Formação

Sexualidade e afetividade na vida presbiteral «aspectos»

Introdução   – A experiênciade cada um, bem como os estudos levados a efeito por ocasião dos encontrosnacionais de presbíteros nestes últimos 20 anos, oferecem material rico eabundante. Com isto são reforçadas certas convicções, mas, com certeza, tambémsurgem algumas novas interrogações. Este é o  quadro de fundo pressupostona fala de cada um dos convidados para recolocarem questões há muito presentese refletidas, na vida da nossa Igreja,  e é também o quadro dentro do qualdevo  movimentar–me para trazer à tona aspectos relativos à sexualidade eà afetividade  na vida presbiteral. A fluidez dos conceitos, e muito maisos meandros da vida  na sua concretude, nos convidam  a fazermos, antes de mais nada, algumas pontualizações. Uma vez projetada algumaluz sobre estas realidades cheias de meio tons e de contornos indefinidos, poderemos dar um segundo passo, sinalizando alguns aspectos mais sensíveis, queexigem maior atenção. Com isto, num terceiro momento, poderemos sugerir algumasprioridades a serem trabalhadas em vista de um clima mais propício para  arealização dos que se consagram à vida sacerdotal e vista de um ministérioevangelicamente mais frutuoso.

 

1. Delimitandoo campo e fazendo algumas pontualizações

 

1.1. Importa proclamar o evangelho da sexualidade eda afetividade

É interessanteobservar de início como, por vezes, algumas palavras referentes a realidades emsi positivas, em ambientes  de Igreja assumem  uma conotação um tantonegativa. Isto ocorre sobretudo  quando se trata de sexualidade eafetividade. Estas  tendem  a ser conjugados com desvios,abusos  e más condutas, ou ao menos com sinais de imaturidade. Daí aimportância de se fazer um primeiro ressalto, de grande valor pedagógico,pastoral  e mesmo teológico: sexualidade e afetividade, se colocam entreos dons mais preciosos que o Criador  confiou aos seres humanos. A rigornão importa, ao menos não  em primeira instância, a condição de vida,conjugal ou celibatária. Iniciar um discurso que projeta um raio de luz com umatonalidade de boa notícia evangélica, não é  uma espécie de “captatiobenevolentiae”, mas a condição para acolher e traduzir, em termos positivos, umpouco do imenso potencial que estas energias comportam. Mais do que carregadasde ameaças, elas são portadoras de ricas promessas para casados e celibatários.Mais do que ocasião de pecado, elas são caminhos privilegiados para a atuaçãoda graça de Deus.

1.2. Sexualidade e afetividade: condutosprivilegiados para o amor

 Com efeito, asexualidade, com suas múltiplas dimensões, se constitui não apenas numa dasmais poderosas energias humanas, como também numa das manifestações mais clarasda vocação fundamental e irrenunciável dos seres humanos para o amor. Paralembrar uma expressão cara ao Papa João Paulo II,  “a Revelação nosassegura que Deus é Amor e nos fez por amor e para o amor ( Familiaris Consortio,11; Mulieris Dignitatem 7 e 18). À luz desta vocação é que entendemos que asexualidade  se transforma numa espécie de conduto privilegiado, atravésdo qual o amor com sua face humana pode assumir traços sacramentais e divinos.Ademais, para utilizar uma imagem da informática, a sexualidade “ configura”ou     então  “ desfigura”  o ser humano. E comoobserva o Conselho Pontifício para a Família (1996,16), isto ocorre “nãosomente no plano físico, como também no psicológico e espiritual”.  Aconhecida ambivalência que caracteriza a sexualidade, como caracteriza qualqueroutra realidade humana, em nada depõe contra ela: apenas ressalta a necessidadede um trabalho profundo e incessante para integrar uma energia, que, na suaraiz comporta impulsos contraditórios, e por isto mesmo, desnorteantes. Damesma forma, entender a afetividade como núcleo gerador de emoções esentimentos que podem oferecer um sabor  todo especial  à vida,mais  do que ser  fonte de eventuais problemas e desvios, é assumirum ponto de partida decisivo para trabalhar, com segurança na perspectiva debons frutos,  na realização humana em todos os seus aspectos.

