Formação

Três lições de Santa Catarina de Sena

Catarina de Sena soube equilibrar o seu autoconhecimento a ponto de vivenciar tão grande humildade que, por muitas, vezes saiu o demônio vergonhosamente humilhado diante de sua vida virtuosa

Nascida no ano de 1347, na Itália, Catarina foi criada em uma família numerosa, com seus 25 irmãos, em meio a uma educação católica. A graça e eleição de Deus sob esta Santa já começariam cedo. Aos 7 anos de idade, ela consagrou sua virgindade a Cristo. Aos 16 anos, entrou na Ordem Terceira Dominicana. Apesar da sua grande simplicidade e recolhimento na sua vida de oração, ela foi sempre aberta ao serviço caritativo por conta da realidade da sua época. Em uma Europa marcada por guerras e disputas entre reinos, no século XIV, surge Santa Catarina. O Papa Bento XVI, em catequese sobre esta Santa, nos diz:

“Quando a fama de sua santidade espalhou-se, foi protagonista de uma intensa atividade de aconselhamento espiritual na relação com todas as categorias de pessoas: nobres e políticos, artistas e gente do povo, pessoas consagradas, eclesiásticos, incluindo o Papa Gregório XI que, naquele período, residia em Avignon e ao qual Catarina exortou enérgica e eficazmente que retornasse para Roma. Viajou muito para solicitar a reforma interior da Igreja e promover a paz entre os Estados: também por esse motivo, o Venerável João Paulo II desejou declará-la copadroeira da Europa: o Velho Continente nunca poderá esquecer as raízes cristãs que formam a base de seu caminho e continua a desenhar, a partir do Evangelho, os valores fundamentais que asseguram a justiça e a harmonia.”[1]

Dentro da espiritualidade de Santa Catarina podemos destacar três pontos: intimidade com Deus, piedade e arrependimento e a Divina Providência. Em cada um deles, Catarina deixa-nos uma lição.

A intimidade com Deus

Na sua obra “O Diálogo”, Santa Catarina preocupa-se com a busca do conhecimento da Verdade e do sumo Bem, que é Deus. É importante lembrar que esta obra de Santa Catarina, na verdade, foi organizada pelo Beato Raimundo de Cápua, e ditada por ela, a alguns ajudantes, que registravam as experiências místicas que a Santa tinha com Deus, ora reveladas por Deus Pai, ora por Deus Filho. Em uma das locuções, Jesus nos ensina que o passo inicial e fundamental para a busca da Verdade é o autoconhecimento: “O Caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência do meu ser – Vida eterna que eu sou – é este: nunca abandones o autoconhecimento! Ao desceres para o vale da humildade, reconhecer-me-ás em ti, e de tal conhecimento receberás tudo aquilo de que necessitas.”[2] Diante de tal conhecimento, o homem depara-se com o nada que é, e reconhece que o seu egoísmo é a fonte de todo o seu pecado. Por isso, há uma importância em reparar os nossos pecados.

Para chegarmos à perfeição, existe o que a Santa chama de “degraus do amor”, que são três: amor servil, amor interesseiro e, por último, amor amizade. O amor amizade reflete o mais sublime estado que o nosso relacionamento com Deus pode chegar. O Senhor revela a Santa Catarina o que significa este amor amizade: “A amizade íntima consiste nisto: que são dois corpos, mas uma só alma no amor, pois o amor transforma (o amante) na coisa amada. E quando (os amigos) se tornam uma só alma, entre eles já não haverá segredo. Por isso dizia meu Filho: ‘Viverei e moraremos juntos. [3]’”

Portanto, no amor amizade, aquele que alcança esse estado de graça, tem uma grande semelhança com os sentimentos de Cristo. Deseja estar constantemente em comunhão e escuta com o Pai: “Filha querida, convence-te de que na oração contínua, fiel e perseverante que todas as virtudes são adquiridas.”[4] Ou ainda, fazendo um paralelo entre a vida de oração e o autoconhecimento: “Como é agradável ao orante e a mim a prece feita na cela do autoconhecimento.”[5]

Ademais, o Papa Bento XVI faz-nos lembrar do místico e profundo relacionamento que Santa Catarina tinha com Jesus: “Em uma visão que jamais se apagou do coração e da mente de Catarina, Nosso Senhor apresentou-a a Jesus, que lhe deu um esplêndido anel de ouro, dizendo: ‘Eu, teu Criador e Salvador, esposo-te na fé, que conservarás sempre pura, até quando vieres celebrar comigo no céu as tuas núpcias eternas’ (Raimundo de Cápua, S. Caterina da Siena, Legenda maior, n. 115, Siena, 1998). Aquele anel foi visível somente para ela.”[6]

Vale fazer a ressalva que, para Santa Catarina, a graça de deparar-se de forma humilde com os nossos pecados só é eficaz se estivermos com o olhar na paixão de Cristo, pois o erro ocorreria se formos falseados por nossos sentimentos de autocondenação: “Se não forem acompanhados pelo pensamento da paixão, o autoconhecimento e a reflexão sobre os próprios pecados, confundem a alma.” [7] Esta Santa também soube equilibrar o seu autoconhecimento a ponto de vivenciar tão grande humildade que, por muitas, vezes saiu o demônio vergonhosamente humilhado diante da vida virtuosa de Santa Catarina. “Maldita sejas tu, pois de nenhum modo consigo vencer-te! Se te rebaixo ao desespero, tu te elevas à misericórdia; se te engrandeço de vaidade, tu te rebaixas até o inferno pela humildade e aí me persegues. Não voltarei mais; tu combates com a lança da caridade” [8], disse a ela o demônio.

