Formação

Vidas que se pertencem

Nos dias em quenos encontramos, absolutamente, quase ninguém nega a ameaça do “câncer do individualismo” a querer manter tantas vidas encarceradas em si mesmas. Em situações de extremo isolamento, como não lembrar da obra clássica de Thomas Merton, um dos mais influentes escritores espirituais do século XX, intitulada:“Homem Algum é uma ilha”. O autor deixa tão claro que não só estamos neste mundo com os outros, o que é óbvio, mas somos responsáveis pelos outros. Também recordamos aquela máxima de Saint Exupéry, na sua obra “O Pequeno Príncipe”:“Somos responsáveis por aquilo que cativamos!”.

O Cristianismo dá um salto na compreensão do sentido de pertença que vai além da afeição, dos sentimentos ou mesmo dos laços de parentesco. Somos responsáveis pelos outros, não porque os cativamos simplesmente, mas porque o outro é dom de Deus, vida que Ele quis por si mesma. Vida desejada não importando se “um acidente ou uma tragédia” a gerou. É lamentável tal banalização da geração da vida, mas Deus quer esta vida e não a sua morte. Na sua raiz primeira e original está a beneplácida bondade de Deus que sabe perfeitamente tirar um bem de um mal. O sentido de pertença na fé cristã é fruto da comunhão e relação com o amor de Deus,“porque ele nos amou primeiro” (I Jo 4, 19). Este amor foi manifestado em plenitude em Cristo, Seu único Filho. Nele fomos todos feitos irmãos. Cada mistério de uma nova vida deve arrancar de nós entusiasmo e aquele vínculo de responsabilidade que teve o apóstolo por seu irmão Onésimo: “Ele é como o meu próprio coração” (cf. Fm 12). Cada nova vida traz a humanidade consigo e parte de nós. Quando a matamos também destruímos a nós.

Quando somos alcançados na nossa própria vida pelo esplendor e beleza, largura e profundidade do amor de Cristo, então não é difícil explicar o que faz tantas pessoas viverem um amor altruísta capaz de promover o outro, de viverem o sacrifício, a renúncia, a oferta da própria vida para que o outro seja feliz.Também aqui nesta experiência salvífica de amor não se dispensa a dor e o sofrimento. Quando essas pessoas são interrogadas acerca do segredo que as motivou a tal oferta de vida, são prontas a responder: o meu coração ama! Estes corações sabem perfeitamente que precisaram passar pela prova e pela purificação do amor; amor que os fez capaz de dar a vida pelo outro (cf. 1 Jo3,16).

Este amor não é masoquista, irracional ou alienante. É amor verdadeiro que não se encaixa numa lógica fria e calculista. Este amor jamais aceita “uns trocados ou fama de homens inteligentes e modernos” para se matar uma vida. Este amor sabe ser fiel aos seus princípios e valores que promovem a dignidade humana. Este amor não mata em nome de Deus e muito menos em nome de um progresso que se diz existir para melhorar as condições de vida. É amor fruto de um encontro com “quem amou-nos ao extremo” (cf. Jo 13,1). Amor maturado na escola do cotidiano, nos pequenos gestos, no silêncio e na oração. É amor que sabe discernir o bem e evitar o mal. Talvez a escola dos Santos nos ensine mais sobre esse amor do que as Cátedras das Universidades. Como não lembrar aqui de Gianna Beretta Molla,Santa dos tempos atuais. Sua vida cheia de amor fez a escolha de morrer para que seu pequeno bebê vivesse. Este é o amor que protege e que não escolhe nunca sua vontade egoísta. Ela pôde exigir que se protegesse seu bebê em qualquer situação. Só a mamãe ou alguém responsável pode fazer isso, proteger a vida por aquele indefeso que já não pode fazer o mesmo. Mas não precisa: ali é uma vida humana, dom de Deus.

Qual o sentido de pertença ao qual somos chamados a viver? Quais os vínculos que nos ligam uns aos outros? O que estamos fazendo com a vida? “Contra o pessimismo e o egoísmo que obscurecem o mundo, a Igreja está do lado da vida: e em cada vida humana sabe descobrir o esplendor daquele ‘Sim’, daquele ‘Amém’ que é o próprio Cristo” (João Paulo II, FC, 30). Revista-nos, Senhor, deste amor, que é o vínculo perfeito (cf. Cl 3, 14).

Arquivo Shalom


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