1.3. Similaridadee diferenças

Para que estasafirmações possam ser melhor entendidas, convém lembrar que sexualidade e afetividadenão se confundem, mas se articulam dialética e continuamente. Enquanto pelaprimeira somos como que empurrados para fora de nós mesmos, obrigando-nos a nosdeparar com o diferente representado por  coisas e pessoas, pela segundarecolhemos as impressões oriundas desta interação. Enquanto a sexualidadelembra mais a alteridade, a afetividade aponta mais para a intimidade. Enquantoa sexualidade é mais ativa,  a afetividade é, ao menos aparentemente, maispassiva. Contudo, a afetividade não é uma espécie de túmulo das emoções. Ela éreceptáculo de impressões e emoções vivas, que  aninhadas  noinconsciente, vão fermentando, podendo, em certos momentos, irromper de maneirainesperada e surpreendente. E isto não apenas na juventude, mas em qualqueretapa da vida, inclusive na melhor idade. Ainda que por vezes a afetividadepossa lembrar uma música desafinada que ressoa nas profundezas do nosso ser, épela afetividade que podemos saborear os encantos da amizade, do amor, daespiritualidade e até mesmo da mística. Como bem sugere o termo latino “affectio”, ser capaz de sentir-se atraído e tocado por alguém ou por algumacoisa, mais do que tentação, é  condição primeira para ser capaz de captaros toques de Deus e vibrar com ele. 

2.  Sinalizandoáreas que requerem maior atenção

 A própriacomplexidade conceptual  e existencial fazem com que estas realidades setransformem em campos propícios para uma série de equívocos e despistamentos,tanto na percepção dos problemas, quanto na condução do trabalho pedagógico epastoral.

2.1. O choque defatos escandalosos

O  impactocausado pelas denúncias de pedofilia nas fileiras do clero serve para ilustraro que estamos querendo sugerir. As poucas palavras pronunciadas pelo SantoPadre no dia 23 de abril do ano passado dizem tudo quanto à realidade: estamosdiante de “crimes e pecados” de “ irmãos nossos que atraiçoaram a graçarecebida na ordenação, chegando às piores manifestações do mistério do mal queatua no mundo ( Carta aos sacerdotes da Quinta Feira Santa de 2002 eL´Osservatore Romano, n. 18, 4-5, 2002, 3 ). Com isto já fica evidenciado que,apesar de nosso clero brasileiro não haver estado no centro das atenções,Igreja de nenhum lugar do mundo pode proceder como se nada houvesse acontecidoou pudesse vir a acontecer. A pedofilia e  outros desvios  lançamsombras sobre toda a Igreja e interrogações para toda a Igreja. Entretanto, odestaque dado pelos meios de comunicação social, além de desfocar e generalizarfatos relativamente isolados, pode induzir a erros de interpretação. Talvez osproblemas mais graves e mais significativos não estejam exatamente naquilo quecausa maior impacto e maior escândalo. Pois o que causa impacto escandalosotambém costuma causar rejeição espontânea e colocar todos em estado dealerta.   Assim, de alguma forma, estes desvios são mais facilmentedetectados e enfrentados.

2.2. O que seesconde, mas pode nos comprometer

Com efeito, há outrasposturas e condutas, estas ligadas a pessoas que se sentem afetivamente presasa pessoas do mesmo sexo e que vão se alastrando de maneira crescente nasociedade, e que podem emergir até dentro de seminários, e, consequentemente,podem acabar chegando até ao presbitério. É claro que ao apontarmos parapessoas homossexuais como aquelas que requerem maior atenção, tanto na seleção,quanto no acompanhamento vocacional, não o fazemos com o objetivo de criarfantasmas ou levantar suspeitas generalizadas. Estamos apenas sinalizando apresença de certos movimentos que, embora até o presente não tenham sido tãoclaramente denunciados pela imprensa, poderão vir à tona a qualquermomento,  e sobretudo já estão causando alguns estragos  na nossaseara. A sinalização vale sobretudo para certas correntes que além de assumiremcomportamentos de natureza homossexual, assumem  também uma espécie demilitância combativa destinada a defender e a propagar o que julgam ser umacausa nobre. É certo  que nós nos encontramos diante de uma problemáticacomplexa, envolta em penumbra, cheia de meandros e graduações, onde se tornadifícil distinguir entre  atuações conscientes e inconscientes, pecados efraquezas, entre manifestações patológicas, tendências mais ou menossuperficiais. Por isto mesmo tanto o diagnóstico quanto os encaminhamentosrequerem competência e equilíbrio, para discernir o que se constitui em merafase ocasional ou até evolutiva, e verdadeiro problema, tanto de um ponto devista ético quanto psicológico.

