Formação

Tudo começa pela comunhão

Quando engravidei de meu quarto filho, sendo os três primeiros ainda pequenos e tendo eu que trabalhar fora, fui criticada por muitas pessoas. Confesso que eu também fiquei apreensiva. Naquele período, a casa onde morávamos foi vendida e deveríamos desocupá-la dentro de um ano. Além disso, meu marido perdeu o emprego. A situação era realmente inquietante, mas procuramos manter a paz entre nós e os nossos filhos. Conversávamos muito com eles. Antes de tudo, acreditávamos no Evangelho, que garante: “Não é a vida mas do que o alimento e o corpo mais que a roupa?” “Pedi e recebereis…” E pedíamos ao Pai uma casa para morar e o trabalho para Ângelo, meu marido. Ao mesmo tempo procurávamos fazer toda a nossa parte para resolver todo o nosso problema. Em pouco tempo ele conseguiu um emprego que superava as nossas expectativas e, com o nascimento de Leonel as graças de Deus vieram copiosas! Chegou de presente todo o enxoval, inclusive berço e carrinho; e no mês seguinte, conseguimos comprar uma casa.

Segundo esse relato de Terezinha Gonçalves, de Cotia (SP), aquela fase difícil que a sue família atravessou foi superada, mas permaneceram seus efeitos benéficos, principalmente o hábito de fazer em conjunto as contas da família e envolver os filhos nessa dinâmica. Em família como essa, vêm em evidência alguns pontos que por vezes passam despercebidos em outras famílias. Por exemplo, quando falamos de bens na família, quase sempre pensamos nos bens materiais e nos esquecemos que existem muitos outros tipos de bens, que não podem ser quantificados nem avaliados financeiramente. Ter uma caixa comum não significa ter uma única gaveta para guardar o dinheiro do mês, ou uma única conta bancária; significa decidir tudo junto desde as coisas mais importantes até as mais simples.

Para a vida de comunhão do casal é muito importante que os bens materiais dos dois esposos sejam considerados bens comuns e que cada opção e decisão – como a compra de um bem, um certo tipo de lazer, o destino de uma herança, ou o próprio orçamento mensal – seja realmente compartilhada pelos dois. Mas o caixa único é um sinal, um símbolo da unidade que deve crescer cada vez mais família, também em outros momentos como quando se deve, por exemplo, tomar decisões sobre a programação para a família, a respeito da saúde, do trabalho, da educação dos filhos.

A partilha dos bens materiais deve ter suas raízes na comunhão dos bens espirituais, ou seja, na confidência espiritual entre os pais, que se reflete no relacionamento com os filhos e os torna participantes das realidades mais profundas da vida da família, abrindo-os a um diálogo constituídos por gestos vitais, mais do que por palavras. Assim, os pais tornam-se para os filhos o exemplo vivo dar realidade que querem transmitir.

Neste sentido, a família pode ser considerada uma comunidade de pessoas que educa e que se educa, porque todos os seus membros são envolvidos numa realidade de comunhão. Pais e filhos aprendem a viver a generosidade, a solidariedade, a partilha, e cresce neles a consciência de serem administradores dos próprios bens. Crianças a adultos aprendem a cuidar das próprias coisas e dos bens da comunidade, a sentir como se fosse na própria pele as necessidades dos outros e os graves problemas da humanidade. Desenvolve-se uma consciência clara de fraternidade e de responsabilidade.

Os filhos são gradualmente envolvidas na dinâmica e espontaneamente participam e dão a própria imprescindível contribuição para manter esse estilo de vida na família. É o que demonstra a experiência de Mary Hartmann, de Nova York, mãe de dez filhos. Ela conta: “Procuramos fazer nossos filhos, também os menores, participarem da situação econômica da família. Assim à medida que vão crescendo, começam a entender como funciona o nosso balanço. Eles sabem que o pai ganha um salário modesto mas, desde pequenos, aprenderem a acreditar na Providência de Deus e puderam constatar sua existência em momentos de dificuldade, quando viram chegar o necessário e muito mais, a ponto de poder dividir com os outros”.

Mas a família pode ser uma escola de comunhão também em outro sentido: é o ambiente no qual não se olha e não se mede quem ganha e quem gasta. Pelo contrário: por exemplo, as despesas com o tratamento dos idosos e com a educação das crianças, membros improdutivos, que não ganham, são consideradas as mais importantes. Os momentos mais gratificantes para todos são justamente aqueles nos quais se pensa nos familiares, não apenas com presentes, mas oferecendo conforto e segurança.

Essa comunhão na família tem importantes repercussões na vida social. A prática da partilha dos bens éticos, culturais, sociais e econômicos de que dispõe faz da família um instrumento de comunhão no organismo social em que vive, pois seus membros passam a atuar de modo espontâneo a fraternidade, que para eles é conseqüência lógica da paternidade de Deus: se Deus é nosso Pai, sente que não pode ter por horizonte as paredes da própria casa e se abre para assumir sua função de lugar de encontro entre irmãos, transformando-se, muitas vezes, em ponto de partida de novos caminhos para a sociedade.

Certamente, este caminho para plena comunhão do casal e da família encontra muitos obstáculos. Não faltam os momentos difíceis, as situações nas quais as diferentes características pessoais parecem se chocar, os períodos nos quais as tensões externas interferem nos relacionamentos e ameaçam a serenidade, o amor e a confiança no outro, ou quando a fé no amor de Deus não é mais clara. Só o amor recíproco pode guiar a família nesses momentos. Mais tarde, entende-se que a dificuldade contribuiu para fortalecer a unidade, aprimorar os relacionamentos, aprofundar as raízes da comunhão.

Fonte: Revista Shalom Maná
Maria do Carmo Gaspar


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