Formação

Um “silencioso e eficaz exorcismo”

Raniero Cantalamessa,ofm

 

“Então um homem possuído por um espírito imundopôs-se a gritar: ‘O que temos nós a ver contigo, Jesus de Nazaré? Viestes paranos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus’. Jesus, então, disse: ‘Cala-te esai dele’. E agitando-se violentamente o espírito imundo deu um forte grito esaiu dele”. O que pensar deste episódio e de muitos outros acontecimentosanálogos presentes no Evangelho? Existem ainda os “espíritos imundos”? Existe odemônio?

Quando se fala da crença no demônio, devemosdistinguir dois níveis: o nível das crenças populares e o nível intelectual(literatura, filosofia e teologia). No nível popular, ou de costumes, nossasituação atual não é muito distinta da Idade Média ou dos séculos XIV-XVI,tristemente famosos pela importância outorgada aos fenômenos diabólicos. Já nãohá, é verdade, processos de inquisição, fogueiras para endemoninhados, caça debruxas e coisas do estilo; mas as práticas que têm no centro o demônio estãoainda mais difundidas que então, e não só entre as classes pobres e populares.Transformou-se em um fenômeno social (e comercial!) de proporções vastíssimas.E mais, diria que quanto mais se procura expulsar o demônio pela porta, tantomais volta a entrar pela janela; quanto mais é excluído pela fé, tanto maisprende na superstição.

Muito diferentes estão as coisas no nível intelectuale cultural. Aqui reina já o silêncio mais absoluto sobre o demônio. O inimigojá não existe. O autor da desmistificação, R. Bultmann, escreveu: “Não se poderecorrer em caso de enfermidade a meios médicos e clínicos e por sua vez crerno mundo dos espíritos”.

Creio que um dos motivos pelos quais muitos achamdifícil crer no demônio é porque se busca nos livros, enquanto que ao demônionão interessam os livros, mas as almas, e não se encontram freqüentando osinstitutos universitários, as bibliotecas e as academias, mas, precisamente, asalmas. Paulo VI reafirmou com força a doutrina bíblica e tradicional em torno deste“agente obscuro e inimigo que é o demônio”. Escreveu, entre outras coisas: “Omal já não é só uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual,pervertido e perversor. Terrível realidade. Misteriosa e espantosa”.

Também neste campo, contudo, a crise não passou emvão e sem trazer inclusive frutos positivos. No passado, com freqüência seexagerou ao falar do demônio, foi visto onde não estava, muitas ofensas einjustiças cometeram-se com o pretexto de combatê-lo; é necessária muita discriçãoe prudência para não cair precisamente no jogo do inimigo. Ver o demônio portodas as partes não é menos errôneo que não vê-lo por nenhuma. Dizia Agostinho:“Quando é acusado, o diabo se satisfaz. É mais, quer que o acuse, aceita comgosto toda tua recriminação, se isto serve para dissuadir-te de fazer tuaconfissão!”.

Entende-se portanto a prudência da Igreja aodesalentar a prática indiscriminada do exorcismo por parte de pessoas que nãoreceberam nenhum mandato para exercer este ministério. Nossas cidades pululamde pessoas que fazem do exorcismo uma das muitas práticas de pagamento eatuações de “feitiços, mau-olhado, má sorte, negatividades malignas sobrepessoas, casas, empresas, atividades comerciais”. Surpreende que em umasociedade como a nossa, tão atenta às fraudes comerciais e disposta a denunciarcasos de exaltado crédito e abusos no exercício da profissão, haja muitaspessoas dispostas a acreditar em superstições como estas.

Antes ainda que Jesus dissesse algo aquele dia nasinagoga de Cafarnaum, o espírito imundo sentiu-se desalojado e obrigado a sairao descoberto. Era a “santidade” de Jesus que aparecia “insustentável” para oespírito imundo. O cristão que vive em graça e é templo do Espírito Santo levaem si um pouco desta santidade de Cristo, e é precisamente esta a que opera,nos ambientes onde vive, um silencioso e eficaz exorcismo.


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