Não é que faltemdocumentos oficiais para orientar tanto no diagnóstico quanto nos encaminhamentos.Mas talvez falte uma ação mais bem articulada para levar os documentos àprática. Ademais justamente nesta área, com alguma freqüência, nos deparamoscom uma espécie de jogo duplo, com posturas corretas assumidas oficialmente eoutras, inconfessadas, que se manifestam na calada da noite. A aparente honestidade, e até de um certo rigorismo moralizante em relação à problemática,aliás também notado em casos de pedofilia, faz parte do jogo, para quem nãoapenas tenta enganar os outros, mas até a si próprio, no mais profundo do seuser. O jogo duplo manifesta a incapacidade de assumir uma eventual face sombriasua realidade.

2.3. Algumasmanifestações mais subtis de problemas sexuais e afetivos

Há ainda uma série deoutras manifestações, mais subtis, mas nem por isto menos significativas. Sãoestados de espírito que à primeira vista nada têm a ver com as questões atéaqui levantadas, e que no entanto são reveladoras de desequilíbrios mais oumenos preocupantes de um ponto de vista psicológico e quase sempre danosas deum ponto de vista pastoral. Assim como podemos detectar sinais de integração,podemos também detectar sinais de desintegração. Como manifestações típicas deintegração temos a alegria, a paz, a serenidade, a generosidade, odesprendimento. Como manifestações de não-integração podemos assinalar ainveja, o desejo desmesurado de mando, o carreirismo, o egoísmo, a rispidez, omau humor constante, a indiferença, a agressividade, a inflexibilidade, arigidez, o autoritarismo e o sectarismo. A lista  poderá ser muito maisampliada. Mas só estes poucos acenos já são suficientes para nos alertar sobrea amplitude e a profundidade dos problemas relacionados com a sexualidade e aafetividade. Como também estes termos apontam para as virtudes que deverão sercultivadas com maior empenho para que os ministros oficiais do Reino possam serverdadeiramente testemunhas boa nova do Evangelho.

3. Sugerindoalgumas pistas

 

3.1. Atenção ao contexto

Depois de havermosacenado para alguns aspectos e sinalizado algumas questões que se localizam noscampos da afetividade e da sexualidade, cabe-nos ainda a tarefa de apresentaralgumas sugestões que possam favorecer a busca da maturidade afetivo – sexual,indispensável para a realização humana e para um frutuoso exercício da missãosacerdotal. Se, logo na introdução já sugerimos ser necessário  “ buscarum clima mais propício”, é porque pressupomos que não estejamos podendo contarmuito com este clima.  Claro que a rigor  problemas situados nestasáreas não são de hoje. A luta entre luzes e sombras sempre foi um componente datrajetória humana, e portanto também dentro do quadro dos que trilham osacerdócio. Contudo, por mais que pretendamos acentuar as inegáveis conquistasfundadas numa compreensão mais profunda que as várias ciências nos oferecem, eaté mesmo fundadas na superação de contextos repressivos, é difícil de não seperceber que hoje, mais do que nunca, nos defrontamos com desafios que seapresentam com tonalidades novas. Estes desafios provém de uma sociedadeerotizada, que rompeu todas as barreiras éticas. E como já notava a EncíclicaSplendor Veritatis no seu número 4, o mais preocupante é que não apenas nosencontramos diante de violações das normas morais, mas diante de uma verdadeiracontestação global das mesmas; não apenas vivemos num clima de “pornéia”, nosentido bíblico do termo, mas num contexto de anomia. E é claro que tudo istoinflui tanto na compreensão, quanto nos comportamentos de nossos seminaristas ede nossos presbíteros. Por mais que se deva reconhecer a vantagem de hojecontarmos com vocações denominadas de adultas, porque assumidas numa faixaetária mais próxima da presumível maturidade, não podemos deixar de perceber acontrapartida: muitos vocacionados trazem igualmente consigo as marcas deexperiências afetivas e sexuais anteriores nem sempre enriquecedoras.

Este contexto nosleva a percebermos, logo de saída, a necessidade de retomarmos como prioritários alguns valores que costumavam fazer parte da lista das virtudes emoutros tempos e hoje podem estar um tanto esquecidos, e de qualquer forma devemassumir flexões diferentes: a mística, a ascese e o amor ao estudo.

