Unsplash
Formação

Vamos brincar de namorar?

A “ficada” de hoje cada vez mais se aparta dos verdadeiros sentimentos e emoções e se aproxima da frieza das carícias, com o fim único de dar e receber prazer.

Vamos brincar de namorar? Sim? Então, comecemos: no salgadinho que você acabou de comprar há duas cartelinhas: uma para as meninas, de cor rosa, e uma para os meninos, de azul. Na sua, a cantada fatal: “Quero você”! Para efetivar a paquera, eu tenho de raspar uma das três opções: “Eu também!”, “Agora” ou “Longe!”. Minha vez! Na minha cantada está escrito muito singelamente: “Beijo”. Você, em continuidade, raspa uma das três opções: “Na bochecha”, “Na boca” ou “Nem pensar!”. Dependendo de como as coisas vão rolar, pinta um “fica” e cada um vai para o seu canto depois, sem entrosamento nem conversa fiada! E, então, até à próxima compra…

A brincadeira acima pode ser encontrada em certo pacote de salgadinhos disponível em supermercados, ali, logo ao alcance da mão. São duas pequenas cartelas que ensinam o desenrolar da cantada apenas com uma raspadinha. Comprando, raspando, ficando! Simples assim! Cabe a você raspar no lugar certo (quem sabe uma boate, uma festinha de colegial, um cinema…), no momento certo e com a pessoa certa. E, pronto, aprendi a ficar no melhor método “passo a passo”, sem nenhuma contra indicação, sem nenhuma consequência desagradável, nada além de azaração. Como todo mundo já sabe namorar, as receitas já vêm prontas e acabadas, no ponto de experimentar, sem a perspectiva de um mínimo vínculo afetivo, sem a oportunidade da auto descoberta e da descoberta do outro em sua imensa riqueza e carisma, de sua integridade e personalidade. A “ficada” de hoje cada vez mais se aparta dos verdadeiros sentimentos e emoções e se aproxima da frieza das carícias, com o fim único de dar e receber prazer. Como se, necessidades sensoriais satisfeitas, não houvesse mais lugar para a sincera escolha do amor fértil, do profundo respeito pela outra pessoa.

Herdeiros de uma moda que valoriza o “experimentar” em detrimento do “descobrir”, os pré-adolescentes já não separam a brincadeira do beijar e “ficar” escondido, da seriedade do relacionamento fecundo, e isso facilita a falta de carinho entre eles no difícil caminho rumo à sadia afetividade. A mídia, explorando a fabricação de pequenos “adultos” sobre estereótipos e ideias vagas de liberdade, faz deles vítimas perfeitas dessa crescente mania de valorizar a outra pessoa naquilo que ela pode me dar e não no inverso, provocando uma modificação profunda de comportamento que possivelmente irá desaguar em relacionamentos e matrimônios imperfeitos. Se hoje eu não valorizo a pessoa com quem fico, usando-a na medida do prazer que ela me possibilita, amanhã, certamente, não irei privilegiar o cônjuge que elegi (muitas vezes em requisitos errados), porque, no passar dos anos, a falta de sensualidade talvez o faça parecer decaído aos meus olhos. Porque ninguém mais procura se valorizar como ente dotado da graça da personalidade e da pessoalidade, torna-se difícil encontrar a medida certa nos relacionamentos, sem o respeito e sem a responsabilidade que eles acarretam.

O professor Felipe Aquino, em texto sobre namoro, ensina, a respeito dos relacionamentos de hoje: “É o instinto que comanda, não a razão. Como uma pessoa dessa pode amar, como pode dar-se, renunciar a si mesmo, se o que importa é a satisfação do seu corpo? Quando o corpo impera, a razão enfraquece, o espírito agoniza, e o amor perece”. Da valorização do “eu” há o descuido do “tu” e, consequentemente, nenhum relacionamento válido se efetiva, pois não há a complementaridade nem a entrega necessárias. O entendimento cristão de amor ao próximo (Lc 10,27) casa bem com esta intenção de amor frutuoso a ser buscado dentro do namoro. Porque o outro existe e ama, quero eu amá-lo em toda a sua extensão e profundidade para dele absorver o amor que me preenche. Nessa doação, que satisfaz plenamente o outro e, em consequência, a si mesmo, esconde-se a fórmula do sadio amor a ser aprendido no seio do namoro. Isso deve ser assimilado por aqueles adolescentes que, imaturos, anseiam por descobrir o verdadeiro significado das suas relações, para que, no crescimento da caminhada rumo ao amor conjugal, saibam discernir, ainda no âmbito do namoro, a sabedoria e responsabilidade que ele pede.

Em vista disso, não cabe nessa fase de amadurecimento a busca do prazer pelo prazer, em situações de sexo, masturbação, ficadas e outros. Estes momentos, ao invés de cimentarem uma sexualidade e afetividade sadias, acabam por minar nossa dignidade de filhos de Deus e fecham nossa vida afetiva na centralização dos nossos desejos, situação de egoísmo que nos faz morrer no pecado e anular a graça do Pai em nós. Por conta disso, essas receitas fáceis de namoro, compradas a preço de pechincha para preencher o nosso vazio pessoal na busca do prazer instantâneo, trazem um preço alto demais a ser pago em riqueza pessoal e intimidade com o próximo e com Deus. Modelando-nos na via fácil do carinho descartável, corremos o risco de tornar igualmente descartáveis a nossa dignidade e a beleza que há no namoro.

Importante é que, nessa brincadeira que se torna séria pela nossa maturidade afetiva encontrada em Deus, raspemos o “Longe!” para a escolha fácil do amor egoísta e o prazer que insiste em nos desviar do respeito pelo outro e o “Nem pensar!” para as oportunidades de pecado que nos levam a desprezar o amor verdadeiro, dado pelo Pai, em nossos corações. Saber namorar (e não ficar) deve ser, para nós, não a evocação vaga da letra da música, mas verdade de vida colocada em nós pela graça de Cristo.

Breno Gomes Furtado Alves
Fevereiro/2003


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *