Formação

Um dos segredos dos casais felizes

Falar, desvelar seus pensamentos e sentimentos, partilhar suas expectativas, suas decepções, evitar pré-julgamentos e acusações: alguns elementos para melhor se comunicar e se amar…

Com o passar dos anos, cada cônjuge evolui, inevitavelmente. A própria relação conjugal se modifica e a comunicação pode não ser fácil, algumas vezes até conflituosa:

– Ele: Porque vamos sempre para a casa de teus pais durante as nossas férias? Isso acaba me aborrecendo!

– Ela: Foi você mesmo que disse que isso era bem mais prático e econômico desde o início do casamento. Era preciso adivinhar o que você quer!

Motivos para discussão nunca faltam. Os propósitos agressivos podem despontar rapidamente. O sentimento de não ser compreendido pelo outro é freqüente.

Melhorar nossa maneira de comunicar vai permitir o ajustamento de nossa relação para crescer juntos em vista de uma grande comunhão mantendo o respeito pelas nossas diferenças e levando em conta nossa evolução.

A experiência mostra que a comunicação pode deteriorar rapidamente e se complicar entre os cônjuges ao ponto de levá-los a uma situação de incompreensão que nenhum deles desejou. Estas dificuldades vêm do fato de que a comunicação interpessoal é um fenômeno complexo. Entre o que eu sinto – a raiva de meu marido que ainda não voltou às 21h00 – o que eu queria dizer-lhe – ele deveria, ao menos, me avisar quando não pode chegar – o que eu efetivamente lhe digo – Você viu que horas são! – o que ele escuta – grunhidos – e o que ele entende – outra repreensão – e o que ele me responde – você nunca me compreende – numerosos desencontros acontecem que perturbam a relação.

Nós não somos transparentes um para o outro: os raros momentos em que nossos sentimentos, nossos desejos ou nossos pensamentos se encontram em uma verdadeira harmonia são experiências privilegiadas. No quotidiano de nossas vidas, nós precisamos aplicar algumas regras de comunicação.

1- Se eu não lhe digo o que sinto, o que desejo ou o que penso, ele (ela) nunca adivinhará, mesmo que me ame profundamente.

2- Se eu acumulo ressentimentos contra meu cônjuge, eu me arrisco a explodir violentamente a propósito de quase nada. É preferível dizer as coisas a tempo e a hora.

3- Se eu permaneço centrada sobre mim mesmo (a) e meu problema, eu tomarei uma atitude de acusação, de justificação ou de mutismo, inaceitáveis para ela (e). Colocar-me em seu lugar muda minha maneira de olhar para ela (e).

Nós não somos completamente transparentes para nós mesmos.
Se há em nós uma parte consciente de nosso ser sobre as atitudes que facilmente tomamos, há também uma parte inconsciente que intervém, sem nosso conhecimento, na maneiro em que nos comunicamos. Esta última, fruto de nossas experiências passadas, de nossos desejos, frustrados, de nossas esperanças quebradas, pode nos colocar na contramão e vir a prejudicar nossa expressão e nossa escuta.

Geneviève imagina que sua própria mãe foi muito pouco confiante nela mesma e muito submissa a seu marido. Ela não quer, de maneira alguma, ter a mesma vida. No começo de seu casamento, ela fez seu marido prometer que partilhariam as atividades decisórias. Assim, tão logo esta partilha se tornou menos disponível, ela se tornou agressiva e acusadora: “Tu não és nem um pouco delicado comigo! Toda a semana tu voltas tarde, tu não me ajudas… Tu percebeste que tu deves dirigir para as crianças no sábado? Ela não sabe mais receber um cumprimento pela nova decoração da casa ou seus talentos de cozinheira: “Besteira. Isso é só um prato congelado.”

Atenção… aos Tu… Tu… Tu… de acusação que servem para extravasar no outro nossa agressividade. É preferível identificar nossos próprios sentimentos, dando-lhes nome e assumindo-os e, quando a paz interior retorna, exprimi-los na primeira pessoa: “EU tive medo de ser mal interpretado” ou “ Eu sou ciumento”.

Atenção… à confusão entre meus sentimentos e o comportamento do outro. Confusão devida aos desencontros e diferenças entre as expectativas de um e do outro, que gera interpretações, julgamentos ou chantagem. Não é porque meu marido volta tarde que ele não me ama. Não é porque minha mulher não quer sair hoje à noite que ela não me ama mais. A partir de minhas decepções e /ou frustrações eu me interrogo sobre minhas próprias expectativas. Pode o outro satisfazer todas as minhas expectativas e, reciprocamente, posso eu satisfazer todas as suas expectativas?

Podemos sonhar com uma comunicação perfeita?
Crer na possibilidade de uma comunicação perfeita é seguramente uma ilusão. Pelo contrário, querer melhorar a própria comunicação é possível. Isto exige algum trabalho para tomar consciência de hábitos maus e de adquirir novos hábitos. Mas aquele ou aquela que ousa tomar a iniciativa jamais será decepcionado. Rapidamente começará a usufruir dos frutos que tal atitude traz na sua relação de casal.

Colocar-me à escuta do outro
Muitas pessoas pensam saber escutar mas muitos também se lamentam por não serem verdadeiramente escutado. “Minha mulher reage tão rapidamente quando eu começo a falar que eu fiz o propósito de me calar”, se lamenta Jacques. “Meu marido é tão preocupado com os problemas do trabalho para eu ainda lhe falar dos meninos, confessa Martine.

Nada de surpreendente nisso, porque a verdadeira escuta, aquela que permite ao outro se exprimir, comunicar seus sentimentos e seus desejos num clima de confiança e de compreensão, não é espontânea.

Ela necessita de uma atitude interior de acolhimento incondicional do outro, Eu estou pronto (a) a escutar tudo o que meu cônjuge quer me dizer, a ajudá-lo a exprimir aquilo que é difícil para ele dizer e a procurar compreender o que ele, no fundo, sente, como se eu estivesse em seu lugar, sem reagir ao que eu, particularmente, sinto, penso ou imagino. Para escutar meu cônjuge, vou poder controlar minhas reações espontâneas que, freqüentemente, me impedem de escutá-lo.
Não precisa esquecer também de ser atento ao que ele não me diz, ao que dizem seus gestos, sua atitude, seu corpo. A linguagem não verbal é tão importante quanto a palavra, talvez até mais.

Para ajudar o outro a exprimir-se até o fim e manifestar a ele nossa compreensão, será bom reformular o que ele disse. “Se eu entendi bem, você gostaria de mudar de trabalho”, ou ainda “Esta noite você está esgotado”. Estas pequenas frases de reformulação permitem ao outro sentir-se compreendido, apoiado, também de tomar consciência do que o incomoda e, algumas vezes ajudar na superação de uma dificuldade.

Escutar o outro é respeitá-lo, ter confiança nele, acolhê-lo como ele é, ajudá-lo a crescer, amar concretamente.

Caixa 1 A história dos quatro cegos
Quatro cegos se aproximam de um elefante e o tocam. O primeiro cego, que segurou a tromba do elefante, gritou triunfalmente: “Eu sei com que se parece um elefante. Ele se parece com uma serpente.” O segundo, que apalpou uma das patas disse: “De jeito nenhum! Ele se parece com um tronco de árvore.” O terceiro que, com suas mãos, alisara o flanco do grande paquiderme protestou: “Estão loucos? Ele é como uma parede!” O quarto, que amassou a orelha, diz: “Que é que vocês estão dizendo? O elefante tem a aparência de uma folha de bananeira.” E eles começam a discutir. O homem que havia trazido os quatro cegos dia: “Enquanto discutem, eles defendem, cada um, uma idéia diferente. Estas pessoas, de fato, não vêem a não ser um dos lados das coisas. Assim são os sectários que erram cegos, atingidos pela cegueira, ignorantes da verdade, afirmando cada um ‘É assim1’”

Caixa 2 Diferenças: uma oportunidade para o casal
Nascemos todos, seja homem, seja mulher. Cada uma de nossas células, sem exceção, carrega cromossomos da masculinidade ou da feminilidade. É em todo o nosso ser: corpo, sensibilidade, psiquismo e espírito que somos sexuados, diferentes. E esta diferença, acrescida ao temperamento próprio a cada indivíduo, a sua história pessoal, determinam maneiras de apreender as coisas e comportamentos, em si mesmos diversos, de acordo com o que se é, homem ou mulher.

É por isso que não é sempre fácil de viver mesmo as relações mais simples entre nós. Existem algumas vezes quiproquós: pode acontecer que uma mulher imagine o dia inteiro uma discussão acontecida de manhã cedo e à noite, quando o marido volta do trabalho, tendo esquecido tudo, encontra sua esposa visivelmente zangada… Todas essas diferenças sexuais, psicológicas, culturais etc. podem trazer conflitos, pequenos e grandes, ao mesmo tempo em que podem ser uma oportunidade para crescimento, um para outro. É melhor conhecer as diferenças e acolher o outro como ele é.

A diferença entre o homem e a mulher é um presente para o casal… É isso que nos permite nos encontrar, nos amar e nos sustentar.

Não é preciso ver mas estas diferenças exclusivamente em termos de complementariedade, como se veria duas peças de um quebra-cabeças se juntar para se tornar uma única coisa. Aceitar, tendo em conta e assumindo o fato que o outro é diferente vai me permitir me tornar aquilo que eu deveria me tornar na unidade do casal. Cada um se torna mais a si mesmo criando a unidade e a comunhão no casal.

A unidade em um casal se constrói. Ela não pode ser fundida porque ela exige o respeito pelas diferenças. Eu preciso que você permaneça diferente para que eu me torne eu mesmo e parq que nós cresçamos juntos na comunhão.

O casal é dinâmico e não estático. Viver a dois não é simplesmente viver um ao lado do outro, é se tornar mais homem e mais mulher, um para o outro.

Caixa 3 Alguns obstáculos à comunicação
Eis algumas atitudes que podem ser obstáculos à escuta:

– ter imediatamente, um julgamento, uma opinião (positiva ou negativa) : “Isso é bem do jeito que você gosta…”

– tranqüilizar ou consolar o outro, impedindo-o de manifestar seus sentimentos: “Isso não é tão mal, você verá como tudo vai dar certo…”

– encontrar, no lugar do outro, uma solução ao problema existente: “Se eu estivesse no seu lugar, o que eu faria era…”

– fazer perguntas mais para satisfazer a própria curiosidade que se interessar pela pessoa ou seu problema: “Você me diz isso, mas que você pensa sobre…”

– dar uma explicação ou uma interpretação ao que foi dito: “Você se sente assim porque…”

Todas essas atitudes arriscam-se a bloquear a expressão do outro que pode mesmo chegar a sentir raiva porque, decididamente, ele não se sente compreendido.


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