho de Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, essencial e presencialmente escondido no íntimo ser da alma. Para achá-lo deve, portanto, sair de todas as coisas segundo a inclinação e a vontade e entrar em sumo recolhimento dentro de si mesma” (Cântico Espiritual 1,6).

A Trindade é o modelo ou protótipo de toda a criação. Em tudo encontramos a marca da presença trinitária. O Pai criador de todas as coisas e mantém a essência e existência de todo o criado. O Verbo, Filho de Deus, modelo do homem novo, novo Adão, o Unigênito de nova humanidade, espiritualmente recriada, ressuscitada. O Espírito Santo é o Artífice do Reino, o Santificador, o fogo que ilumina, aquece e transforma tudo segundo o Eterno desígnio do Pai.

Há três espécies da presença de Deus na alma, segundo São João da Cruz, ou seja, “a primeira (presença natural) é por essência: desta maneira Ele está presente não só nas almas boas e santas, mas também nas más e pecadoras, assim como e todas as criaturas.

A Segunda (presença espiritual) é pela graça, em que Deus habita na lama, satisfeito e contente com ela; nem toda gozam desta espécie de presença, pois as que estão em pecado mortal perdem-na; e a alma não pode saber naturalmente se a possui.

A Terceira (presença afetiva) é por afeição espiritual, e em muitas almas piedosas, costuma Deus conceder algumas manifestações espirituais de sua presença por diversos meios, a fim de proporcionar-lhes consolação, deleite e alegria.

Essas presenças são também, como todas as outras, encobertas; nelas Deus não se mostra tal qual é…” (Cântico 11,3).

Podemos, analogicamente, atribuir ao Pai a presença natural, ao Filho a presença espiritual, sobretudo, através do seu Corpo místico que é a Igreja, sacramento de salvação e ao Espírito santo a presença afetiva, que nos faz saborear interiormente a ação de Deus.

Podemos vislumbrar as conseqüências destas modalidades de presença de Deus na vida da Igreja, por exemplo, na liturgia, nas atividades pastorais, na reflexão teológica, na família, nas relações sociais, além, obviamente, de percebê-la na nossa vida pessoal.

Que os escritos de São João da Cruz nos ajudem a entrar ciranda da Trindade Santa e cantar eternamente a formosura do nosso Deus sumamente amado.

 

Romances Cristológicos e Trinitários

Como amado no amante
um no outro residia,
e esse amor que os une,
no mesmo coincidia
com o de um e com o de outro
em igualdade e valia.
três pessoas e uma amado
entre todos três havia;
e um amor em todas elas
e um só amante as fazia,
e o amante é o amado
em que cada qual vivia;
que o ser que os três possuem,Cada qual deles o possuía,
e cada qual deles ama
à que este ser recebia.Este ser é cada uma
e este só as unia
num inefável abraço
que se dizer não podia.
pelo qual era infinito
o amor que os unia,
porque o mesmo amor três têm,
e sua essência se dizia;
que o amor quanto mais uno,
tanto mais amor fazia.

Formação: Fev/2009


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