3.2. Mística, ascese e estudo: três âncoras para arealização

Todos temos muitopresente que a mística é uma força espiritual que está na raiz de todos osgrandes movimentos de renovação e mesmo da realização de grandespersonalidades. É assim que se explica a força de tantas pessoas e de tantosmovimentos que marcaram a história da Igreja. Mesmo se nos localizarmos no campodos projetos denominados humanos, só vingaram aqueles que foram alimentados poruma grande mística. Esta foi, com certeza uma das marcas das grandes utopiasque mobilizaram o século XX. Ainda que se devam reconhecer evidentes exagerosem vários delas, não se pode negar que estas utopias deram sentido de vida eforça para multidões. Acontece que nos últimos decênios as utopias foramdesmoronando, e com elas não apenas vão rareando as grandes personalidades, masvão igualmente esmorecendo os grandes ideais. É evidente que este clima demarasmo, onde praticamente todas as mediações políticas e sociais foramperdendo força, também repercute sobre nossos vocacionados. E é impossívelesperar grandes realizações, mesmo a nível pessoal, de quem não acalenta grandessonhos.

Ao par destaacomodação generalizada o que vai ganhando força em todos os campos é o bemconhecido lema de como vencer na vida sem fazer força. O empenho continuaevidentemente existindo em largos setores da sociedade, mas é mais no sentido desobrevivência, ou então, para uns poucos privilegiados, no sentido deprojetar-se social e políticamente. Aqui novamente é fácil fazer a ilação paraquem busca o sacerdócio. As motivações podem até ser legítimas, na linha dossentimentos, mas desde que não impliquem em grande empenho. A ascese, nosentido mais profundo da palavra, não apenas se tornou uma palavra meio rara,mas sobretudo deixou de ser uma postura corrente.

Ainda na mesmalinha  dois pontos acima assinalados, da falta de mística  e de espíritode luta para conseguir um ideal almejado, encontra-se uma certa  falta demotivação para os estudos. Se em tempos não muito remotos até o mais simplespároco de aldeia dominava várias línguas, e ao lado do seu breviários semprecarregava algum livro de leitura, hoje um simples violão e algumas palavrasleves parecem suficientes para o exercício do ministério sacerdotal. Parece quetanto em termos de leitura, quanto de pesquisas já tivemos conhecemos temposmais fecundos, mormente no que diz respeito à teologia. Claro que, sobretudonas homilias, os efeitos não deixam de ser notados pelos fiéis mais cultos,particularmente pelos que freqüentam cursos de teologia para leigos.Talvez  seja esta a mesma razão pela qual  ministros de outras igrejase religiões se sintam mais seguros do que nós diante das câmaras de TV, aomenos quando se trata de programas e debates mais consistentes. Também é fácilde se deduzir o que isto tudo representa em termos de auto-estima, quando aomenos um certo número de presbíteros deixa de ser referência naquilo quedeveria seu apanágio: vida espiritual e intelectual. 

3.3. Algumas conclusões

 A história daIgreja sempre conheceu momentos de maior e de menor sintonia entre o idealevangélico do celibato e um estilo de vida sacerdotal. Poderíamos recordar aquio antigo ditado de que nada existe de novo de baixo do sol. Contudo, há fatosmais ou menos chocantes, comportamentos mais ou menos observáveis, e sobretudohá sinais de um certo mal estar no campo da realização humana, com incidêncianos campos da sexualidade e da afetividade. A premência e a complexidade dasquestões recomendam um empenho maior no cultivo destas áreas, seja a nível dediscernimento vocacional, seja a nível de acompanhamento dos que vãoencontrando maiores dificuldades no caminho. Ainda que a simples busca deespecialistas para ajudarem nestas tarefas não seja uma espécie de soluçãomágica, não há dúvida de que a contribuição de pessoas competentes e afinadascom o espírito da Igreja, se torna quase imprescindível. Não que elassubstituam outros expedientes comprovados por uma larga experiência que brota,do diálogo profundo com Deus e da direção espiritual de um mestre sábio, nosentido evangélico do termo. Mas, sem dúvida o momento histórico que vivemos exigeinvestimentos mais significativos nesta área, não apenas para fugir deeventuais escândalos, mas sobretudo para podermos contar com pessoas sempremais entusiasmadas, preparadas e amadurecidas para serem testemunhasqualificadas do Evangelho.


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