Dom das Lágrimas

Percebemos o quanto estava aflorado no íntimo de Santa Catarina a busca constante e intensa do autoconhecimento, e isto era fruto da sua contínua e profunda vida de oração, já que quando nos aproximamos de Deus, conhecemos a Ele e a nós mesmos. Ora, o amor sincero leva-nos a uma reta postura diante de Deus e também dos homens. Ao deparar-nos com a nossa fraqueza e miséria, numa graça particular de arrependimento de coração, chegamos ao choro. As lágrimas, então, são os frutos externos de algo que acontece de forma intensa e verdadeira no nosso interior, que é o desejo de mudança de vida.

Existem cinco tipos de lágrimas que se diferenciam pelo estado em que a pessoa se encontra. No primeiro, ocorrem as lágrimas por estarmos em estado mortal. No segundo, compreendemos os males dos nossos pecados e há uma busca de conversão. No terceiro tipo,  há uma superação do temor servil e, em seguida, atingimos o amor e a esperança. O quarto tipo de lágrimas refere-se à prática das virtudes. Já no quinto, o Senhor fala a Santa Catarina das lágrimas de fogo do Espírito Santo: “Existe alguma lágrima que não saia dos olhos? Sim, existe um pranto de fogo, procedente do desejo santo e que faz consumar-se no amor por mim. (…) Ao que parece, foi quanto pretendia afirmar o glorioso apóstolo Paulo, ao dizer que o Espírito Santo chora em mim ‘com gemidos inenarráveis’ (Rm 8, 26), a vosso favor.”[9]

Por isso, não se pode queixar-se quem, por conta de seu tempo de caminhada com Deus, não tem o dom das lágrimas simplesmente porque não derrama as lágrimas que deseja. A Deus não interessa se nós derramamos lágrimas externas ou lágrimas do espírito: “Em todo estado de vida e ocasião, tais pessoas podem agradar-me. A menos que seu espírito se afaste de mim por falta de fé e de amor.”[10]

Providência Divina

Para Santa Catarina, o amor a Deus e o desejo de conversão e santidade não ficavam parados apenas em um olhar em si mesma, mas ela tinha um olhar voltado para a humanidade, para o padecimento do homem diante da vida de pecado e engano. Santa Catarina olha para Deus, criador e redentor, e o vê à frente da história do homem. Não que Ele seja causador ou indiferente aos males do homem, mas ela vê Deus que intervém na história. A isto chamamos de Providência Divina.

Pela Providência Divina, foi criado o homem. Este, no mau uso de sua liberdade, desobedece a Deus e peca, e todos os homens herdam, a partir do pecado original, a concupiscência e a culpa. O que restaria à humanidade? A separação eterna do homem de Deus. Mas Deus intervém, providenciando a Encarnação, vida, paixão e morte de Cruz do seu Filho, para que, em sua obediência, Ele salve e repare o pecado de toda a humanidade.

Santa Catarina relaciona a Providência Divina como a verdadeira esperança do homem, como ensina Deus Pai: “Também dei à humanidade o conforto de uma esperança. Ao dar valor ao preço do sangue com que foi remido, o homem sente uma firme esperança e grande certeza de salvação. Se é verdade que sempre me ofende com todos os sentidos, também foi com o corpo inteiro que meu Filho tolerou grandíssimos tormentos. Por sua obediência, ele cancelou vossa desobediência. Ainda mais: de sua obediência recebestes a graça, da mesma forma como da desobediência de Adão havíeis herdado a culpa.”[11]

Por último, é importante ressaltar a relação entre a experiência pessoal e o amor e a providência de Deus. “A esperança humana é mais ou menos perfeita conforme o amor da pessoa; será igualmente nessa medida que cada um terá a experiência da minha providência. Aqueles que me servem e só em mim confiam, experimentá-la-ão mais profundamente do que as almas cuja esperança se fundamenta em interesses e compensações.”[12]

Peçamos a Deus, por intercessão de Santa Catarina de Sena, a graça de termos Cristo como o Esposo de nossa fé, e, apaixonados e servos da Igreja, sejamos atentos ao que o Espírito Santo deseja de nós como discípulos e missionários de Cristo, servindo à Igreja e à humanidade.

[1] BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=279012.

[2] SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 33.

[3] Idem.  p. 132.

[4] Idem. p. 139.

[5] Ibidem.

[6] BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=279012.

[7] SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 141.

[8] Idem. p. 142.

[9] Idem. p. 187.

[10] Ibidem.

[11] Idem. p. 305.

[12] Ibidem.

Márcio André Barradas

missionário da Comunidade Católica Shalom

(Artigo originalmente publicado na Revista Shalom Maná)

 

 


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